Mank (2020) | Crítica

David Fincher é um realizador consagrado pelo autorismo formal de como lida com os elementos da linguagem, em especial, dos anos 2000 pra cá. Obras como Zodiáco (2007) e Garota Exemplar (2014) inserem bem uma dinâmica digital na composição da imagem (a fotografia, os efeitos visuais) dentro de uma articulação bem básica da decupagem, em como os planos são estruturados de maneira simples, mas ganhando importância dentro da união dos elementos, potencializando cada um dos eventos através desse conservadorismo em como enquadra as sequências. A mise-em-scène do cinema de Fincher é rigorosa, no bom sentido, e perfeitamente bem composta.

Uma lástima que Fincher simplesmente rejeitou seu método formalista no aguardado Mank, onde narra parte da história de Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman) e seu processo criativo para escrever o roteiro do clássico Cidadão Kane, de Orson Welles. Em vez de usar da sua relação própria com a linguagem para traduzir imageticamente o roteiro (escrito por seu pai, Jack Fincher), o diretor opta por um caminho fácil e pouco inspirado, se limitando a reproduzir a abordagem de Welles no filme de 1941. Ainda existe alguns breves lampejos de seu cinema: a maneira que une uma artificialidade digital para voltar aos anos 1930 se assemelha ao modo como retornou a São Francisco atmosférica dos anos 70 com os Chroma-keys de Zodiáco. Contudo, isso é um mero destaque em uma cosmologia que se limita a refazer os passos de outro filme.

Basicamente, o diretor aqui se acomoda tanto em suas homenagens visuais, que ela acaba por se tornar o método central de seu formalismo: todo o modo que Fincher e o diretor de fotografia, Erik Messerschmidt trabalham a entrada da luz na encenação e o uso de sombras no filtro preto e branco é apenas uma mera sombra do modo que Welles ao lado de Gregg Toland revolucionaram o cinema com os enquadramentos em contra-luz e a iluminação que confere uma essência de fábula. Até mesmo a maneira como o diretor utiliza o icônico recurso da profundidade de campo jamais parece ser algo dentro de uma abordagem particular, mas um recurso meramente referencial, que parece não possuir uma função prática dentro da abordagem que vá além do elemento alusivo à obra de 1941.

Até mesmo a trilha de Trent Reznor e Atticus Ross, conhecidos pela energia que expõe em suas trilhas, se acomodam dentro de uma reprodução preguiçosa das batidas berrantes das melodias de Bernard Hermann, excluindo o elemento atmosférico em uma composição que se revela uma mera sombra de um trabalho superior. Fincher, que é tão conhecido por seu autorismo, por sua abordagem dramaticamente fria, se perde em uma obra que atua mais como um pastiche do que um retrato biográfico realmente interessante.

A forma que o realizador desenvolve o viés emocional da dramaturgia do roteiro é, essencialmente, superficial em todo seu desenrolar: as relações entre os personagens são exploradas de maneira distante, contrariando a força que determinados segmentos poderiam ter. Até esse ponto, é compreensível por se tratar de uma abordagem particular do Fincher, mas aqui, ao tentar expor determinadas emoções dos arcos, o diretor parece perdido nos padrões mais convencionais do subgênero da cinebiografia e transforma tudo em uma dinâmica superficial em como constrói determinadas interações.

Talvez a mais frustrante seja a que circunda a relação de Herman J. Mankiewicz e sua esposa, Sara (Tuppence Middleton), onde Fincher cria uma ambiguidade emocional puramente acidental, onde jamais fica nítido como opera a dinâmica dramática do casal e nem sequer o tratamento que um oferecia ao outro. E isso se estende ao arco de Mank com Rita (Lily Collins) e até mesmo com Marion Davies (Amanda Seyfried), sendo todas exploradas de modo completamente vago.

Operando de maneira surpreendentemente fluida entre as duas horas de projeção (razoavelmente um acerto), Mank é um projeto que poderia ser um olhar curioso de um período cinematográfico através das lentes racionais de David Fincher, mas como um todo, acaba se revelando um decepcionante pastiche genérico e dramaticamente vazio sobre os bastidores de uma das obras mais importantes da história da sétima arte. Uma homenagem que se disfarça como tal para assim, se acomodar em uma réplica convencional e decepcionante. E é triste observar que, após um hiato de seis anos no campo dos longas-metragens, Fincher tenha voltado com uma obra que mira apenas a conquista de alguns prêmios na corrida ao Oscar.

Avaliação: 2 de 5.
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