Liga da Justiça de Zack Snyder (2021) | Crítica

ATENÇÃO: o texto pode conter leves spoilers!

O mito do super-herói sempre foi encarado como algo divino: de seres espaciais que, mesmo com origens extraterrestres, eram dotados de uma empatia que os tornavam humanos até pessoas comuns em vidas triviais que são agraciados com habilidades, com poderes e responsabilidades, a ideia do herói carrega um elemento de esperança e fé, da crença de que existe algum tipo de bondade no mundo em meio ao constante niilismo de uma realidade que só oprime a cada nova tragédia. Eles não existem em nosso cotidiano, mas servem como símbolo fantasioso do acreditar. E se os personagens da Marvel representam, em sua maioria, indivíduos ordinários que recebem dons extraordinários, a DC Comics procura elevar as suas figuras ao status de Deuses, tal como o diretor Zack Snyder faz em sua versão de Liga da Justiça, onde a sua veneração pela imagem do herói presente desde o problemático Watchmen (2009) é o combustível para que venhamos a compreender tanto o aspecto divinal da equipe quanto o lado humanista que resgata a linha temática presente nos capítulos anteriores (O Homem de Aço e Batman v Superman), agora em uma conclusão definitiva da mensagem.

Afastado no período das gravações após o trágico evento pessoal envolvendo a filha de Snyder, Autumn, a Warner se encontrou no direito de alterar os caminhos pré-estabelecidos pelo artista em prol de entregar um projeto que fosse de fácil digestão para o público e crítica saturados da abordagem melancólica de Batman vs Superman, confeccionando assim uma aberração sem qualquer olhar artístico ou preocupação que fosse além do viés comercial em lançar o filme na data correta, pensando em um planejamento monetário e industrial acima de uma expressão autoral e pessoal. Por esse motivo, muitos fãs pediram por anos a liberação da versão de Snyder, desejo esse que foi realizado somente com o anúncio recente de que a obra estaria disponível no streaming da HBO. Claro que, ainda existe o interesse do retorno financeiro no produto (a obra foi anunciada como um dos principais “atrativos” do catálogo), mas dessa vez, o diretor conclui de maneira íntima e, ao mesmo tempo, monumental, o seu arco dramático. Em meio a tantas destruições, efeitos digitais e apelos de um cinema blockbuster, Liga da Justiça de Zack Snyder, em seu cerne, é uma obra sobre a humanidade, sua desolação em decorrência da perda de seus Deuses e a necessidade da união em momentos de pura desesperança.

O Prólogo nesse sentido, é importante por resgatar o peso dramático da batalha de Batman vs Superman e expor o impacto da morte divina, do sacrifício de um Deus na humanidade ao enfocar diferentes personagens reagindo aos gritos finais de Kal-El (Henry Cavill), ecoando a quilômetros de distância da batalha. Com a morte do “salvador”, a humanidade perde qualquer resquício de esperança e nesse sentido, boa parte do primeiro capítulo segue coerente com a linha emocional niilista do encerramento do filme anterior ao jamais tentar contrapôr a melancolia com cores fortes e nítidas – tal como ocorreu nas refilmagens de Whedon -, mas evidenciar a mesma dentro do formalismo característico da filmografia de Snyder: os tons acinzentados e secos da fotografia, os coros gregorianos e violinos berrantes das composições de Junkie XL (discutivelmente, o seu trabalho mais arrebatador) e o slow-motion como base emocional potencializam o impacto de cada segmento, fazendo de cada frame importante dentro da construção dramática.

É através da hiperestilização que o artista trabalha a dramaturgia dos arcos de maneira grandiosa, ainda que em momentos em escala reduzida, seja Ciborgue (Ray Fisher) enterrando a caixa-materna no túmulo da falecida mãe ou Vulko (Willem Dafoe) confrontando Arthur (Jason Momoa) a respeito de seu legado ao jogar o tridente de sua mãe aos seus pés, são momentos pequenos, mas engrandecidos pela precisão cênica de Snyder em como pensa nessa estética de videoclipe dentro de uma chave emotiva – até por isso, seus maiores acertos são quando utiliza sua veia autoral dentro de um propósito melodramático ou humanista.

E, dentro dessa hiperestilização dramática é que Snyder encontra um dos propósitos temáticos de Liga da Justiça: sua mensagem humanista. Em O Homem de Aço, acompanhamos a construção humanista de Clark, desde os ensinamentos de Jonathan e Martha Kent (Kevin Costner e Diane Lane) até os primeiros lampejos de empatia que fazem Kal-El compreender seu papel no mundo, não como ameaça, mas como a personificação do símbolo da Casa de El: esperança. Já em Batman vs Superman, o artista cria um comentário eficaz sobre o que aconteceria se caso a humanidade confrontasse os seus Deuses ao jogar um humano (Batman) contra as ações divinas de Superman, colocando-os em um embate que, de modo intencionalmente anticlimático, é desarmado de maneira emocional; e ao final, a perca da fé pela humanidade, enterrada com o seu salvador e deixando um mundo desolado, a mercê da melancolia e do desespero. E é nesse ponto que Snyder centraliza um dos focos dramáticos principais da narrativa: a união em prol do coletivo.

