Jogador Nº1 (Ready Player One, 2018) | Crítica

Por mais que Steven Spielberg seja levado a sério com seus dramas politizados –, como o recente “The Post – A Guerra Secreta” –, é na aventura e na ficção científica compromissada apenas com o divertimento que ele se mostra mais à vontade e um grande mestre. “Jogador Nº1” dialoga com as gerações nascidas nos anos 1980 e 90, como a minha, com a mesma intensidade com que pode marcar toda uma nova, criada na era da Internet e dos jogos online.

Considerado o Santo Graal da cultura pop, o livro homônimo de Ernest Cline foi adaptado para os cinemas pelo próprio, ao lado de Zak Penn. A trama se passa num futuro distópico e acompanha o humilde Wade Watts (Tye Sheridan). Morando com a tia em contêineres empilhados, ele vive num mundo sob os efeitos de uma grave crise energética. Como o resto da humanidade, ele prefere a fantasia virtual do OASIS, onde tudo é possível, à dureza da realidade.

Quando o criador do jogo, o gênio e excêntrico James Halliday (Mark Rylance), morre, um desafio é lançado pelo próprio e quem completá-lo herdará sua fortuna e o controle de sua empresa, a Gregarious Simulation Systems (GSS). Começa assim uma grande caça ao tesouro, mobilizando jogadores no mundo todo, incluindo Wade, uma avatar misteriosa chamada Art3mis (Olivia Cooke) e até uma grande corporação de tecnologia, a Innovative Online Industries (IOI).

Para quem leu o livro não recomendo ficar comparando com o filme. A não ser que seja por mera diversão. Como de praxe, há uma perda em profundidade no desenvolvimento de personagens e situações, tendo muito que ser deixado de lado e novas rotas traçadas. OASIS, por exemplo, é bem mais do que um jogo virtual. Não precisava também ter emagrecido o protagonista. A presença de Cline no roteiro garante, de certa forma, que a essência seja mantida.

Como um entretenimento que precisa conquistar a atenção da plateia de imediato e manter o interesse do início ao fim, ao partir logo para a caça ao Easter Egg de Halliday, o longa ganha em dinâmica e agilidade. Óbvio que eu gostaria que mais daquele universo fosse explorado, assim como a ausência de algumas sequências e elementos, cinematográficas, me deixou sentido. No entanto, vendo pelo lado racional e fílmico, as mudanças são compreensíveis.

Estava com receio de me desconectar da história na transição do live-action para a animação, o que felizmente não aconteceu. E mais, pela primeira vez vi um filme com direção, estética e ritmo de videogame que funciona perfeitamente até para quem não está “jogando”. Se o objetivo de Watts e seu avatar Parzival é descobrir segredos escondidos no vasto mundo do OASIS, o nosso do lado de cá é identificar as inúmeras referências da cultura pop.

Com sequências eletrizantes e muitos personagens conhecidos do cinema, da TV e dos games, embalados pela ótima trilha sonora de Alan Silvestri, “Jogador Nº1” é de arrepiar cinéfilos e gamers. Se o livro já tinha me deixado nostálgico, o filme me deixou bastante satisfeito. Que Steven Spielberg continue a fazer obras densas, mas que não demore a voltar à ficção científica. Se assistir pela primeira vez foi bom, acredito que na segunda será ainda melhor.

  • Duração: 140 min.
  • Direção: Steven Spielberg
  • Roteiro: Zak Penn e Ernest Cline, baseado no livro de Ernest Cline
  • Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, Mark Rylance, Simon Pegg, Lena Waithe, T.J. Miller, Philip Zhao

Moisés Evan

Formado em Jornalismo, acredito na cartilha de "The Post", e também em Publicidade, mas sem a intenção de fazer "Três Anúncios para Um Crime". Como "Lady Bird", ao alçar voo para outras bandas, cheguei até aqui. Tem horas que o mundo parece nos envolver numa "Trama Fantasma" ou nos colocar numa enrascada como em "Dunkirk". Não vou mudar "O Destino de Uma Nação" escrevendo sobre o que mais amo, mas sempre que eu postar, espero que você "Corra!" para ler e não tenha receio de comentar e/ou discordar. "Me Chame Pelo Seu Nome"? Melhor não. Mas pode ser pôr @sr.lanterninha. Vivo num mundo de sonhos e monstros e um dia hei de descobrir "A Forma da Água" em seu estado mais bruto e belo.

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