outubro 25, 2020

Joias Brutas (2019) | Crítica

A deterioração moral da busca por dinheiro e poder.

Adam Sandler, definitivamente, não é um bom comediante: dono de um timing cômico problemático e repleto de muletas que o tornam antipático, suas figuras humorísticas são completamente semelhantes em personalidade e denotam a falta de originalidade do intérprete ao gerar a risada de seu público. Sem contar que, boa parte dos filmes que participam são comédias que se demonstram incapazes de arrancar risadas da platéia – ou que mal tentam – , geralmente apelando para esteriótipos preconceituosos com minorias como negros e mulheres. No entanto, quando jogado em um projeto dramático e desafiado a entregar algo mais “intenso” em sua performance, Sandler consegue impressionar ao demonstrar que, com as pessoas adequadas, pode exibir algum talento. Paul Thomas Anderson foi um dos primeiros a lapidar esse outro lado do ator no aclamado “Embriagado de Amor” (que ainda não tive a oportunidade de conferir) e Noah Baumbach também soube entregar um papel diferenciado a Sandler no excelente “Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe“. E claro, agora ao lado dos irmãos Josh e Benny Safdie, neste fabuloso “Joias Brutas“. 

Aqui, Sandler personifica o joalheiro Howard Ratner, um dono de uma joalheria que trabalha com meios “clandestinos”, algo que fica nítido quando notamos que o protagonista está sendo perseguido por uma dívida pendente e precisa correr contra o tempo para resolver esse mal-entendido. Diferente do tipo habitual de Sandler, a figura de Howard é rica em valores cinematográficos, dado as suas características que rodeiam a sua personalidade: Ratner é completamente impulsivo, estressado e explosivo na maneira como se expressa, quando a situação sai do seu controle, o protagonista reage de forma semelhante; é uma persona complexa por demonstrar uma degradação iminente ao intensificar seu envolvimento nesse universo – inclusive, há um plano bem sutil onde vemos o personagem dentro de uma fonte em uma praça, evidenciando o seu “mergulho de cabeça” nesse mundo criminal perigoso – , é um homem preso em um mundo que não segue as suas regras e que pode matá-lo a qualquer momento, completamente imerso nessa realidade pouco convidativa, como exemplifica a relação que nutre com a “esposa” e seus filhos, sempre se mantendo distante, sem um contato íntimo, paternal e caloroso. E, claro, o ator transmite perfeitamente todas essas camadas interpretativas, entregando  uma performance intensa e bem construída, especialmente em sua fisicalidade, já que caminha e se expressa de maneira retraída, com os ombros incorretos, voltados para baixo e com um caminhar característico. É o papel definitivo do ator. 

(Inclusive, é curioso como os Safdie são eficientes ao ironizar a carreira humorística de Sandler com momentos como aquele na qual sua esposa, Dinah, olha para ele e afirma: “Seu rosto é tão estúpido”, enquanto Sandler faz uma “feição cômica”). 

Porém, Adam não é o único destaque de “Uncut Gems“, já que os verdadeiros merecedores de aplausos aqui são os irmãos Safdie: após consagrarem seu nome em definitivo com o elogiado “Bom Comportamento” de 2017 (filme na qual realizarei um texto muito em breve), os diretores voltam a acertar nesse drama criminal que, basicamente não para. Desde do momento em que conhecemos Howard caminhando pelas ruas da movimentada Nova York até o encerramento catártico da obra, a narrativa segue um compasso arriscado, pois poderia deixar a obra desordenada, já que o roteiro (escrito pelos Safdie ao lado de Ronald Bronstein) investe em encher a trama de acontecimentos simultâneos que, começam a se acumular aos poucos, criando uma enervância constante e possibilitando um ritmo ainda mais intenso, já que a história não respira, sempre caminhando com uma compulsividade dos eventos – e um bom exemplo é um segmento durante o meio do segundo ato que é movido com um compasso abarrotado, reforçando a tensão eminente. No entanto, Josh e Benny sabem como controlar os elementos que rodeiam o seu projeto, criando uma ordem que surpreende positivamente ao possibilitar o espectador compreender a linha de eventos na qual presenciamos (a montagem auxilia essa função ao caminhar por um compasso eletrizante, mas nunca desesperado, o que é complexo de se realizar e louvável quando bem executado).

