outubro 20, 2020

Interestelar (2014) | Crítica

Revisitando as produções da filmografia de Christopher Nolan e analisando atentamente a linguagem que emprega em suas produções, é nítido ver como ele sempre recorre a contextualização didática de conceitos, revelações e acontecimentos na tentativa de deixá-los mais acessíveis ao espectador casual. E se isso funcionava com determinadas ressalvas em seus trabalhos anteriores, aqui em Interestelar alcança o insuportável, já que Christopher e seu irmão, Jonathan, acreditam tanto em sua suposta genialidade que fragilizam qualquer inteligência da obra que constroem ao esclarecer de maneira expositivamente repetitiva os enigmas e apostar em uma abordagem dolorosamente sentimentalista, optando pela artificialidade ao invés de elaborar uma emoção de modo genuíno.

É evidente que eles até abrem de modo extremamente promissor: o ato inicial é instigante por mostrar a maneira que a humanidade está encontrando para sobreviver e por possibilitar uma visão mais dramática da situação. Existe uma ausência de informações que esclareçam de modo direto os motivos que afetaram a estabilidade da Terra nesse futuro, algo curioso pelo fato de Nolan não se preocupar em contextualizar didaticamente os eventos que levaram a tal situação (ainda bem), optando por uma abordagem mais discreta e possibilitando a capacidade do espectador em deduzir os possíveis acontecimentos que levaram a vida humana no planeta a um estado de desespero constante.

Porém, o aspecto que mais concebe o virtuosismo temático desse ato é a construção dramática da família de Cooper e, em especial, a importante relação que nutre com sua filha, Murphy: além de uma dinâmica sensível e verdadeira entre Matthew McConaughey e Mackenzie Foy, o diretor compreende a importância narrativa das interações, sempre filmando-as de modo caloroso e mostrando que o laço afetivo entre seus personagens é fortíssimo – algo que ele destrói com o avanço narrativo ao exibir uma ideia que foge completamente dos conceitos realísticos a respeito de física e astronomia e adentra em um campo que flerta com a fantasia e que pouco havia sido fundamentado de maneira coerente no avanço da narrativa – , além de explicitar o peso do “abandono” de uma figura paterna de modo admirável, mesmo que derrube o tocante para abraçar a artificialidade em determinados momentos.

Entretanto, se mesmo com seus defeitos, o primeiro ato instiga o espectador, o terço central da projeção é onde Interestelar começa a ser nocauteado por Christopher e Jonathan Nolan. Ao sair da Terra, perde-se um fator emocional com muita força, ainda que ele se encontre em momentos pontuais – todo o instante que Cooper vê as mensagens é dramaticamente poderoso – , mas sem o mesmo impacto, já que o aspecto humano que havia sido bem alicerçado anteriormente era o núcleo Cooper e Murphy, enquanto os demais jamais foram construídos como personagens de cunho emocional. Então, quando a escala saí do micro (planeta Terra) e vai ao macro (o espaço), o laço de afeto que criamos durante os 40 minutos iniciais havia ficado para trás. E, através disso que se encontra um certo sentimentalismo que almeja uma comoção, mas logo percebemos a artificialidade do momento.

No final – ao menos para esse que escreve – , é mais um filme de artificialidades que tentam atingir uma emoção mais intensa, uma entrega emocional do espectador, mas que soa exageradamente sentimentalista por empregar artifícios manipulativos que exercem efeito de modo isolado, nunca em conjunto. Um bom exemplo é a trilha de Hans Zimmer: é poderosa na maneira como delineia o deslocamento dos personagens pelo espaço, com temas cuidadosamente bem construídos que remetem a construção musical de compositores como Vangelis em seu (fabuloso) trabalho em Blade Runner, e um compasso dramático funcional que evoca suspense, grandiosismo e emoção através de suas melodias. Infelizmente, para Nolan, a solução é inserir as composições de Zimmer em momentos chave da projeção para atingir o que deseja, como bem exemplifica o instante na qual Cooper tenta ancorar na Endurance e que, é nítido que muito do investimento vem da composição musical – o que me fez pensar que, sem a faixa No Time for Caution desse instante, ela se tornaria bela, mas sem qualquer grandiosismo que não fosse diretamente atrelado as musicalidades de Hans.

Mas o problema nem chega a ser necessariamente esse: Nolan usa do maior defeito de sua filmografia – a exposição didática – para descrever tudo em cena, até aquilo que poderia ser resguardado. A verborragia de Christopher e Jonathan aqui é o defeito que mais desfaz o preciosismo de Interestelar: se explicar os conceitos de física, ainda que necessários, incomodem pela forma como Nolan mastiga absolutamente tudo para o espectador sem abrir margem para um entendimento da própria platéia, quando ele passa a descrever quaisquer tipo de evento que não é revelado pela projeção, deixa de ser um “auxílio” para trilhar o filme e se torna um manual para deduzir com clareza até onde Jonathan e Christopher querem realmente chegar com a obra. Outro demérito notável é a pretensão dos realizadores em tentar abordar, de modo “filosófico”, a relação humana com o espaço, algo que obras como Gravidade (2013) e Ad Astra (2019), por exemplo, souberam alcançar com mais sutileza.

