outubro 20, 2020

Insônia (2002) | Crítica

É nítido que a premissa de Insônia, remake americano do longa norueguês de 1997, é interessante e promissora: os policiais Will Dormer (Al Pacino) e Hap Eckhart (Martin Donovan) são enviados a uma pequena cidade no Alasca para investigar o misterioso assassinato de uma jovem. Contudo, durante uma missão de captura do suspeito, Dormer acidentalmente atira em seu parceiro e não admite o ocorrido. E enquanto tenta solucionar o crime na qual foi chamado para investigar, sofre com um forte peso na consciência e a insônia decorrente desse evento e da aparição de um suposto álibi que provoca constantemente o detetive.

Se, por um lado, essa premissa é perfeita para conceber um thriller policial honroso as histórias pouco convencionais da filmografia de Christopher Nolan, o resultado de tal investida é muito diferente, pois o principal problema que pode ser notado em Insônia é a completa ausência de quaisquer traço autoral de sua direção, se limitando a executar a rica trama na qual possui em mãos de modo enfadonho, preguiçoso e convencional. A sensação ao final da projeção é de que já vimos essa história e contada de forma muito melhor em produções mais interessantes.

O conceito da “insônia” que está no título seria uma maneira diferenciada de conduzir a velha estrutura de investigação criminal, sendo um elemento realmente interessante ao imprimir as consequências do tempo demasiado na qual Dormer passa acordado. Contudo, o que vemos aqui é o oposto: além das sequelas desse artificio chegarem apenas na transição do segundo para o terceiro ato, a maneira na qual Nolan encontrou de retratar tal evento é através de uma expressão do personagem que, ao tentar evidenciar um cansaço, faz parecer que Will se tornou um retardado, algo que pouco representa as possibilidades oferecidas pelo recurso; e, como se não fosse o suficiente, o retrato da deterioração mental de Dormer é feito através de flashes da montagem com acontecimentos diversos, se revelando uma articulação pouco inspirada do excelente montador Dody Dorn, que colaborou com Nolan no espetacular Amnésia (2000).

Ainda sobre o desperdício de boas ideias, o elemento da morte do parceiro de Will executada pelo próprio – se foi acidental ou não, é uma dúvida curiosa e bem construída – não tem o peso que poderia exercer, tanto no íntimo de seu protagonista quanto na maneira que o evento afeta seu psicológico, algo reforçado pela frágil construção do “vínculo” entre suas figuras: além de apressado, é resumido a uma interação pouco cativante e após isso, nada mais é construído em torno dos personagens, tornando-os personalidades dramaticamente fracas e com arcos mal-articulados. Al Pacino se esforça ao máximo para conceber uma construção interpretativa de Dormer, mas falta um equilíbrio certeiro da direção, que o coloca murmurando em certos momentos apenas para que grite sem uma razão clara depois, jamais decidindo entre uma composição impulsiva ou fria e criando uma caricatura pouco convincente.

Já Hilary Swank (como de costume) é a melhor em cena ao oferecer a construção da policial Ellie Burr uma personalidade controlada, calorosa, sempre determinada e que se posiciona como a figura mais interessante em cena. Já Robin Williams entregou aqui, um dos trabalhos mais frágeis de sua filmografia, pois a constante presença ameaçadora e nefasta pouco combina com a aura mais amigável e gentil do ator em trabalhos como Sociedade dos Poetas Mortos e Gênio Indomável (claro que, não foi culpa do falecido ator, mas suas características que lhe moldaram com um dos intérpretes mais notáveis do cinema pouco condizem com a persona que deveria incitar aqui). Martin Donovan pouco registra na narrativa, funcionando mais como um plot do que como uma figura. Mas o grande problema de Insônia está na articulação de Nolan e o comodismo do realizador em não procurar uma veia autoral.

E o mais impressionante é constatar que esse é um filme do Nolan, já que suas marcas pouco estão presentes aqui. A decupagem das cenas é um exemplo notável, já que a elaboração desses momentos é pouco inspirada e filmada na mesma lógica, quase sempre empregando o plano e contra-plano no modo de enfocar tais eventos e, ainda que se esforce para entregar enquadramentos inventivos em breves momentos, não passam de tentativas avulsas e que pouco registram na narrativa. Por citá-la, é curioso como Nolan jamais conduz o mistério de uma forma estimulante ou que faça seu espectador realmente se envolver com a progressão da investigação, pois, além de pouco afetar os contornos da trama – quase se tornando irrelevante em vários momentos – , a revelação de quem estaria por trás do crime é bem previsível, fragilizando qualquer resquício de surpresa no momento em que é revelado.

No entanto, nem tudo é frágil em Insônia, já que sua construção visual até esboça um cuidado meticuloso da produção: A cinematografia de Wally Pfister (colaborador recorrente de alguns trabalhos da filmografia de Nolan) compõe uma atmosfera visual fria e nublada do Alasca que é incitada pelos tons azulados e acinzentados dos planos e pela maneira como a câmera captura belíssimas paisagens visuais (a sequência da neblina é um excelente exemplar da construção de suspense que o projeto poderia transmitir em outros instantes). E, claro, o maior destaque está nas admiráveis melodias do compositor David Julyan, que transmite uma forte melancolia através de uma musicalidade sutilmente bem inserida no contorno das cenas – o compositor já havia brilhado nesse aspecto no Amnésia.

Insônia poderia ser um dos melhores filmes da filmografia de Nolan caso o diretor soubesse articular a riqueza da sua premissa, algo que se revela como o completo oposto, já que o resultado final é uma obra enfadonha e convencional, o que dentro de uma filmografia que é tão permeada pela marca autoral do diretor – independente de ser boa ou não – , se revela como uma obra avulsa, deslocada e que não entrega o potencial que incita, se conformando em ser mais um thriller investigativo entre milhares do que propor algo mais cativante do que o resultado final.

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