janeiro 15, 2021

Mulher-Maravilha 1984 (2020) | Crítica

O primeiro Mulher-Maravilha, conduzido por Patty Jenkins, foi uma espécie de ponto de ruptura que começava a semear essa dinâmica menos niilista da abordagem oferecida por Zack Snyder e caminhava por uma essência menos dramaticamente rústica. Contudo, embora cheio de boas intenções na teoria, o produto final acabava ficando perdido em meio a essa transição brusca que afetava a liberdade da diretora em se desprender definitivamente do tom melancólico do formalismo de Snyder e assumir os exageros que aquele universo carregava. Existem momentos que tentavam assumir a breguice da fantasia de maneira direta, mas eram interrompidos por problemas do desenvolvimento emocional dos arcos e se acomodava em um campo seguro que ousava pontualmente, mas nunca de modo objetivo.

No entanto, o mesmo não vale para Mulher-Maravilha 1984: talvez por Patty Jenkins já estar mais confortável com seu trabalho, o resultado seja um filme mais consciente de seus exageros e que faz questão de ir além do tradicional na exploração da fantasia. Mesmo assim, Jenkins ainda sofre ao tentar se desviar de problemas que já se faziam presentes no capítulo anterior.

Tudo que diz respeito ao arco emocional da Diana (Gal Gadot) com Steve Trevor (Chris Pine) é um completo desvio do que deveria ser a abordagem central, focalizada nos exageros fantasiosos. Dramaticamente ineficaz, ainda que razoavelmente justificado dentro do contexto temático (a ideia de farsas e viver uma mentira como se fosse verdade), essa dinâmica retira um tempo precioso – ainda que curto – que poderia ser utilizado em prol de outras vertentes da narrativa. Por sorte, diferentemente do anterior, o romance de forma clara ocupa um espaço menor, já que a Jenkins se mostra mais interessada no exagero desse universo novo na qual voltamos a nos aventurar ao lado da heroína.

É certo que o filme mal utiliza a iconografia oitentista como deixou subentendido em seu material de marketing (que precisa ser visto simplesmente como uma divulgação, um atrativo para chamar a atenção do público), os anos 80 aqui são meramente um background que passa rapidamente pelos olhos do espectador em elementos breves que remetem a essa geração. Jenkins acertou em usar a década menos como um saudosismo confortável e  limitador, inserindo ele não de forma objetiva na obra, mas de maneira subjetiva, através de sua abordagem formal das cenas, de uma artificialidade dos planos e da ação que resgata uma essência das produções da época. O modo que ela encena certas interações, em momentos pontuais, carrega até um viés televisivo bem tosco, mas muito revigorante ao assumir abertamente essa concepção audiovisual.

Os efeitos visuais, por exemplo, são levados ao extremo: se assumem de maneira artificial dentro da abordagem e possibilitam uma maleabilidade maior dos movimentos fantasiosos nas sequências de ação, momentos que também são auxiliados por uma insistência (positiva) de Jenkins em recorrer ao slow-motion pra estilizar as sequências, em prol de transformar determinados planos em uma espécie de splash page (quando o desenho de uma cena, em uma HQ, ocupa a folha por inteiro) audiovisual. Já a fotografia de Matthew Jensen tem um tom publicitário essencialmente plástico que a diretora sabe utilizar bem para potencializar essa exploração gráfica.

As coreografias dos combates também seguem essa essência exageradamente afetada de tudo, desde os confrontos físicos até aqueles com auxílio dos efeitos digitais para compor a sequência (as cenas da invasão na Casa Branca e do combate entre Diana e Minerva no clímax são bons exemplos). Até o Hans Zimmer se deixa levar nesse sentido, sempre intensificando a presença da trilha gritante e miscigenada, indo da ópera clássica a um sintetizador grave que sempre potencializa os eventos e marca sua participação nas cenas de modo berrante – no sentido positivo.

(E um breve destaque para as composições de Pedro Pascal e Kristen Wiig como antagonistas, auxiliando nessa abordagem exagerada da condução de Jenkins).

Mulher-Maravilha 1984, no final das contas, é uma grata surpresa: ainda que se perca no desenvolvimento problemático dos arcos dramáticos (principalmente o drama interno da Minerva), Jenkins começa a encontrar seu caminho em uma obra agradável e graficamente assumida, que não se envergonha de mostrar sua heroína se laçando em raios para planar pelo ar ou de ter uma personagem, em um momento pontual da narrativa, com uma composição digital exageradamente falsa, mas muito fiel a abordagem que a narrativa carrega. Um produto do subgênero que, entre virtudes e falhas, consegue ter personalidade. E em um nicho que a cada filme, parece se tornar cada vez menos interessante, o resultado final acaba sendo ainda mais satisfatório.

Avaliação: 3 de 5.
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