Aliás, “sutileza” é o que falta a Nolan em Interestelar: é inegável que o alicerce dramático dele é forte, mas Nolan não consegue se ver satisfeito com isso e procura expelir a lágrima do espectador através do aperto e não empregando aquilo que o cinema de ficção científica possui de melhor, as sutilezas. Diferente dos exemplos citados no parágrafo acima, Nolan se ausenta completamente desse artifício, tornando tudo emocionalmente óbvio e frágil. Outro defeito que ele enfrenta é a tentativa dos realizadores em ser profundo e complexo, quando, na verdade, só alcançam uma construção narrativa bem lógica e compreensível, jamais alcançando o que realmente pretendia, algo que começa a revelar uma forte autoindulgência por parte de Christopher e Jonathan.

Tal sentimento autoindulgente só aparenta piorar quando chegamos ao frágil ato-final: se antes Nolan já estava em um doloroso exercício de expositividade didática, aqui ele chega a o absurdo de contextualizar todo seu filme em um longo segmento que só fragiliza a obra, revelando uma pretensa inteligência que não impressiona, ou pelo fato do público já ter compreendido onde os realizadores queriam chegar ou por realmente não soar tão “genial” como Nolan intencionava, apresentando um resultado falho. E se não bastasse a exposição preguiçosa e irresponsável com o próprio filme que destrói a capacidade reflexiva de uma boa ficção espacial – algo que o realizador fez bem em A Origem – , Christopher e Jonathan ainda fazem questão de martelar quinhentas vezes o fato em nossa mente, através de flashbacks preguiçosos que poderiam ser uma ferramenta para compreender o mistério, mas são acompanhados de diálogos pouco naturais que almejam mastigar pro espectador a experiência, sem jamais deixá-lo pensar por conta própria.

Todavia, mesmo com o emprego insuportável do sentimentalismo, os irmãos Nolan parecem ter esquecido completamente dele no momento mais dramaticamente importante de toda a narrativa: o reencontro entre Cooper e Murphy. Pare e reflita: se passaram décadas de distância entre o relacionamento de pai e filha e, ao finalmente rever sua filha, Cooper continua jovem, mas Murphy está perto de sua morte. Ou seja: um excelente pilar para conceber um momento emocionalmente poderoso. Contudo, não é o que ocorre: além das diversas gerações da família sequer ligarem para Cooper – ele faz o mesmo – , a conversa entre pai e filha que foram distanciados por anos e anos se resume a alguns sorrisos e frases belas que tiram a possibilidade de um desabamento emocional poderoso e sobrepõe uma frieza vergonhosa, afetando completamente o vínculo que criamos com ambos. E, por consequência, manchando a que poderia ser a melhor cena de Interestelar.

Felizmente, seu elenco é a força magnética que Interestelar precisava: Matthew McConaughey incorpora em Cooper um personagem complexo pelo amor que imprime sentir pela família – em especial, sua filha – e pela estabilidade em uma missão que poderia soar desesperadora para os demais (quando ele consola a preocupação de Romilly, por exemplo); e, tem uma cena em especial, onde o ator só reafirma o seu alcance dramático, fazendo de sua performance inspirada, o pilar emocional do momento. Já as três versões que interpretam as fases de Murphy são talento puro: Mackenzie Foy imprime uma inocência aliado a uma completa paixão e inteligência pelos limites do espaço, criando um contato admirador do espectador pela sua presença afetiva em sua dinâmica com McConaughey. Já Jessica Chastain dá a Murphy adulta uma independência e rigidez que mostra a maneira na qual a vida lhe moldou; e Ellen Burstyn, aparece pouco, mas trás a afetuosidade da Murphy jovem.

Contudo, o roteiro e a articulação problematizam tantos elementos, que afetam o desempenho dos demais em cena: Anne Hathaway talvez seja a mais prejudicada, já que sua dedicação a missão e seu lado emotivo são aspectos completamente superficiais, fazendo do que era uma cientista forte e emocionalmente complexa no papel, uma figura insuportável e que pouco acrescenta a projeção, no final das contas – qualquer um dos tripulantes da Endurance poderia ter feito o que ela executou no final – , o que é decepcionante visto o potencial de sua persona e a presença em cena de Hathaway, que cria uma relativa empatia pelo seu belíssimo alcance dramático. Outros afetados são o Michael Caine, Wes Bentley, David Gyasi e Casey Affleck.

Felizmente, se Nolan encontra problemas na composição da narrativa, no aspecto audiovisual, é mais um espetáculo de completo deslumbre: o design de produção é exuberante no rico detalhismo do interior da Endurance, conferindo realismo ao espaço, além de entregar uma concepção visual dos planetas que se mostra admirável – e que Nolan pouco explora, claro. Já a escala visual grandiosa se revela fascinante por conceber a dimensão do espaço em sua beleza, explicitada através de planos-abertos que demonstram a extensão do vazio daquele local. Os efeitos computadorizados, por outro lado, só recriam a magnitude de planetas e o deslumbre de traspassar um wormhole.

Todavia, não é esse deslumbre que se revela capaz de salvar Interestelar da mediocridade de uma articulação didática que falta chamar o espectador de burro, já que mastiga todas as informações de modo que fragilize qualquer “genialidade” aparente, além de apostar em uma carga de sentimentalismo que soa artificial do que realmente convincente como construção dramática. E no final, uma experiência que até tinha potencial de ser uma obra complexa e emocionalmente eficiente, mas se falha ao jamais alcançar tais virtudes.

Uma aula de autoindulgência por parte de Christopher e Jonathan Nolan.

Avaliação: 2 de 5.
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