No Portal da Eternidade (2018) | Crítica

Contemplativo, reflexivo e inspirativo. O diretor Julian Schnabel brinca com as perspectivas para tentar criar um vislumbre do portal da eternidade que Van Gogh enxergava.

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Depois do pintor Vincent Van Gogh(Willem Dafoe) ser rejeitado pelo público após uma exposição de quadros, ele faz uma viagem, a conselho do também pintor Paul Gauguin(Oscar Issac), para se inspirar e pintar mais. Mas o mundo não é fácil para o especial Vicent que sofria com sua saúde mental.

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A natureza como obra divina é pouco valorizada como presença de Deus, mas o rei de Israel Davi descrevia em Salmos 19:1 que os céus declaram a glória do Altíssimo e o firmamento proclama as obras de suas mãos. Willem Dafoe interpretando o pintor transmite uma crença inexorável ainda que gagueje em “maybe” para afirmar que tem o dom de Deus para pintar. Um ator menos experiente iria facilmente transitar para uma loucura ostensiva demais, porém Dafoe entende a diferença da loucura dos outros e a magia incompreensível de Van Gogh. Assim o diretor faz da atuação um resgate biográfico de alma, não para contar uma história pautada na bibliografia. A partir disso Vicent pode ser entrevistado como se fosse pelo espectador quando as câmeras centralizam seu rosto e de quem conversa com ele para aprendermos sobre as ilimitações da arte, ao mesmo tempo a fotografia contemplativa, de cores indecisas e do amarelo vivo ou azul intenso estão atrás do que o artista captava com seus olhos que já não eram tão saudáveis. E num terceiro ponto de vista, com transições sem padrões para acontecer, o que se passa internamente irradia com movimentos bruscos da lente, três óticas que substituem um roteiro pouco preocupado em junções de fatos.

Em 2 Coríntios 4:18 diz: assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno. O protagonista cita uma frase parecida a um padre(Mads Mikkelesen) que diz Jesus ter dito, e não atoa o filme trata da melancolia e desespero do personagem com cuidado, sem julgá-lo como doente e muito menos desprezar quem o assim chamava. Para isso é trabalhado o processo de imersão com supressões a respeito dos casos em que Vincent foi considerado um perigo para o interior da França em que se estalou se inspirar nos quadros. Se em cenas em que ele aparenta ser violento com crianças ou uma mulher para se concentrar na pintura, por outro não se conta a conclusão ou a causa, apenas o sentimento de incômodo. Assim compreende-se que Gogh parecia desequilibrado embora fosse parte do seu fervor impressionista de pintar enquanto houvesse sol, enquanto houvesse impulso criativo, logo a o diretor corre atrás de encontra-lo correndo, se impressionando e mexendo o pincel rapidamente. Por outro lado sua atitude aparentava misantrópica, mesmo que Will Dafoe abrace Rupert Friend, que interpreta o irmão Theo Van Gogh, como uma criança que precise de um pai.

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Em Gálatas 6:8 fala assim: pois quem semeia para a sua carne, da carne colherá ruína; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna. Uma maneira de dizer que o que se semeia na vida a colheita será feita em outro lugar. Pode absorver disso um pensamento negativo sobre o filme e sua maneira de algumas horas forçar uma ilustração que anteriormente foi feita como um costume não progressivo. Se na intenção assertiva de sensibilizar a maneira de Van Gogh nos mais variados espectros funciona na semeadura a colheita é proveitosa até o ponto que se entende o limite de interpretar a dimensão do pintor. Há bons momentos de explicação verbal para tornar verossímil a discussão da arte que Vincent tem com seu amigo também pintor chamado Paul Gauguin vivido por Oscar Isaac, crítico da pressa e da falta de traço firme nos contornos, uma clara ideia padronização da arte. Entretanto o verbalizar do como fazer, do que sentir, parece uma forma de descrédito mínimo ao visual. Se o público desiste da obra de Julian pela sua falta de amarras Dafoe serve como trilha, porém a teima de explicitar é quase um refúgio que enfraquece o mergulho do artista holandês.

Diante disso espere até o final dos créditos. Não se contente com apenas um valor emocional que o encerramento guardou com uma simples montagem de cenas de um pé estendido. O mais especial desse longa-metragem sem dúvida se resume a presença mais uma vez das artes plásticas no cinema tão penetrante por meio da vida de Vicent Van Gogh, um homem escolhido para pintar a eternidade da natureza.

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  • Título original: At Eternity’s Gate
  • Direção: Julian Schnabel
  • Roteiro: Jean Claude Carrière , Julian Schnabel, Louise Kugelberg
  • Elenco: Willem Dafoe, Oscar Issac, Rupert Friend, Mads Mikkelsen, Mathieu Almaric, Emmanuelle Seigner.

Davi Lima

Cinéfilo, fã de Star Wars, e ainda procurando formas de ver mais filmes para aprimorar a massa crítica. Colocando a sabedoria e o equilíbrio aonde for.

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