outubro 20, 2020

Má Educação (2019) | Crítica

No ano passado, ao escrever sobre o filme Puro Sangue (ou Thoroughbreds, caso prefira ignorar a ilógica tradução brasileira), comentei que o diretor e roteirista estreante Cory Finley se mostrava mais eficiente no campo da direção do que na realização do roteiro (“Mesmo assim, “Thoroughbreds” (…) demonstra que, com um roteiro mais interessante e que reconheça a complexidade dos assuntos que levanta, Cory Finley pode se revelar um diretor fascinante.“). Pois é exatamente o que ocorre nesse ótimo Má Educação, onde Finley se ausenta do texto e se foca na execução da obra, ostentando um trabalho excepcional que só reforça a excelência do script de Mike Makowsky.

Baseado em uma história real, o filme se passa na cidade de Long Island em 2002, mostrando o superintendente de colégios, Frank Tassone (Hugh Jackman) desfrutando do prestigio que conquistou na escola em que trabalha e a série de consequências na sua vida e nas pessoas ao seu redor após a descoberta de um escândalo relacionado a desvios de fundos financeiros de escolas por todo o país e a decisão de uma jovem estudante (Geraldine Viswanathan) em investigar o que estaria havendo em seu próprio colégio.

A primeira vista, sua premissa sugere uma narrativa enfadonha e pouco envolvente, algo que é reforçado pelo ritmo pausado da meia-hora inicial, que posiciona cuidadosamente os personagens e estabelece a situação aos poucos, contudo, esse compasso rítmico poderia ter uma agilidade semelhante ao restante da projeção. Contudo, assim que a problemática é estabelecida e os desdobramentos se tornam mais intensos, a trama puxa o público cada vez mais e quando menos notamos, já estamos completamente investidos e curiosos para saber o que irá ocorrer a seguir. No entanto, esse possível “fator surpresa” é mais forte para aqueles que não conhecem o fato, mas, acredito que tal efeito ocorra até no espectador que já possua um conhecimento prévio de todo o escândalo.

O aspecto investigativo do projeto é bem interessante, especialmente pelo carisma discreto de Geraldine Viswanathan, que faz de Rachel uma jovem determinada e com um forte conflito moral concebido durante um segmento em especial, fazendo com que questione suas próximas atitudes com muita cautela antes de executá-las. Mas a investigação protagoniza pouco tempo no compasso narrativo, já que a intenção aqui é mostrar os detalhes das consequências do evento e como seus personagens vão sendo afetados gradativamente pela descoberta do crime. O roteiro de Makowsky, pensando nisso, concebe conversas que constantemente voltam a nossa atenção e que, aliadas a construção de Finley – algo que comentarei mais abaixo – , geram momentos marcantes, pegando como exemplo o instante na qual Frank confronta Pam (Allison Janney) logo após ser contextualizado da situação ou o já citado segmento na qual Rachel é indagada por Frank no que diz respeito a uma determinada situação.

Personificado pelo sempre competente Hugh Jackman, Frank é exibido como um sujeito gentil, acolhedor, de modos calorosos e bem comunicativo, exemplificado na forma que se dispõe a ajudar Rachel nos minutos iniciais. Contudo, é a partir do momento que a situação foge a seu controle, que percebe-se uma forte preocupação com o evento e pode ser notado como, rapidamente ele decide omitir sua parcela de culpa – e o ocorrido, como um todo – apenas pensando em como aquilo afetaria sua imagem pública e mancharia seu nome – e o monólogo que o ator entrega no ato-final é suficientemente para posicionar sua interpretação como uma das melhores do ano. Já Allison Janney, embora passe um longo período sem uma participação narrativa ativa, se desempenha bem no que o roteiro pede, criando uma divertida e fluída dinâmica com Jackman, evidenciando uma parceria de longa data.

Todavia, embora existam muitas virtudes no projeto, o nome de destaque em Bad Education é o de Cory Finley: logo em sua abertura, o realizador demonstra competência na execução de um excepcional plano-sequência na qual acompanhamos Frank caminhando por um corredor até o palco, tudo através do ponto de vista da sua nuca, criando um olhar quase subjetivo, como se participássemos do instante – e Finley cria uma excelente rima visual com o encerramento, já que ambos os momentos se fecham com um close-up no rosto de Tassone, enfatizando suas emoções em ambas as cenas. Outro momento breve, mas igualmente inspirado é quando vemos Pam e Frank no mesmo enquadramento e Cory os filma em um plano-conjunto, porém elevado, incitando uma certa superioridade em suas figuras.

Em outro instante importante da narrativa, ao acompanharmos a chegada de Pam a sua casa após todos os ocorridos em sua vida, Finley se mostra esperto ao registrar tudo com um close-up e empregando o shake-in-cam, mostrando a instabilidade emocional do ambiente e da situação, de modo geral, algo que Janney reforça bem ao entregar um desabamento emocional construído aos poucos. A trilha de Michael Abels delineia bem os eventos com melodias clássicas que sugerem uma calma no início e, após o estabelecimento do problema, a musicalidade decaí para batidas de tambor no ato central que sugerem algo negativo prestes a chegar.

O diretor também emprega diversas panorâmicas laterais para acompanhar os personagens pelos espaços, tracking shots que executam o mesmo intuito e que auxiliam para oferecer um dinamismo a certas cenas. As interações são estruturadas em plano e contra-plano que intercalam planos-conjunto das figuras e planos-abertos que captam o ambiente por completo, não somente a conversa em si. Há também o uso de establishing shots dos espaços que iremos percorrer ao longo da narrativa, preparando o espectador para o que se aproxima. No que diz respeito a linguagem audiovisual, Cory realiza um trabalho notável e que engrandece o projeto em análise.

Má Educação é a afirmação de Cory Finley como um diretor realmente autoral e dominante da linguagem cinematográfica com controle e elegância, tudo embrulhado por uma história cativante e personagens dramaticamente complexos, tendo como resultado final, um dos projetos mais interessantes de 2020 até esse ponto.

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