outubro 25, 2020

Magnatas do Crime (2019) | Crítica

Guy Ritchie iniciou sua carreira cinematográfica como diretor dentro dos filmes de gângster, imprimindo uma linguagem mais dinâmica e caótica na maneira como desenvolve tais narrativas e criando personagens cobertos de personalidade e estilo, algo visto no excelente Snatch – Porcos e Diamantes e no aclamado Jogos, Trapaças e Dois Canos Furados que lançaram Ritchie para o sucesso. Contudo, sua entrada no mundo dos blockbusters diminuiu seu potencial e até reduziu o impacto de sua estilização tão marcante, tendo o fraco Aladdin do ano anterior como exemplo de que seu talento reside nas produções criminais com um orçamento modesto. Contudo, o realizador em paralelo ao projeto da Disney, retornou ao clima das obras que tanto o consagraram na indústria. 

E isso leva a Magnatas do Crime, seu mais recente filme.

Abordando o subgênero pela última vez em Rock’n’Rolla – A Grande Roubada de 2008, o diretor retorna após 11 anos afastado das produções, narrando aqui uma premissa aparentemente simples que, narrativamente, Ritchie transforma em um verdadeiro caos: o traficante inglês Mickey Pearson (Matthew McConaughey) concebeu seu império através do cultivo e negociação da maconha, gerenciada através de fazendas no subsolo. Contudo, decidido a vender seus negócios para Matthew (Jeremy Strong), Pearson é procurado por Dry Eye (Henry Golding) com a proposta de vender o império para ele. Dentro desse núcleo, acompanhamos a trama em boa parte da projeção por um diálogo contextualizador envolvendo Ray (Charlie Hunnam), que trabalha para Mickey e Fletcher (Hugh Grant), um detetive que investiga tal trama e reúne material para realizar o roteiro de um filme.

E, através desse aspecto, captamos a primeira grande virtude de The Gentlemen: a metalinguagem. Em um olhar superficial, a conversa entre Ray e Fletcher é um artifício de roteiro para agilizar a contextualização de certas informações e assim deixar a premissa fluir com mais naturalidade. Contudo, após um tempo percebemos que a intenção é completamente oposta, já que boa parte da história é contada por Fletcher através de seu diálogo com Ray, explicitando os eventos de acordo com as informações que possuem e vislumbrando todos os ocorridos em uma ótica cinematográfica. Portanto, pode se argumentar que Fletcher seria um reflexo de Ritchie, Ivan Atkinson e Marn Davies (diretor/roteirista e co-roteiristas), enquanto Ray simboliza aqueles que estão testemunhando tais eventos, mas sem jamais intervir nos acontecimentos, apenas ouvir. Em outras palavras: nós. 

Tal relação metalinguística é tão explícita que, em certo momento, Fletcher brinca com recursos cinematográficos como, por exemplo, quando brinca com o formato da película utilizada. Já em outro instante, entra um segmento que desencadeia em uma situação de violência gráfica, mas que logo se mostra falsa devido a uma intervenção de Ray e, após tal instante, Fletcher menciona que tal segmento foi apenas pelo fato de “gostarem” de ação – no caso, o espectador, em um comentário sutil de como o público atual pouco se interessa em narrativas pacientes ligadas ao subgênero dos gângsteres. Sequencialmente, Ritchie coordena com eficiência as intercalações entre os eventos do passado e presente, criando uma estrutura narrativa desordenada, mas nunca confusa, algo raro de se admirar, visto que esse aspecto, na maioria das ocasiões, vem como um demérito do projeto.

E se não bastasse tanta criatividade na maneira de contar a caótica premissa, o diretor está em casa ao sobrecarregar a linguagem estilística com recursos charmosos que confere personalidade em sua abordagem desse universo de gângsteres: sempre muito bem vestidos e mantendo uma postura de elegância que pouco faz com que se rendam a atos agressivos – a não ser quando não existe outra opção – , o figurino veste os personagens deste mundo com uma sofisticação antiquada, mas curiosa por transmitir respeito a tais figuras. Já o design de produção é eficaz ao traçar ambientes cobertos de adereços e detalhes, com uma arquitetura visivelmente concebida para transmitir o luxo da vida de Mickey, por exemplo. 

No entanto, Ritchie estiliza quase todos os momentos, inserindo uma diversidade linguística na execução que enfatiza seu controle em meio a uma sobrecarregamento de técnicas: Zooms, deslocamentos laterais furtivos, inserções visuais de nomes das locações, cenas que invadem o raciocínio dos personagens ou complementam aquilo que o mesmo estava informando, ângulos de perfil que capturam algumas das interações das figuras em cena e vários outros que o realizador usa para fazer a narrativa soar mais fluida e envolvente, algo que conquista muito bem durante toda a projeção. Outro recurso interessante para criar um charme a sua forma está nas escolhas musicais, indo de canções que combinem com o clima da trama (“Cumberland Gap” do David Rawlings) até as mais curiosas por encaixarem bem no desenrolar de certas sequências (“Shimmy Shimmy Ya” do El Michels Affair).

Povoado por personagens excêntricos e cobertos de personalidade, o casting faz questão de intensificar tais características na construção de suas figuras: Matthew McConaughey faz de Mickey Pearson um homem de modos elegantes, cortês e que mantém a postura de imponência em quase todas as situações, refletindo sua autoridade e o perigo que incita em seus inimigos; sua química com Michelle Dockery (que personifica a esposa de Pearson, Rosalind) é exata ao revelar uma humanidade e reforçar que seu ponto fraco reside em sua mulher, na qual Dockery imprime respeito ao lado de qualquer um em cena. Charlie Hunnam, mesmo pouco expressivo, traz um timing cômico que o diferencia dos demais em cena, enquanto Hugh Grant se vê livre para incorporar as excentricidades de Fletcher – e destaque válido para Colin Farrell que, mesmo com pouco tempo em cena, cria uma figura tão comicamente funcional que merecia mais espaço dentro da narrativa. 

Escorregando apenas em seus minutos finais que, convenientemente, tentam inserir revelações mirabolantes que pouco se justificam, Magnatas do Crime compensa com uma última demonstração metalinguística, revelando o charme de Ritchie em voltar a sua zona de conforto, trazendo de volta os gângsteres e as narrativas compulsivas a sua filmografia. E, espero mesmo que retorne, já que é aqui o seu lugar. 

E, aqui é onde ele revela estar se divertindo na cadeira de diretor.

Avaliação: 4 de 5.
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