Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs, 2018) | Crítica

Filme de abertura do Festival de Berlim deste ano, de onde saiu com o prêmio de melhor Diretor, “Ilha dos Cachorros” surgiu da vontade de Wes Anderson de falar sobre o abandono. Com a fama de não gostar muito dos seres de quatro patas, diante da sorte que os mesmos tiveram em algumas de suas produções anteriores, ele prova o contrário com uma bela e singular declaração de amor em formato de animação.

Num Japão distópico, o prefeito Kobayashi ordena que todos os cães da cidade de Megasaki sejam exilados em um lixão a fim de combater uma gripe canina. Um garoto chamado Atari, contudo, não aceita se separar de seu fiel amigo, indo parar no local a fim de resgatá-lo. Há muito ainda por trás disso que deixo para você descobrir quando assistir.

Fato é que o roteiro assinado por Anderson –, a partir da história do próprio, ao lado dos parceiros habituais Roman Coppola e Jason Schwartzman, e Kunichi Nomura –, consegue equilibrar emoção, política e “olhar estrangeiro” com maestria. Ressalto este último por se tratar de uma obra original, construída em cima de elementos de uma tradicional cultura de forma coerente. A acusação de apropriação cultural, por parte de alguns, me parece assim mais uma polêmica gratuita de quem quer mais polemizar.

Após debutar na técnica de stop-motion com o marcante “O Fantástico Sr. Raposo” (2009), o cineasta entrega mais uma obra de alta qualidade artística através dos detalhados cenários, composição de personagens e fotografia (assinada por Tristan Oliver). Como cinema de autor, basta os primeiros minutos de “Ilha dos Cachorros” para identificar o seu peculiar estilo narrativo e estético, como visto em “Os Excêntricos Tenenbaums” (2001), “Moonrise Kingdom” (2012) e no premiado “O Grande Hotel Budapeste” (2014).

Além de me parecer já estar garantido entre os cinco finalistas ao Oscar de melhor Animação do próximo ano, tendo “Os Incríveis 2” como maior concorrente até o momento, acredito também em uma indicação para Alexandre Desplat pela inspirada trilha sonora. Como curiosidade, mais de mil bonecos foram criados artesanalmente para o longa, sendo necessárias 24 fotos para conseguir apenas um segundo em movimento.

Em entrevista a um site, durante o Festival de Berlim, Wes Anderson revelou que desde que entrou no universo da animação com “Sr. Raposo”, se aproximou muito da obra do mestre Hayao Miyazaki, de “A Viagem de Chihiro” (2001), aprendendo “o valor do silêncio que há na natureza”. Uma grande referência que, de certa forma, soma no seu novo trabalho.

Como de costume, o prestigiado elenco de vozes conta com nomes como Bryan Cranston, Edward Norton, Bill Murray (em sua oitava colaboração com o diretor), Scarlett Johansson, Greta Gerwig, Jeff Goldblum, Harvey Keitel, Frances McDormand e até Yoko Ono. Longe de ser um filme infantil, “Ilha dos Cachorros” apresenta certa complexidade, ironia e reflexão na medida certa, e muito afeto.

  • Duração: 101 min.
  • Direção: Wes Anderson
  • Roteiro: Wes Anderson, história de Wes Anderson, Roman Coppola e Jason Schwartzman, e Kunichi Nomura
  • Elenco: Bryan Cranston, Edward Norton, Bill Murray, Scarlett Johansson, Greta Gerwig, Jeff Goldblum, Harvey Keitel, Frances McDormand, Yoko Ono, Koyu Rankin, Kunichi Nomura, F. Murray Abraham

Moisés Evan

Formado em Jornalismo, acredito na cartilha de "The Post", e também em Publicidade, mas sem a intenção de fazer "Três Anúncios para Um Crime". Como "Lady Bird", ao alçar voo para outras bandas, cheguei até aqui. Tem horas que o mundo parece nos envolver numa "Trama Fantasma" ou nos colocar numa enrascada como em "Dunkirk". Não vou mudar "O Destino de Uma Nação" escrevendo sobre o que mais amo, mas sempre que eu postar, espero que você "Corra!" para ler e não tenha receio de comentar e/ou discordar. "Me Chame Pelo Seu Nome"? Melhor não. Mas pode ser pôr @sr.lanterninha. Vivo num mundo de sonhos e monstros e um dia hei de descobrir "A Forma da Água" em seu estado mais bruto e belo.

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