qua. fev 26th, 2020

Jojo Rabbit (2020) | Crítica

     Nas mãos do diretor Taika Waititi (Thor Ragnarok) e com a proposta de ser uma sátira ao nazismo, a produção logo tomou ares gloriosos, pois se trata de um tema atual, que curiosamente, no sentido mais pejorativo possível, está em evidencia. O diretor também assina o roteiro e reforça a ideia, vista no filme, que se trata de uma opinião, um ponto de vista e não uma simples história a ser contada. O curioso é que “ninguém” quis interpretar o personagem de Hitler, segundo o próprio Taika, os agentes consultados não deram o aval para que seus atores assumissem o papel. A Disney, agora proprietária da Fox, ficou incomodada nas sessões de apresentação, os executivos se preocuparam com a imagem da empresa ligada a uma sátira como essa, se alguém tinha alguma dúvida que a Disney iria modificar/alterar os bons projetos da Fox, agora caiu por terra, não foi dessa vez, ainda, mas a empresa já anunciou a mudança no nome Fox Entertainment  e provavelmente o próximo passo é alinhar ao “padrão Disney” de fazer cinema.

     O roteiro não é tão profundo ou super elaborado com vários desenvolvimentos ou camadas, isso existe, mas com a função de não deixar “raso” e artificial, o próprio tema já traz sua profundidade. A trama gira em torno do protagonista que dá título ao filme, Jojo Rabbit é um menino de 10 anos que é fascinado pelo nazismo e carrega opiniões extremista sobre o regime, bem como o que o regime combatia. Sabiamente o roteiro se preocupa em respeitar a memoria dos que sofreram e sabiamente também se preocupa em mostrar a caricatura do nazista. Certamente é um filme que irá dividir opiniões, por alguns motivos que não cabe o debate nesse tipo de texto, mas é assustadoramente engraçado a parodia apresentada pelo diretor ao colocar uma criança como maior defensora desse movimento, representado de uma forma infantil, micro, irresponsável, incoerente e fantasiosa, mas ao mesmo tempo com seus personagens adultos, o tom muda e se mostra estupido e em muitos momentos idiota. A parodia é um tipo de comedia que permite alguns ajustes, a troca da crueldade, que foi a segunda guerra, pela idiotice é um exemplo, assim é a visão do filme para com o nazismo, uma coisa idiota, qualquer simpatizante desse movimento deveria se sentir assim ao término da exibição, menos que isso não é aceitável.

     A direção de Taika é muito firme e muito alinhada com a ideia que se propõe. As escolhas na direção permitem uma acessibilidade maior ao espectador, obviamente não é um diálogo fácil de assistir, mas diferente de Bastardos Inglorios (2009), do diretor Quentin Tarantino, a violência não está explicita e ensanguentada, está idealizada no contexto, na crença de tudo aquilo. Para enrijecer a mensagem, o próprio diretor assume o papel de um Adolf Hitler alienador e descompensado e é incrível como o resultado ficou bom. A parceria entre Taika e o jovem Roman Griffin Davis, Jojo, é muito honesta e eficaz, juntos eles entregam a junção do fanatismo irracional com o infantiloide do adulto que quer as coisas do seu jeito sem se importar com o outro.

     Roman assume um protagonismo incomum nesse tipo de produção e seu carisma ultrapassa as barreiras do tema, por vários momentos o espectador esquecesse do que se trata e observa a aventura de um ser em desenvolvimento e descobrimento. O romance inocente e platônico surge quando o roteiro nos traz a quebra do problema, Tomassin McKenzie, do ótimo Sem Rastros (2018), humaniza o pensamento que o pequeno fanático tinha sobre seu maior “inimigo”, “apenas pessoas, como você e como qualquer um”, é assim que o roteiro escolhe seguir para o seu ato final. Não tão bem quanto o seu trabalho citado, isso por falta de mais participação e não por ela, a atriz faz um ótimo contraponto e funciona bem como porta de desconstrução. Scarlett Johansson é a mãe do protagonista e personifica a figura do alemão que não entendia e não apoiava tudo aquilo, a irreverência ácida dos seus diálogos, atenuando o alto nível de sarcasmo do filme é algo que merece ser observado, ironicamente a personagem rebate todos os conceitos que são apresentados sobre aquilo. Sua atuação é um dos vários pontos positivos e ficou claro que ela embarcou de verdade na proposta, seus diálogos com Jojo são belos, polêmicos e reflexivos, como cortesia o diretor nos oferece belas imagens com uma boa trilha ao fundo. Sam Rockwell é mais um a rugir em prol da desconstrução, descompromissado, incoerente e levemente afeminado, seu capitão é o reflexo de uma das maiores polemicas nos livros sobre o nazismo, a obrigação de quem de fato não queria servir e o homossexualismo dentro do exército de Hitler. Como destaque no elenco ainda temos Rebel Wilson, Alfie Owen-Alen e o pequeno Archie Yates, que carrega um símbolo importante, observem com atenção.

     Jojo Rabbit é um filme que traz um peso enorme, mas que consegue ser leve devido ao ótimo trabalho do diretor. É uma obra que precisa ser exibida no maior número de salas possíveis e debatida ao máximo, pois é inacreditável como esse tema está presente na sociedade e as pessoas precisam sentir, no mínimo, vergonha em simpatizar com essa estupidez. Se antes a produção era uma promessa, hoje já é uma realidade, pela mensagem e pela qualidade apresentada.

  • Jojo Rabbit
  • Duração: 108 minutos
  • Diretor: Taika Waititi
  • Roteiro: Taika Waititi
  • Elenco: Taika Waititi, Roman Griffin Davis, Thomasin Mckenzie, Scarlett Johansson, Sam Rockwell, Rebel Wilson, Stephen Mercant, Archie Yates, Alfie Allen
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