Mas afinal de contas o que é cinema?

Recentemente alguns grandes diretores de Hollywood destilaram críticas ferrenhas aos filmes de super-heróis. Scorsese e Coppola, e alguns outros atores, levantaram a seguinte polêmica:

            “Filmes de super-heróis não são cinema”

            Mas afinal de contas o que é cinema?

            Partindo do ponto de vista conceitual, cinema é toda forma artística que narra uma história através de movimento, incluindo todas as técnicas e ferramentas utilizadas para alcançar esse objetivo, seja com enredo, fotografia, sonoplastia e outros. Então porque essas críticas foram feitas já que os filmes de heróis se enquadram nisso?

            Por um simples motivo, eles separaram arte de entretenimento.

            Vendo de uma forma mais ampla, esse pensamento beira a contradição, mas a história nos diz que isso é mais comum do que pensamos. Indo para outro âmbito, o musical, percebemos que arte vive uma guerra direta com o consumo pois se criou uma antipatia com tudo que é muito popular. Nos anos 90, o Brasil foi o palco da explosão do Axé, ritmo musical que dominou o período de carnaval e se estendeu por mais alguns meses e depois desapareceu. Nos anos 2000, o Emo chegou com a proposta de revolucionar o rock, perpetuou por um tempo e, assim como seu antecessor, desapareceu; e a bola da vez é o Funk que está aí segurando as rédeas mais tempo que seus colegas, porém o que todos eles têm em comum?

            Críticos sentados em suas poltronas no escuro.

            A visão de arte é um pouco nebulosa e confusa, pois de forma simplória e crua, ela nada mais é que uma manifestação artística a partir de percepções, emoções e ideias. E é exatamente aí o ponto de debate. O julgamento feito pelos diretores está totalmente fundamento neste conceito, onde para eles, filmes de heróis não conseguem expressar uma carga emocional e humana como – seus – outros longas; mas esquecem que estão em um jogo onde o dinheiro dita as regras.

            Os tais “filmes de heróis”, assim como a música, estão surfando a onda mais lucrativa do momento e não pretendem parar tão cedo de acordo com as últimas atualizações. Causando assim um clamor popular imenso, devido ao seu marketing cada vez mais violento para se entregar os filmes às camadas mais profundas da sociedade. Eis o que torna ele de menor qualidade, na visão dos críticos.

            Para se alcançar todos os públicos, a linguagem das narrativas precisa ser adaptada para tais alvos, criando assim uma certa simplificação de conteúdo o tornando mais fácil de digerir; ponto que causa a diminuição de banalização do tema e faz com que nasça e cresça a expressão “filme bobo”, “filme de sessão da tarde” e por fim, “filme de herói”.

            O que é mais fácil é menos artístico?

            Definitivamente não.

            A arte, assim como o ser-humano, é algo subjetivo; claro que certas obras ganham mais apreciação artística de forma mais unanimes um dos motivos – dentre outros – para serem classificados como “clássicos”, porém não é apenas isso que importa. Existem clássicos e complexos em sua estrutura que não tocam certas pessoas como filmes mais escapistas, incluindo a toda e qualquer demonstração artística.

            Fica mais do que claro que um dos combustíveis por trás das alegações mais intensas está ligado diretamente a lei natural de Oferta x Procura, exemplificando claramente a citação de James Cameron onde ele afirma que “não há mais espaços para filmes de ficção cientifica”. Infelizmente foi uma colocação bem triste por parte do diretor de Avatar, que pouco explica a física do seu universo.

            Em contrapartida, existem alguns pontos que podemos concordar em relação as críticas hollywoodianas. O mercado do cinema hoje, nitidamente, gira em torno dos blockbuster e isso totalmente entendível, pois nenhum sistema financeiro se estabelece arriscando em coisas que talvez possam gerar lucro, eles miram em alvos de ouro; direcionando suas campanhas de divulgação para esse conteúdo e público, criando assim uma cultura, velada, de afastamento de outras obras que não seguem esse ritmo frenético de homens e mulher voando e soltando raios para lá e para cá; chegando a criar cenários parecidos com o que vivemos hoje em relação a tecnologia, onde para alguns o computador é apenas a ferramenta para acessar o Facebook o cinema é apenas o local para ver o Capitão América.

A fase dos filmes de heróis – pelo andar da carruagem – não tem data para desaparecer assim como as manifestações sazonais; porém algo é certo, eles vão ser ultrapassados por outro gênero que provavelmente quebrará toda a padronização de hoje, como muito bem fez o romantismo para a literatura. Deixando assim mais do que comprovado que toda essa discussão não é e é válida em seus respectivos universos, mas criando uma blindagem para o público em geral que consegue rebater as críticas com uma simples frase.

“Se não gosta, não veja,” e para os diretores “não faça”.

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