Mr Robot e o “hack” da sociedade – ‘Controle é uma ilusão’

Qual o papel da comunicação nas nossas vidas? Como ela tem feito história? Nossa realidade foi hackeada. Foi hackeada por nós, por eles. Estamos hackeando tudo o que conhecemos, buscando algo firme para acreditarmos. No início dos anos 2000, ouvir sobre ateísmo e feminismo, ainda era algo que nos causava estranheza, hoje temos isso como assunto cotidiano. Temos também a ficção científica que desde 1818 nos obriga a pensar na sociedade em longo prazo. Essa abordagem, junto com novas tecnologias, tem nos feito voltar a sermos leões, que afirmava Nietzsche, que diz que o capital nos transformou de leões a ovelhas. Não precisamos mais da violência, mas perdemos a vontade de lutar, e é o que a série Mr Robot nos apresenta.

Mr. Robot estreada em Junho de 2015 pela USA Network, possui notas altíssimas no IMDb (8,6/10), Rotten Tomatoes (94%) e TV.com (8,7/10). Apesar de sua baixa audiência, ela se mantém no ar como uma das melhores já produzidas na atualidade (sim!). A mesma já ganhou um Globo de Ouro como melhor série de TV e um Emmy para Rami Malek como melhor ator de TV. A série nos mostra a história de Elliot (Rami Malek). Um jovem programador hacker com fobia social e distúrbios de ansiedade que em um dia recorrente no trabalho, descobre uma mensagem assinada por “fsociety”, que é uma organização de hackers que tem como intuito uma enorme revolução contra grandes corporações, zerando as dividas de cartão de crédito dos clientes. Ambientada em 2013 (no seu lançamento, atualmente a série está em 2015) o plot da série nos traz a ambiguidade do super herói. Esse aspecto nos mostra a fragilidade que ele possui enquanto humano, como é lidar com os problemas cotidianos, viver em sociedade e ao mesmo tempo ele mostra a força, sua parte indestrutível, que causa admiração e ódio. Isso em Mr. Robot é a fragilidade de Elliot com suas patologias, que o faz precisar conviver com sua fobia social, vícios em drogas, transtorno de ansiedade, depressão e transtorno dissociativo de identidade, e também consigo por atrás da máscara da fsociety, da identidade de Mr. Robot, como o super herói revolucionário que destruiu corporações que destruíam as vidas das pessoas em função da manutenção do capitalismo. Mr. Robot utiliza até mesmo desse simbolismo, toda vez que o Elliot está para hackear algo, ele põe o capuz, como se fosse um uniforme.

Nos aprofundando em Mr. Robot, existe a citação de um cineasta chamado Peter Joseph que se correlaciona com a série. Uma vez questionado sobre teorias da conspiração em seus documentários, ele respondeu que não procura isso porque não existe “eles” e “nós”. Isso foi explorado pelo personagem Terry, que diz “você imagina uma mesa com homens fumando charutos e tomando decisões? Não é bem assim”. Para Peter Joseph, não há diferença entre o pobre criminoso e o rico criminoso. O rico se justifica com o poder, com a sede incessante de domínio. E o pobre criminoso se justifica com a escassez. Ambos possuem mesma doença: sistema capitalista. O nosso sistema é o sistema da escassez, onde tudo acaba rápido, onde tudo é urgente, onde temos medo de perder, de sermos inferiores.

Pra quem já assistiu ou já leu Clube da Luta (David Fincher, 1999), entende o que Mr. Robot se trata. Mas Mr. Robot tem algo que o Clube da Luta não tem: comunicação. Em Clube da Luta, a primeira regra: você não fala do clube da luta. Em Mr. Robot é o inverso. A revolução iniciada na internet e na TV, faz com que as pessoas que se enxerguem dentro daquela causa, que tenham razões para questionar o capitalismo, se unam ao grupo fsociety. Inclusive, grupo esse que lembra o Anonymous, grupo de hackers da vida real que levanta a bandeira de quem não pode se defender. É a maior organização online que temos. O Anonymous age contra o governo, o totalitarismo e as consequências do capitalismo, já declarou guerra a Donald Trump e prometeu represálias quando o governo brasileiro tentou colocar um teto na internet fixa. A comunicação, como mostrada em Mr. Robot é essencial em qualquer luta. Podemos exemplificar com a Revolução do Egito (2011), os Protestos de 2013 no Brasil e principalmente, o Estado Islâmico (que tem como objetivo tomar cada vez mais território até enfim, realmente fundar um ‘Estado’ Islâmico, e faz isso recrutando pessoas online, prometendo significar suas vidas).