O filme não perde tempo ao imergir o público no universo de seu protagonista: os créditos de abertura acompanham o personagem caminhando pela imensa Nova York, efetuando compras e vendas nesse mundo do joalheiros e criando uma mística que o torna atrativo e imersivo, mas a sua maneira, nunca diretamente, mas aos poucos vai puxando nosso interesse e investimento na história que estão narrando. A construção desse núcleo é cuidadosa e a maneira como os Safdie mantém a atenção da platéia vem da sensação eminente de tensão e a enervância de que algo pode acontecer aos seus personagens. Já os diálogos são recitados em uma cadência mais acelerada, são atravessados e sempre muito verborrágicos, o que força o espectador a estar completamente disposto a acompanhar essa progressão mais “acelerada” da narrativa. A atmosfera estética dos diretores denota uma particularidade estilística no emprego de uma energia visual pulsante que pode ser admirada na cinematografia com a utilização do néon e cores fortes, além de um uso intenso das luzes presentes nos espaços. Já a trilha sonora imprime melodias com sintetizadores, emulando uma musicalidade oitentista e totalmente condizente com o decorrer da trama. 

A câmera dos diretores é bem empregada, com um olhar atento e observador, além de sempre acompanhar o protagonista pelos ambientes com uma fluidez que posiciona o público naqueles espaços – e os breves usos do shake-in-cam são pontuais para intensificar a tensão que se constrói aos poucos. Os Safdie também utilizam o recurso do zoom-out e in para identificar detalhes minuciosos nos locais, ressaltando o certo impacto que eles possuem. O design de produção é outro destaque por compor aquele mundo de luxúria com atenção, desde a casa da família de Howard até o quarto de apartamento na qual o personagem mora, há um aspecto ostentativo que mostra o sucesso financeiro de Ratner até o atual momento; já a joalheria dele é composta de um espaço claustrofóbico – reforçado pelo uso de close-ups, que geram um incômodo propositado para determinados segmentos – , que retrata como aquela vida oprime a figura, além de completamente decorada com vidraças e imprimindo uma elegância discreta. 

No entanto, a ornamentação visual da loja de Howard não é um mero detalhe, executando uma função maior na temática que os irmãos Safdie almejam imprimir. Em uma camada interpretativa mais profunda, “Joias Brutas” fala sobre a destruição moral do capitalismo descontrolado, mostra como a busca desenfreada por riqueza e poder faz até o homem mais correto se envolver em ambientes na qual não possui consciência de seu perigo. A corrupção da moralidade de um sujeito através dos bens materiais e sua obsessão por cada vez mais exemplifica como o universo retratado em “Uncut Gems” continua o mesmo, embora seja ambientado em 2012. A ganância desesperadora pode destruir vidas e sonhos, além de ser capaz de deteriorar a personalidade de pessoas corretas, se tornando apenas escravos daquilo que possuem (nesse aspecto, Tyler não estava tão equivocado quanto aparentava). O exemplo perfeito que consolida o resultado de viver daquela forma é o encerramento que, além de surpreendente na sua composição, é exato na mensagem que emite, demonstrando a conclusão de uma vida semelhante a de Howard Ratner. 

Pois, independente de todo o dinheiro e poder que construímos, no final, jamais iremos levar aquilo conosco quando chegarmos ao limiar da vida. Uma mensagem simples e até óbvia, mas que explicita a inteligência do roteiro de Josh e Benny Safdie. 

E espero que continue realizando trabalhos como esse. 

Avaliação: 5 de 5.
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