outubro 24, 2020

Killing Eve: Primeira Temporada (2018) | Crítica

Se Fleabag trabalhava os dramas de uma mulher contemporânea com muita honestidade e até sutileza em meio ao humor britânico inteligente e horas, explicito, Killing Eve é ainda mais importante como obra socialmente relevante ao inverter uma posição em obras sobre intrigas governamentais, colocando a imagem feminina como a força que movimenta as engrenagens narrativas dos oito episódios. Por isso que, ao ver a antagonista Villanelle (Jodie Comer) abraçando calorosamente uma colega é um frame extremamente emblemático para enfatizar o conforto feminino em um mundo dominado pela mentalidade masculina retrograda que insiste em enxergá-las como objetos, não como pessoas. Essa é a força que faz dessa obra mais que ótima, essencial.

Baseada no livro Codename: Villanelle do autor britânico Luke Jennings, a obra narra a caça de uma assassina em série que é conhecida apenas como Villanelle e a obsessão crescente da agente da inteligência britânica, Eve Polastri (Sandra Oh) em encontrar a personagem. Essa premissa é o inicio do fio narrativo, já que a trama se desenrola com ainda mais intensidade, se transformando em um thriller envolvendo espionagem, intrigas de governo e um estudo sobre a obsessão, presente na forma que Eve começa a enxergar Villanelle com o tempo, já que sua caça vai de um “trabalho” a algo pessoal e encerrando em uma estranha afetuosidade mútua, que é extremamente bem elaborada como uma análise sobre a predominância da mentalidade retrógrada masculina em um período que tais pensamentos fetichistas e discriminatórios não são mais aplicáveis.

Então, de certo modo, a obsessão de Eve com Villanelle (e vice-versa) é uma espécie de tentativa em se manterem unidas em uma sociedade ainda fortemente masculinizada. Um drama que ecoa com perfeição na maneira como as figuras femininas de Killing Eve se posicionam perante a presença masculina, jamais se abalando e mantendo o controle e estabilidade a todo instante. Um bom exemplo é ver como, em um momento importante, é a imagem de Carolyn (Fiona Shaw) que consola uma persona importante da inteligência britânica após esse entrar em desespero, algo que soa como uma divertida inversão de papéis do roteiro de Bridge, já que foi nessa posição fragilizada que criou-se a representação masculina do herói forte e da moça indefesa, mudando tais classificações em um instante absolutamente emblemático da produção.

O mais interessante da construção de Waller-Bridge é ver como ela jamais trata suas figuras femininas com descaso, sempre oferecendo uma importância narrativa e auxilio na movimentação da trama. Um bom exemplar são as breve aparições cômicas e jocosas de Kirby Howell-Baptiste, que acrescenta aos contornos da narrativa. Vale citar a breve participação de Susan Lynch que simboliza um elemento emocional eficiente na jornada de Villanelle, além de contracenar em um momento fugaz que é possível identificar os resquícios de humanidade presentes na assassina. Já as presenças masculinas mais importantes não se caracterizam por uma construção estereotipada que representa algo negativo na vida das personagens – embora existam personagens desse porte na narrativa – , algo que é visto no esposo de Eve, Niko, interpretado de maneira agradável por Owen McDonnell; nessa mesma posição, temos o amigável Bill de David Haig e o timidamente divertido Kenny, interpretado por Sean Delaney.

Interpretada por Jodie Comer (Star Wars: A Ascensão Skywalker), Villanelle é uma personagem mais dramaticamente complexa do que sua visão inicial: sua frieza ao executar as mortes é completamente oposta ao seu comportamento “infantilizado” em determinadas ocasiões. Existe um trauma do passado que não é completamente identificável, mas que molda a personalidade compulsivamente assassina na qual expressa. É uma ameaça quase invisível, intensa e impiedosa, mas que possui um drama íntimo bem construído através da progressão do roteiro e da inspirada performance de Comer, entregando uma ambiguidade na maneira como se comporta, de modo direto. É sempre um desafio tentar compreender a forma como irá agir na próxima cena, algo gratificante por exibir uma mulher de sentimentos conflitantes.

Já Eve é o completo oposto: personificada por Sandra Oh (Grey’s Anatomy), Polastri é uma mulher de modos fortes e com uma determinação inspiradora, mas que, aos poucos se materializa em uma obsessão explorada com uma sutileza gradativa, desde o modo como encara Villanelle desarmada em um instante da narrativa até o “clímax” da relação entre as duas na magistral sequência em Paris, onde compreendemos a raiz da obsessão que nutre pela assassina. Sandra transmite perfeitamente essa personalidade através de uma camada dramática bem impressa pela atriz. Mas é nos breves momentos que dividem a tela que intensificam a dinâmica Eve/Villanelle através da química fluida que expressam em cena, desde a compreensão até o tom ameaçador, algo nítido na sequência do jantar e o instante no apartamento de Villanelle, dois segmentos que reforçam a obsessividade que ambas nutrem uma pela outra.

Nos aspectos de linguagem, é uma série surpreendentemente coberta de estilo em prol da substância a todo momento, algo visível na composição fria e constantemente nublada da fotografia, captando as ambientações de locações como Londres e Rússia da forma mais adequada (além de um claro simbolismo de uma realidade fria dominada pela mentalidade masculinizada). Já as escolhas musicais são eficientes por reforçar a atmosfera apresentada pela narrativa, tal como a trilha incidental que investe em melodias evocando o clima investigativo londrino da trama (foi complicado não associar a série Sherlock). Já a dinâmica da montagem é eficaz ao oferecer uma intercalação fluida dos eventos, mas jamais procurando apressar a progressão dos acontecimentos, permitindo que a premissa se desdobre com profundidade.

Fechando com um gancho forte para a próxima temporada, Killing Eve se revela como uma grata surpresa: em tempos onde mais vemos a mudança do olhar feminino na cultura popular, deixando de ser a “indefesa” e assumindo uma presença mais independente e capacitada de ser a “heroína” das histórias que protagonizam, temos uma obra de espionagem que respeita suas figuras femininas (não há objetificação, nem a força masculina como heroica) e entrega um drama complexo sobre a obsessão de mulheres que precisam encontrar apoio umas nas outras para sobreviver a uma sociedade fria e inóspita.

Um mundo que ainda está preso a uma mentalidade retrógrada.

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