Malcolm & Marie (2021) | Crítica

Em um olhar bem superficial, Malcolm & Marie é uma versão estendida da sequência de Jesse e Céline no hotel em Antes da Meia-Noite (2013), onde até a dinâmica dos conflitos entre o casal no filme de Linklater se reflete na obra de Sam Levinson, especialmente no que diz respeito a narrativa cíclica onde seus personagens discutem e logo após se acertam apenas para entrarem em conflito minutos depois da reconciliação. Contudo, o que diferencia a produção de Levinson para a Netflix do trabalho de Linklater é que esse último compreende a importância do momento que concebe: ainda que não seja o primeiro conflito do casal, é a primeira vez que o espectador vê os jovens amantes que se conheceram em Viena proferindo frases amargas e verdades dolorosas ao companheiro. Existe um peso emocional que torna a situação desesperadoramente realista e melancólica, especialmente em seu desfecho.

Já em Malcolm & Marie, seus personagens, da primeira até a última cena se revelam amargurados e presos em uma incapacidade de demonstrar real afeto um pelo o outro, algo que só se confirma a cada discussão. O argumento do “mas a intenção era essa” não acaba se tornando válida, afinal, entre os diversos momentos que seus protagonistas (Zendaya e John David Washington competentes, na medida do possível), Levinson tenta expôr o “amor” que Malcolm ainda sente pela esposa e vice-versa em momentos “delicados” onde trocam olhares e beijos. O problema é: como crer que existe amor em um relacionamento onde o marido, por diversas vezes, menospreza uma fase realmente complicada na vida de sua esposa? Não existe afeição em Malcolm e Marie, em outras palavras, jamais temos a sensação de que algo belo pode se perder durante milhares de insultos e humilhações ditas da boca para fora, como bem ocorre no trabalho de Linklater.

Resumindo: o filme de Levinson é uma obra fria, dramaticamente pouco arrebatadora como almejava ser e no final das contas, o que parecia ser uma briga íntima de duas pessoas que se amam acaba sendo um exercício gratuito de ódio entre um casal que, no fundo, detestam estar na companhia um do outro. E isso se reflete, de certo modo, em todo o trabalho formal de sua direção, já que a precisão de cada plano, do deslocamento da câmera, no uso do preto e branco na fotografia, do aproveitamento dos espaços, tudo cria um distanciamento emocional, torna o registro daquela noite de Malcolm e Marie completamente distante e apático, ainda que os escândalos de David Washington tentem expressar algum tipo de sensação que vá além da vergonha alheia. A verdade é que, no final das contas, a obra de Sam Levinson é um mero exercício de embelezamento vazio, onde os planos não encontram um propósito dramático em sua beleza nem o impacto sensorial genuíno, é apenas a beleza em si e nada mais.

Nenhum dos quadros de Malcolm & Marie parecem exercer um impacto emocional realmente arrebatador, mas são meras grifes de embelezamento ou como ouvi recentemente, uma “propaganda de perfumes”. Existe sim uma riqueza na dramaturgia que Levinson cria em seu texto, mas a maneira como ele transporta isso na sua construção audiovisual nunca cria um contato do espectador com nenhum dos lados daquele casal, construindo uma barreira onde vemos apenas o retrato cinematograficamente refinado do mais profundo desprazer de personagens que repudiam o fato de estarem na presença um do outro. Se era ou não a intenção de Levinson, isso pouco importa, já que o que conta é como o filme vai se comunicar com cada espectador de maneira única. E ao final de seu trabalho, constatei ter visto 1h e 40min de uma exaustiva discussão que poderia ser bem uma briga de Twitter ou um textão sobre política que causou um rebuliço no grupo de família. Se bem que, até nesses casos, existe alguma emoção.

Infelizmente, no filme de Sam Levinson, não existe.

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