outubro 22, 2020

Lost Girls – Os Crimes de Long Island (2020) | Crítica

Lost Girls“, o mais novo original Netflix retirado do festival de Sundance de 2020, será melhor apreciado por mulheres e, em especial, mães: ao mostrar uma figura materna desesperada pelo desaparecimento da filha, as primeiras constatações de que ela possa estar morta só refletem a dureza e brutalidade do mundo em que vivem. O mais assustador aqui é perceber que aquelas figuras estão rodeadas pelo machismo e incompreensão dos homens ao seu redor, algo retratado de maneira tão crua que, em certo instante, um dos policiais ligados ao caso critica a razão de todo esse alvoroço apenas por uma “prostituta”, o que denota o olhar misógino daqueles sujeitos, incitando o perigo que sentem as personagens, por mais fortes que elas sejam, ao se deparar com um indivíduo masculino inconfiável. E o pior de tudo é lembrar que essa é uma história real. 
 
A diretora Liz Garbus (responsável pelo elogiado “What Happened, Miss Simone?“) conduz a obra com uma sutileza que evita transformar o projeto em sensacionalista enquanto, simultaneamente, se mostra explícito ao retratar a crueza dos acontecimentos, mesmo que sem mostrá-los com clareza. A mise-en-scène dos espaços é formidável por ilustrar o universo depressivo na qual se encontram suas personagens, ilustrados por uma iluminação interna com ênfase na escuridão em cantos mais distintos dos ambientes; já a casa da família Gilbert é composta por enquadramentos amplos que se comunicam de uma forma fechada, prendendo a mãe e as filhas naquela realidade – e há uma passagem onde vemos Mari (Amy Ryan) e Sherre (Thomasin McKenzie) em cantos opostos da residência, separadas por uma das paredes que divide a sala de um corredor. Liz procura retratar a claustrofobia emocional de sua protagonista através de planos onde vemos Mari entre duas “barras” – geralmente em portas – , mostrando a angústia de uma mulher tentando fugir da situação que se encontra. 
 
Amy Ryan, aliás, merecia ser reconhecida pelo fabuloso trabalho que realiza aqui: compondo uma mulher dura e de pouca afetividade que, exibe toda a dor e sofrimento da possibilidade de ter perdido sua filha, compondo essa angústia interna com uma performance delicada nos seus detalhes, em seus desabamentos emocionais e em sua busca pela verdade e justiça, quase sempre incompreendida pelos homens ao seu redor, até pelo mais compreensível deles (interpretado por um gentil, porém ineficaz, Gabriel Byrne) – e o instante em que abraça sua filha após descobrir o destino de Shannah é o ápice de sua interpretação. Já Thomasin McKenzie – cada vez mais se revelando como um dos grandes talentos futuros de Hollywood – imprime em sua composição, a tristeza de uma filha que apenas deseja ter o afeto de sua mãe, constantemente falha nesse elemento, embora jamais condenável, o que rende um segmento emocionalmente carregado onde a mesma confronta sua figura materna a respeito de sua ausência afetiva. Lola Kirke, por outro lado, tem menos tempo de tela, mas confere a Kim uma personalidade complexa ao mostrar que a mesma não consegue sair do caminho que escolheu, presa no mundo que criou para si. 
 
Fotografado com tonalidades frias, a cinematografia de Igor Martinovic (cinematógrafo de “The Night Of” e “House of Cards“) é precisa ao conceber uma atmosfera visual completamente amarga e melancólica, refletindo o interior de seus personagens, desde o uso de ambientações nubladas até o emprego de cores azuladas e acinzentadas, mostrando a desesperança da realidade daquelas mulheres. Outro acerto que a diretora realiza aqui é na retratação de figuras masculinas em cena: ao invés de colocá-los em planos contra-plongée que ressaltasse sua ameaça, a realizadora enfoca as conversas de Mari com outros homens colocando os indivíduos de costas para a câmera ou enfocando sua presença em cena através de enquadramentos distantes, o que ajuda a composição do roteiro, enxergando os sujeitos mais nefastos como fetichistas, inúteis, narcisistas, arrogantes, instáveis, repudiáveis, desprezíveis e perigosos. No entanto, o texto analisa com precisão, não somente o feminicídio e o quão repudiável é o crime, mostrando como os diversos casos sem solução são ainda mais destrutivos para os familiares da vítima, mas imprime a importância da sororidade e da união feminina, sempre com um apoio e carinho mútuo, pois, infelizmente, essa parece ser uma luta contínua para aquelas figuras.
 
Por isso que o quadro mais belo de “Lost Girls” é aquele que vemos as personagens reunidas e caminhando por uma estrada, juntas, auxiliando umas as outras e estabelecendo belíssimos laços de afetividade e amor. Um enquadramento simplório, mas coberto de significado, tal como esse maravilhoso filme. 

Avaliação: 4 de 5.
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