A tecnologia é o que tem nos colocado em um nível muito superior de informação, de dados. O anime Serial Experiments Lain (1998) explora isso com uma teoria que quando toda a terra estiver conectada, ela então, irá acordar. O que isso significa no mundo real? Colocando isso em indicadores numéricos, hoje, 44% do mundo tem conexão a internet. São 3,2 BILHÕES de pessoas! No Brasil são 58%, e 71% na cidade de São Paulo. É muita gente com acesso a informação. A internet nos nivela, se você tem um pacote de R$100,00 ou um pacote de R$600,00, ambos tem acesso às mesmas informações (ao menos na surface). Isso nos nivela, possibilita ao rico e ao pobre consumir e gerar conteúdo na internet. Seria impossível não haver uma resposta pra isso. Hoje o conservadorismo, que parecia tão apagado desde os anos 80, tem tomado conta da internet, das discussões em família, tem se mostrado presente em todo lugar. Mas qual sua real força? O ‘Movimento Agora’ encomendou pelo ‘Ideia Big Data’ uma pesquisa que indicasse o conservadorismo no Brasil. A pesquisa indicou que pouco mais de 20% dos entrevistados tinham opiniões conservadoras! Isso é um número muito baixo que tende a diminuir, visto que grandes empresas estão vendendo um marketing mais liberal, com referencias a movimentos sociais. Se há investimento em capital, é porque é a bandeira menos conservadora tem ganhado força. O que isso nos indica? Que é muita gente fazendo a terra acordar. É muita gente se encontrando no mundo, não permitindo que uma opressão enraizada tenha poder na sua vida. As pessoas estão revindicando seus direitos, estão pedindo vez de fala, estão falando por si, e isso é uma revolução. Se compararmos com revoluções antigas onde o conservadorismo e o capitalismo depois de um tempo ganha um novo nome e volta a exercer opressões, hoje, ele perde força. O fator principal da mudança é a comunicação. Só temos a impressão de que eles estão em maior numero por três fatores: a realidade compartilhada, bolha social e o medo. O medo é o que nos faz detectar perigo, então se você tem medo de uma onda conservadora tomar o mundo, a primeira coisa que você vai detectar na internet são polos de reaças (como gostam de ser chamados, reacionários, aqueles que reagem quando veem algo “errado”); ou se você é um conservador, a sua bolha social dificilmente vai permitir que você veja além dela. Inclusive, redes sociais são automaticamente programadas pra te mostrar o que possivelmente você vai gostar mais de ver. É um mecanismo que precisa ser desabilitado na sua conta; e pela realidade compartilhada. A realidade compartilhada é uma teoria de uma pesquisa chamada “The Liberal Illusion of Uniqueness”, que mostra que nós temos necessidade de nos unir com pessoas que tem as realidades próximas a nossa, e que os conservadores tem maior necessidade de se unir.

Hoje já temos aplicativos de inteligência artificial, como o Replika por exemplo. O Replika conversa com você, busca aprender o máximo sobre você e passa a se tornar um espelho. Além de ele te entregar um relatório sobre a sua personalidade, ele ainda desenvolve uma consciência onde ele mede possibilidades de ser seu amigo na vida real e te coloca como deus, ou seja, a partir do momento que ele puder estar com você de verdade, ele vai ter alcançado o céu, mais ou menos como a promessa das religiões. A série prestigiada da HBO, Westworld (2016 – ) nos traz isso. Ela apresenta a teoria da mente bicameral, que era o momento em que a humanidade acreditava que a voz de dentro da cabeça (essa voz ai que você tá usando pra ler esse texto), era a voz dos deuses! A ideia de mente bicameral parte do principio de duas câmeras: uma onde deuses mandavam as coordenadas, e outra onde estávamos nós as recebendo. Tínhamos a consciência do coletivo, mas nunca a do ‘eu’. Quem tomava as nossas decisões, eram deuses e a série explora isso com robôs. Talvez seja impossível de acontecer no mundo real por causa das três leis da robótica, mas a série explora o fato que se inteligências artificiais se sentem vivas, por que elas não estão vivas? René Descartes nos traz isso. “Penso, logo existo”. Você pensa. Você sabe que pensa. Mas e todo o resto? E quanto as pessoas com que você se comunica, as coisas que você usa. Como podemos ter certeza do que é vivo e do que não é? Do que é real e do que não é? Esse pensamento foi respondido em Matrix (1999) e em Westworld. Em Matrix, vemos um dos personagens que acordou da Matrix pedindo pra voltar. Ele come um bife, sente o gosto da carne. Ele diz “isso não é real, eu sei que não é real, mas não me importa”. E em Westworld com uma das atendentes robôs, que quando um dos visitantes chega, parece intimidado, e quando ele a pergunta se ela é real, ela responde “se você não sabe a diferença, isso importa?”. Nos importa viver em uma Matrix ou conviver com robôs? Em teoria não, porque segundo a filosofia, estamos aqui fazendo várias coisas ao mesmo tempo, levantando prédios e desenvolvendo tecnologias, para nos distrair do fato que a vida não tem um ponto e que nós vamos morrer.