Bruce Wayne (Ben Affleck) crê na reunião desses super-seres como um modo de resgatar a esperança da humanidade em seus Deuses e reforçar a necessidade da comunhão em tempos de completa ausência da fé. Nesse aspecto, um dos momentos mais emblemáticos de Liga da Justiça está no flashback da Era dos Heróis: com mais cenas do primeiro conflito entre as forças da terra contra Darkseid (Ray Porter), Snyder reforça a união como a força dos milhares de guerreiros em combate. Deuses, Atlantes, Amazonas, Humanos e até Lanternas aliados em um gigantesco sacrifício que impede a dominação do inimigo é a resposta para Diana (Gal Gadot) e Bruce da importância de reunir sua própria armada para conter os avanços de Steppenwolf (Ciarán Hinds), mais brutal e incontrolável que a imagem dócil e pouco intimidadora vista na versão de 2017 – dessa vez, carregando um arco próprio que envolve uma traição a Darkseid e a busca por redenção. Contudo, é no outro viés temático que se encontra o cerne de Liga da Justica: no final das contas, essa versão de Snyder é, em sua essência, uma obra sobre pais e filhos.

E nesse ponto que entra o coração do filme: o Ciborgue de Ray Fisher.

Sem dúvidas, o personagem que mais sofreu com as refilmagens e cortes do material original, Victor Stone se revela como a alma de Liga da Justiça, alcançando mesmo o status de protagonista, já que seu arco dramático é o ponto de partida para a expansão da temática sobre pais e filhos: após perder a mãe no acidente de carro e ressurgir como um ser recriado a partir de uma tecnologia desconhecida (a caixa materna, que é simbolicamente autoexplicativa) em um ato de desespero do Doutor Silas Stone (Joe Morton), Vic culpa e condena a ausência paterna pelos eventos que o levaram a se transformar em uma criatura cuja metade máquina jamais retira sua parte humana. Ao acompanhar uma mulher através de filmagens sofrendo por viver em uma situação financeira insuficiente para criar seus filhos, Victor escolhe aceitar aquelas habilidades, não como uma dádiva de modo inicial, mas como uma responsabilidade que aos poucos se torna uma redenção gradual, onde abnega viver eternamente em luto e rancor após a morte do pai, ao perceber que nunca foi algo defeituoso e aceitar sua condição como forma de se reerguer (“Eu não estou quebrado“, diz ele no clímax) e ser alguém melhor.

O sacrifício de Silas é uma simbologia – nada sutil, mas inegavelmente impactante – a quebra da conexão entre pai e filho, no momento em que o próprio se vê na necessidade de seguir o seu caminho e amadurecer sem o auxílio de suas representações paternas. Victor guardou ódio de seu pai pela sua ausência apenas para perceber que, no fim de tudo, tal sentimento de nada adiantou. E quando percebe isso, é tarde demais e não existe como recuperar todo o tempo perdido, mas tentar seguir em frente com as memórias que lhe restam, seja dos bons ou maus momentos, mas as lembranças de que, em algum instante, eles aconteceram. Victor, ao final, compreende a importância do pai em sua vida ao arriscar em algo que tampouco sabia o que era como o último esforço em salvar sua vida. Outro personagem que lida com um arco semelhante é o Flash (Ezra Miller), cuja morte da mãe e a ausência do pai – que se encontra preso – faz dele um jovem assustado que, ao final, entende que pode mudar o seu futuro e percebe que já honrou a sua figura paterna.

Gigantesco em sua escala e duração, Liga da Justiça de Zack Snyder surpreende ao se revelar como um projeto íntimo sobre luto, desesperança, fé e união. Antes de endeusar os seus heróis e elevá-los a um nível divino, Snyder procura o que existe de mais humano neles: o abraço familiar do Superman em Lois (Amy Adams) e Martha (Diane Lane), o rancor de Victor e sua redenção, os olhares de Barry e Iris (Kiersey Clemons), o desespero nos olhos de Diana ao ser intimidada por Steppenwolf sobre o massacre com as amazonas entre outros momentos. Mais do que tudo, Snyder quer contemplar aqueles momentos, desde os mais dramáticos aos realmente gloriosos, ele permite que cada momento decorra com paciência; não existe pressa, o que permite que o drama e a ação caminhem em harmonia para construir um verdadeiro clímax que exalta o poder da aliança e a capacidade humana de se reerguer, não sozinho, mas unidos. Sobre ter esperança em um mundo cinza e perdido. Sobre acreditar que, por mais complicado que seja a caminhada, no final, dias melhores irão surgir.

E não existia momento mais adequado para esse filme ser lançado do que o ano de 2021.

Avaliação: 5 de 5.
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