agosto 5, 2020

Hulk (2003) | Crítica

Criado por Stan Lee e Jack Kirby, o gigante esmeralda da Marvel Studios é um excelente ponto para diversas abordagens dramáticas devido a sua trágica condição ocasionada pela explosão de uma bomba e pela liberação de raios gama que atingiram o cientista Bruce Banner e criaram uma “dupla personalidade” em seu protagonista, muito mais selvagem e monstruosa, além de possuir uma força descomunal. O personagem, assumidamente influenciado pelo livro O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Sr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, possui um arco trágico que reside em lidar com essa dualidade que sempre se manifesta quando o protagonista se irrita. Ou, como estabelece Ang Lee nesse filme, através das emoções decorrentes de traumas do passado.

Curioso como Lee foi a escolha correta para coordenar o projeto, que clama por uma abordagem dramática profunda acima de qualquer componente de ação, mesmo que esse possua momentos pontuais que ainda o posicionem dentro do gênero. Porém, o diretor taiwanês procura ir além e, como prova através de sua inquietação na exploração da linguagem em seus projetos recentes, Ang Lee não se conforma em simplesmente criar um fundamento dramático eficiente, se arriscando a usar dos elementos expressivos do cinema para criar uma experiência que vai muito além do foco emocional da premissa e estabelece uma progressão quadrinhesca, quase como se presenciássemos uma história em quadrinhos em movimento, transpondo o dinamismo das imagens de um gibi na construção fluida que executa.

Indo além das capacidades gráficas dos efeitos visuais, Lee usa da decupagem para criar uma composição visual que simule os quadros desenhados das HQs, fazendo isso ao compor uma divisão de tela onde vemos dois personagens interagindo ou em situações que ocorrem simultaneamente, o que possibilita um dinamismo narrativo interessante por enquadrar diferentes pontos de vista sobre determinado evento; Outro aspecto interessante são os retângulos que aparecem por cima de um take que, as vezes, mostram um mesmo instante através de ângulos diferenciados. Já outro aspecto interessante é como, em certos planos, vemos um personagem recortado e colado de modo assumidamente plástico em um plano ou o background de uma cena se conectando a outra (um bom exemplo está no segmento que troca de um plano externo para um dentro do carro de Betty).

(Aliás, esse último artifício da narrativa se revela como uma possível inspiração para as irmãs Wachowski – que, tal como Lee, procuram sempre ir além dos limites da linguagem cinematográfica – que, em Speed Racer, usaram um elemento similar ao criar transições puxadas pelo recorte de um personagem em destaque.)

Toda essa dinâmica audiovisual quadrinhesca de Lee, que resgata a fluidez das imagens nas páginas das HQs se unem a uma abordagem fantasiosa mais assumidamente cafona e remanescente do espírito inocente e místico dos quadrinhos lançados na década de 60, onde eram usados inúmeros diálogos para descrever aspectos da trama e não haviam uma pretensão em serem verossimilhantes com determinados aspectos de sua premissa. Da transformação do Hulk – segmento emblemático do projeto – aos efeitos digitais plastificados, Ang Lee abraça esses exageros tipicamente vindos dos quadrinhos, seja a performance cartunesca de Josh Lucas fazendo a caracterização do empresário ganancioso e sem alma até frases genéricas e facilmente enxergadas como “ridículas”.

No entanto, o mais belo é ver como, não só Lee assume essa essência fantasiosa, cafona e cartunesca, mas consegue trabalhar com um forte componente dramático e, por consequência, temático, explorando sobre traumas paternais e como eles acabam por afetar o nosso “eu” futuro. E, claro, boa parte disso é entregue a excelente dinâmica de Bruce e seu pai, David Banner: desde o começo, vemos que David jamais demonstra uma admiração paterna honesta e emotiva pro Bruce, sendo seu filho mais um experimento, um “acidente”, que acaba por herdar o que se encontrava em seu material genético e que, anos após, devido a exposição dos raios gama, apenas libera aquilo que havia dentro do Dr. Banner. Através de um flerte com a fantasia, Ang Lee estabelece uma alegoria interessante sobre o medo acerca de ter como herança, os “erros” de nossos pais, materializado nos testes que David realizou em seu próprio corpo, sendo transmitidos ao seu primogênito.

Se, em outros filmes do subgênero de super-heróis, o drama seria tratado como algo “a parte” dos poderes, aqui em Hulk, o conflito de seu protagonista é o fato de ter essa dualidade adormecida e que desperta, enfurecida, desesperada por ter onde liberar seu trauma preso durante anos. Então, olhando por essa ótica dramática do arco de Bruce, o “Hulk” seria uma manifestação traumática do que Bruce sofreu. E, a medida que suas memórias retornam, o gigante esmeralda começa a ganhar contornos que o tornam humano, desde uma expressividade em sua animação até um sentimento de “liberdade” ao expurgar algo que parecia angustiado para sair de seu protagonista – em certo instante, Banner menciona que a sensação de estar como Hulk foi gratificante.

O mais interessante desse aspecto é observar que, somente ao ter conhecimento de que seu pai está vivo e de ter sido, indiretamente, responsável pelo que se tornou, Banner acaba por manifestar a criatura que existe dentro de si, uma curiosa representação de como liberar tais traumas paternais não é uma solução simples e que, a presença tardia deles em nossa vida, uma vez que fomos abandonados – ou ignorados durante uma parte de nossas vidas – , podem liberar o que existe de pior guardado em nossas frágeis memórias (inclusive, é belo notar como o fato das lembranças de Bruce terem sido resguardadas mais parece um mecanismo de defesa “inconsciente” do protagonista para evitar um martírio eterno do que um mero esquecimento). Contudo, uma hora é importante que venhamos a confrontar o nosso passado e nossos demônios internos, algo que culmina na brilhante sequência onde vemos Bruce e David se confrontando, física e psicologicamente.

Além de conceitualmente brilhante em como concebe a mise-en-scène da cena de modo quadrinhesco, Lee articula o componente dramático com eficiência no desenrolar do segmento, procurando um foco emocional do confronto e expondo todas as feridas de Bruce e todo o desprezo de David por seu filho, tratando-o mais como uma mera cobaia do que como seu primogênito. E o clímax é eficaz nesse aspecto, já que, ao tentar consumir toda a força de seu filho, David acaba por extrair a dor de Bruce, acumulada por anos e que acaba por destruí-lo. Nesse aspecto, até o desfecho aparentemente “comercial” – afinal, essa parte do confronto é física – , consegue encontrar justificativa dentro da concepção temática e dos fundamentos dramáticos da direção de Lee.

Então, olhando para a época que foi lançado e a construção da imagem do subgênero, compreendo o fato de Hulk ter sido tão execrado em 2003, afinal, era uma obra extremamente a frente do seu tempo. Contudo, se filmes como Speed Racer foram revisitados com olhos mais admiradores pela comunidade cinéfila com o passar do tempo, nada mais adequado que o mesmo ocorra ao filme de Ang Lee que, caso lançado no período atual onde somos consumidos por uma quantia ilimitada de obras do “cinema de super-heróis” que jamais tentam se arriscar em suas fórmulas prontas, teríamos um filme aclamado por inovar ao criar um tratamento completamente pessoal, autoral com a linguagem cinematográfica e usá-lo para contar uma história dramaticamente exemplar sobre traumas ocasionados por nossos pais e a necessidade humana de confrontar os demônios de nosso passado como forma de sermos capazes de continuar.

Poucos projetos do subgênero tem a força audiovisual desse filme.

Avaliação: 5 de 5.
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