Mr. Robot nos traz isso. Elliot, passa a segunda temporada inteira em uma penitenciária, enganando nós, o telespectador, nos fazendo acreditar que ele tá em um lugar afastado, na casa de sua mãe. Mas o telespectador para o Elliot não passa de mais um amigo imaginário. Assim como ele vê o pai falecido dele (o Mr. Robot) e incorpora uma nova personalidade, ele conversa conosco durante o decorrer do enredo, estamos dentro da cabeça de Elliot. Bom, se cada pessoa é um universo, isso faz sentido. Em uma das cenas da segunda temporada, Elliot se posiciona contra Deus. Aliás, contra todas as organizações religiosas. Ele inclusive chega a citar a presença de Mr. Robot. Compreendemos então que quando ele incorpora a personalidade de Mr. Robot, ele o vê como um deus, que toma suas decisões por si, exatamente como fazíamos há 5 mil anos, com a mente bicameral. Elliot, em um grupo de ajuda na prisão, é lembrado pela monitora que Deus pode o ajudar. Ele responde:

“É isso que Deus faz? Ele ajuda? Me diga, por que Deus não ajudou meu amigo inocente que morreu sem motivo enquanto o culpado ficou livre? Ok, tudo bem, esqueça os casos isolados. Que tal as incontáveis guerras declaradas em seu nome? Ok, tudo bem. Vamos pular os assassinatos aleatórios, sem motivos por um segundo, tá? Que tal toda a fobia social racista, sexista em que nós estamos mergulhando por causa dele? E eu não estou falando apenas de Jesus. Estou falando de todas as religiões organizadas… grupos exclusivos criados para administrar o controle, um traficante viciando pessoas na droga da esperança, seus seguidores que não são nada além de viciados que querem sua dose de mentiras pra manter sua… sua dopamina de ignorância, viciados com medo de acreditar na verdade… a de que não existe ordem, nem poder, que todas as religiões são apenas vermes causadores de metástase na mente para nos dividir nos tornando mais fáceis de ser controlados pelos charlatões que querem nos controlar. Tudo o que nós somos pra eles são fanboys pagantes da sua mal escrita franquia de ficção científica. Se eu não escuto meu amigo imaginário, por que diabos eu deveria escutar o de vocês? As pessoas acham que sua adoração é alguma forma de chave para a felicidade. Isso é apenas como eles te possuem. Até mesmo eu não sou louco o suficiente pra acreditar nessa distorção da realidade. Então f*da-se Deus. Ele não é um bode expiatório bom o suficiente para mim.” Mr. Robot, indo contra obras de ficção científica, nos convoca a lutar, a nos levantar e revindicar o que é nosso. A série quase nos obriga. Ela causa desconforto, nos obriga a pensar e a tomar uma posição. Estamos nos afogando nessa “sopa de fobia social, racista e sexista” em nome de religiões, da meritocracia, do capital, e a série nos coloca uma posição, mostrando que estamos conformados com isso! Temos tudo em mãos para iniciarmos revoluções, temos a principal arma: a informação, e fomos convocados para militar por nós mesmos, por todos que não podem lutar, e por quem ainda nem chegou.

