julho 12, 2020

Midway – Batalha em Alto Mar (2019) | Crítica

     Filmes de guerra sempre são um grande evento, principalmente pela história contada, que pode ser uma aula, um direcionamento ou uma visão de algum lado, se o casamento for feito com uma boa produção, a experiência sobe de nível e o olhar se esbugalha nas, média de tempo nesse tipo de filme, 2:30h. Ao longo dos anos os EUA saíram na frente nesse tipo de produção, a forma que os filmes enaltecem seu país, esbanjando patriotismo e empurrando o “mocinho” da situação, conquistou um grande publico ao redor do globo, mas no final das contas é para o seu povo que os filmes são feitos, pois estes dificilmente questionam os fatos, diferente de outras nações que sempre indagam a ordem dos acontecimentos e a forma que é apresentada, mesmo que rendam ao entretenimento depois. Em Midway a sensação é essa, mas com o passar do tempo você percebe que as coisas não saem conforme a receita e no final, a obra do diretor Roland Emmerich parece uma verdadeira chupada (no dicionário) em tantas outras produções.

     No currículo do diretor tem os filmes: os dois “Independence Day”, “2012”, “10.000 AC”, “O Dia Depois Do Amanhã”, “O Patriota” e mais alguns; percebam, é um diretor experiente e acostumado com grandes orçamentos, mas aqui ele teve 100 milhões de dólares nas mãos e pecou em um dos principais elementos de um filme de guerra, o visual. A aposta no CGI e no fundo verde excessivo fez com que o filme perdesse o fator “orgânico”, os dois primeiros atos são incrivelmente recheados de efeitos visuais sem profundidade, com combinação de cores que de tão saturadas causam cansaço, é um desperdício ver os atores sem saber para onde olhar, os menos experientes então, sofrem. Os japoneses eram conhecidos pelos seus voos rasantes, mas entre dois prédios um avião passar rente ao chão metralhando e causando ferimentos “simples” em pessoas é esquisito, uma metralhadora de avião deve, no mínimo, arrancar seu braço, o publico não é inocente assim. A aposta no digital também tirou a proximidade do espectador com a cena, closes de tiros, fraturas, atores sangrando no leito de morte, desfalecendo, com rugas na testa sentindo o sangue jorrar, faz parte do set de qualquer filme de guerra com ação, o Chroma Key levou tudo isso. Somente no terceiro ato é que o diretor decide por em pratica toda sua experiência e entrega algumas cenas convincentes e com um melhor trabalho de pós-produção, mas já é tarde demais, a essa altura o publico já relembrou fortemente de Pearl Harbor, Além da Linha Vermelha, Platoon, cada um com os seus motivos.

     Dizer que o filme lembra Pearl Harbor parece algo muito obvio, dados os fatos ocorridos, mas a memória vem de algo que falta ao roteiro do estreante em longas, Wes Tooke, alma! As linhas que ditam a ordem e a posição dos elementos narrativos e suas camadas apresentadas também causam incomodo, várias vezes eu soltei a expressão “e é assim?” A fúria nos ataques japoneses, evidenciado pelo sofrimento e as perdas ao longo do caminho, tem um contraponto no plano super aberto das ações americanas, é o já conhecido caso que mostra os EUA apenas respondendo aos ataques e os sofrimentos causados são relativizados; o cinema quando mostra um lado causando dor e o outro causando a mesma dor sem mostrá-la, é quase uma técnica de PNL para algumas pessoas, no entanto os livros de histórias também contam que o Japão se aliou a Alemanha nazista e a Itália fascista, tudo graças ao “Pacto Anticomintern” e aonde eu quero chegar com isso? contexto! É o que falta para dar a alma que esse filme pede, contexto, não desses fatos, mas de outros apresentados aqui mesmo. E assim o roteiro segue na sua estrutura de três atos, se embaralhando e se facilitando sempre que pode, dando ao enredo uma sequência quase risível em vários momentos, não pelo tema, mas pela previsibilidade.

     Um último elemento que ainda poderia dar a dignidade necessária, o elenco, fica apenas no papel também. Nick Jonas nunca esteve tão perdido em tanto fundo verde, sem foco no olhar em vários momentos o “ator” sofre com a falta de uma direção mais rígida; Woody Harrelson não conseguiu afastar o seu Tallahassee e sofreu bastante com o texto que lhe foi entregue; Luke Evans é o mais subaproveitado de todos, mas também é o mais familiarizado com o tal do fundo verde, mencionado milhares de vezes aqui, nas principais cenas é o único que parece sempre saber olhar para o lugar certo; Ed Skrein, o protagonista, fica longe de entregar o provável herói que seu personagem foi, o britânico não consegue vender a ideia de sofrimento e determinação destemida; Patrick Wilson é um inteligente que atua nos bastidores e ainda assim não escapa do “frexeiro em água rasa”; Aaron Eckhart tem 2 minutos para mostrar que as ações do inimigo também machucaram inocentes e a menção honrosa ao desperdício de talento atende por Dennis Quaid, caricato e genérico ao extremo, deem mais texto a um ator desse, tirem a necessidade do forte sotaque e dos cacoetes que precisam ser ao “pé da letra”, a liberdade poética serve também para trazer algo de diferente naquilo que não fica bom como cópia. É uma lista que inveja muitas produções por aí e mesmo assim ao final do filme você nem lembra bem que tantos atores que você tanto gostou em outros filmes estão presentes aqui. Faltou direção, faltou texto, faltou o analógico; a histórica participação de John Ford nesse episódio é tão canastrona que você chega a duvidar que aquilo realmente aconteceu.

     A batalha de Midway é um acontecimento histórico no período da segunda guerra e muito defendida como o “giro na chave” para o fim, o que aconteceu depois está nos livros, mas diante da perspectiva apresentada se perde no olhar do diretor que tenta se aprofundar na visão dos aviadores e não na própria história, entregando uma obra sem alma ou profundidade que ao invés de causar reflexão ou qualquer outra sensação ou sentimento, deixa apenas a vontade de revisitar obras, além das citadas, como Nascido Em 4 De Julho, o que é uma grande pena e causando ansiedade só no momento em que no fim do filme é mostrado o rosto dos verdadeiros personagens e o fim que eles levaram, acreditem, eu lembro mais do verdadeiro Dick Best apresentado ali no finzinho do que Ed Skrein interpretando-o. Midway – Batalha Em Alto Mar está disponível no Prime Video.

  • Midway – Batalha Em Alto Mar
  • Duração: 139 minutos
  • Diretor: Roland Emmerich
  • Roteiro: Wes Tooke
  • Elenco: Ed Skrein, Woody Harrelson, Nick Jonas, Luke Evans, Patrick Wilson, Aaron Eckhart, Dennis Quaid, Mandy Moore
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