outubro 20, 2020

Never Rarely Sometimes Always (2020) | Crítica

Sem dúvida alguma, não sou a pessoa adequada para comentar o impacto de Never Rarely Sometimes Always – embora tal tenha me arrebatado emocionalmente – , já que esse é um projeto melhor apreciado e sentido por mulheres. Ma fato é que Eliza Hittman, em seu terceiro trabalho nos longas-metragens, conduz e concebe uma história simples e com um foco humano interessante que explora o medo feminino em conviver em uma sociedade consumida por homens lascivos e sem escrúpulos com relação aos seus atos, um deles aqui chegando ao cúmulo de se masturbar em frente a jovem Autumn (Sidney Flanigan) e sua prima, Skylar (Talia Ryder) dentro de um metrô vazio. É uma cena que poderia ser considerada “exagerada”, mas infelizmente, é a triste realidade que muitas pessoas do sexo feminino precisam conviver. 
 
O mais interessante é ver como a realizadora enxerga todos os homens que aparecem durante os 100 minutos de projeção como figuras reprováveis e sem qualquer remorso de suas ações repudiáveis. E o pior: estão espalhados por toda a parte e das mais diversas formas. De maneira esperta, Hittman analisa como funciona o machismo e a misoginia, indo do sutil (o jovem que se mostra interessado a ajudar Autumn e Skylar apenas para conquistar a atenção de uma delas) até o mais explícito (a já citada cena no metrô), chegando a aqueles que não presenciamos em tela, mas que impactam por lembrarmos que tais acontecimentos são tristemente recorrentes em nossa sociedade contemporânea. 
 
Inclusive, é interessante ver como Eliza ao lado da diretora de fotografia Hélène Louvart compõe o mundo na qual a protagonista vive com cores frias de azul, cinza e branco, jamais criando uma exuberância visual e mostrando como a realidade da jovem é angustiante e melancólica. Hélène também enche nossos olhos através da simplicidade de sua cinematografia: a película granulada tem uma aparência de “filmagem caseira”, como um gravação que registra toda a trajetória de Autumn na realização de seu aborto (e, inclusive, é curioso ver como a diretora/roteirista evita julgamentos dos espectadores masculinos ao jamais revelar como a menina chegou a tal situação, o que faz com que venhamos a compartilhar de seus conflitos e ter empatia por sua figura). Já os planos seguem uma predominância de close-ups que, além de ressaltar a claustrofobia na qual incita o medo feminino da sociedade masculina, cria uma dinâmica intimista para reforçar o laço afetivo entre Autumn e o público. 
 
Já a trilha sonora da compositora Julia Holter é eficiente por ocupar uma posição de sutileza no contorno narrativo, jamais criando uma musicalidade manipulativa ou emocionalmente afetada, dosando de maneira precisa o tempo necessário da melodia em cena, fazendo com que o som ambiente ganhe destaque – algo que ocorre através do maravilhoso trabalho do desenho de som, intensificando a precisão dos barulhos urbanos ao redor, sempre soando opressores e obliterando constantemente o silêncio de determinados instantes.
 
Contudo, é mesmo na relevância social de sua abordagem temática que Never Rarely Sometimes Always encontra seu virtuosismo: além do olhar negativo da figura masculina de Hittman, o roteiro reforça a importância da união feminina como forma de combater tais males comportamentais da figura masculina na sociedade, a sororidade como uma maneira de lidar com a misoginia recorrente no mundo contemporâneo. Por isso que o laço afetivo central do projeto é a amizade e o apoio mútuo de Autumn e sua prima, Skylar, mostrado com uma pureza e simplicidade deslumbrante para intensificar a necessidade de uma na vida da outra. Eliza discute também as diferentes faces do abuso, seja ele sexual ou através de uma certa persistência incômoda, algo registrado na persona de Jasper (Théodore Pellerin), agindo com uma gentileza e prestatividade para revelar que suas intenções são totalmente semelhantes a de muitos homens na narrativa, mas apenas embalada de uma maneira diferenciada – e é interessante como o único instante que objetifica uma das meninas é naquele em que a câmera simula a visão do rapaz enquanto esse olha para os quadris da moça. 
 
E sobre a questão do aborto, o roteiro se mostra mais sutil ainda quando mostra tanto a intolerância religiosa quanto a visão dos demais sobre a decisão, em um instante na qual vemos uma doutora exibir um vídeo sobre os males da escolha – que, curiosamente, é apresentado por um homem. Já dramaticamente, o texto se encarrega de conduzir um retrato realista e duro sobre os conflitos internos e angústias da adolescência, tudo com uma tridimensionalidade fabulosa na maneira como retrata sua protagonista, estudando a recorrente melancolia que neles se instalam – algo que pode ser claramente visto na personalidade de Autumn. 
 
Interpretada pela cantora e compositora Sidney Flanigan (que realiza seu primeiro trabalho como atriz), a personalidade de Autumn é refletida através dos detalhes: as constantes – e sutis – mudanças na expressão facial, o olhar melancólico e perdido, além da inexpressividade justificável pelo estoicismo na qual construiu em sua imagem interna, retendo todo o sofrimento para seu íntimo até o instante na qual o solta, no instante que nomeia a produção, onde a jovem é levada a responder perguntas para confirmar o seu aborto, resultando em um desabamento emocional minimalista e excelente ao mostrar as dores e traumas que carrega e sua dificuldade em abordá-los; além disso, sua dinâmica com Talia Ryder é exemplar e essencial para que venhamos a construir um investimento emocional forte com relação ao vínculo entre as moças. 
 
E isso culmina naquele que é, sem dúvidas, o plano mais belo de Never Rarely Sometimes Always, na qual vemos as mãos de Autumn e Skylar em um aperto que, devido ao contexto da cena, reflete a importância da sororidade em um mundo onde nem aquilo que é repugnante se estabelece com clareza ao olhar. Um retrato humano de um mal que, infelizmente, está distante de acabar.

Avaliação: 5 de 5.
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