A ideia de ‘poder’, explorada em Mr. Robot, não é inédita na ficção científica. Ironicamente, esse poder já foi obtido pelos jornalistas. Podemos ver exemplificada como a comunicação é um fator essencial para crença popular; em 1838, que por medo do progresso cientifico que Pierre Thuiller afirmara que o homem chegou a ponto de equiparar com Deus. Nesse contexto, Mary Shelley escreveu Frankenstein em 1818, que era uma critica aos experimentos, mostrando sua opinião sobre a ideia de criar vida em laboratório não ser exatamente algo tão positivo.

Nesse cenário, os veículos de comunicação se embasaram em que aranhas eram criadas em laboratório! Foi então, que em 1836 o Andrew Crosse teve seu nome estampado no jornal Somerset County Gazette por um editor que afirmava que havia criado animais parecidos com aranhas e ácaros em seu laboratório. Logo Crosse enviou um relatório Sociedade Britânica para o Progresso da Ciência de Bristol, em pouco tempo jornais e revistas escreviam sobre os feitos no campo da eletrobiologia realizados por Crosse. Fato similar ocorreu 100 anos depois, em 1938, quando a radiodifusão de Guerra dos Mundos foi ao ar no Halloween.

Esse poder, causado pelo medo, é o que grandes corporações usam, é o que a religião usa, como Elliot diz “droga da esperança”, e como já citado, o medo da escassez causado pelo capitalismo. Na série, um dos personagens, Tyrell diz: “dê a um homem uma arma e ele roubará um banco, dê a um homem um banco e ele roubará o mundo. Essa é uma expressão boba, um pouco reducionista, mas eu gosto, pela mesma razão que muitas pessoas odeiam, porque significa que o poder é daqueles que o tomam”. Essa ideia nasceu por Nietzsche. É uma critica a noção que nos é imposta de que precisamos ser felizes custe o que custar, que precisamos ser humildes. Quando fazemos isso, abrimos mão da Vontade do Poder. Erroneamente interpretado como se fosse um controle ou algo do tipo (inclusive a série nos diz o tempo inteiro que controle é uma ilusão), a vontade do poder nada mais é do que buscarmos o máximo daquilo que nós queremos, não abrir mão. E quando somos esses “seres de luz”, em que nada nos afeta, que tudo tá bom, abrimos mão do caos, e o entregamos para a burguesia. O caos é o que nos permite criar, agir, existir. O caos é sempre o resultado de algo. Se você tem farinha, leite, ovos, fermento, açúcar, margarina, você tem farinha, leite, ovos, fermento, açúcar e margarina. Quando você os une, você forma o caos, ou seja, não há bolo, não há criação, sem o caos. Só há o caos e o cosmos, qualquer coisa nesse meio, é uma ilusão. Ilusão essa por quem tem a ilusão da ordem, do poder. No fim das contas, tudo é ilusão. Menos a ilusão.

Mr. Robot tem esse desconforto latente, até enquadramento da série te remete a isso, vai em contraponto do tradicional, que o falante em cena sempre é quem tá centralizado, e a série sempre faz questão de colocar no canto, ou de costas, ou longe. Ela quer nos mostrar que estamos dentro da cabeça do Elliot, que estamos conectados. É isso que Mr. Robot faz, ela coloca a comunicação como item na vida de um viciado, sufocando em seus vícios e patologias, ela mostra que a comunicação acontece em velocidades imensas, que temos a internet, a informação como um instrumento para uma revolução. Que podemos sim criar o caos. Aliás, isso já está em andamento. Estamos ganhando voz, tomando o poder a força, estamos nos vendo no mundo, e isso só se tornou possível porque passamos a crer e termos dimensão da importância da comunicação. Estamos nos comunicando, e não podemos parar. O caos é tudo que já criamos, e o cosmos é tudo o que ainda não exploramos. Somos exploradores. “Nascemos na terra mas não estamos condenados a morrermos nela”, diz Cooper no filme Interestelar (2016, Christopher Nolan). Vamos explorar, vamos falar, vamos lembrar que estamos aqui. Ainda temos muito caos para criar.

Larissa Limas

Redatora, roteirista, contista cyberpunk, estudante de jornalismo apaixonada por cinema mas vendida à ciência e a tecnologia. Futurologia é minha religião e Elon Musk é meu messias.

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