Nomadland (2020) | Crítica

No filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild, em Inglês), de 2007, o protagonista Christopher McCandless (Emile Hirsch) decide rejeitar todo o marasmo do ambiente urbano, se desfaz completamente do dinheiro que tinha em mãos e se joga em uma jornada de autodescoberta e compreensão através de seu contato com a natureza, mas é a relação com cada pessoa que cruza o seu caminho que reside a verdadeira lição que iria aprender ao final: que a felicidade é verdadeira quando compartilhada. Seguindo essa estrutura de road-movie, o filme de Sean Penn registra as angústias internas de seu protagonista através dessa caminhada intimista de saber quem é, resultando em um desfecho inevitável para o personagem, no caso, a eterna solidão.

De certo modo, a jornada de Christopher compartilha de semelhanças com a de Fern, personagem de Frances McDormand em Nomadland, novo filme da diretora Chloé Zhao, mas a diferença é que, se McCandless estava iniciando sua vida, aqui, Fern está na reta final dela. Então, muda-se a busca dramática do “quem sou (e serei) eu?” de Na Natureza Selvagem para “Qual meu lugar nesse mundo?” aqui, tudo através de uma viagem poética e formalmente crua sobre a vida de idosos que, ao invés de esperarem a inevitável hora de ir embora em quatro paredes, decidem viver migrando de lugar para lugar, como uma espécie de nômades modernos, onde o único destino restante é vagar incessantemente pelo território americano.

Todo o naturalismo formal de Zhao transmite uma sensação documental bem adequada para registrar de maneira pura o cotidiano dessas pessoas, desde a dinâmica da câmera que adentra aqueles ambientes de maneira muito íntima, quase sempre pelo campo de visão da Fern, capturando aqueles momentos através da aproximação direta da imagem ou do afastamento, quase com um olhar em terceira pessoa que filma a vida daquelas figuras de uma ótica distanciada, que engrandece seus pequenos atos. Por citar isso, outra virtude da diretora é em como ela faz das ações mais minimalistas dos seus personagens, uma conversa ou uma mera caminhada (há alguns planos-sequências que foca somente na Fern andando pelos espaços), em pontos dramáticos realmente poderosos, que revelam mais do que aparentam sobre o interior de sua protagonista.

A objetividade aliada a sutileza da diretora também se revela como algo importante na composição dramática da obra, especialmente em como ela lida com os cortes secos da montagem (feita pela própria Zhao) que pulam longos períodos temporais para mostrar apenas o que considera essencial dentro de sua narrativa. Essa abordagem direta que a realizadora cria com a edição de Nomadland ajuda a transmitir a sutileza, evitando resolver emocionalmente alguns dos dilemas dramáticos da protagonista através da verborragia, mas a partir do tom contemplativo das imagens, chegando até a invadir o espaço de Fern com close-ups que adentram sua mente e divagam sobre seus sentimentos com relação a sua jornada e as coisas que aprende. E, claro, aplausos para Frances McDormand que, mais uma vez, contribui para o drama do projeto, compondo ao lado de Zhao uma mulher de poucas palavras, mas muita expressão, cujo olhar revela ternura, mas ao mesmo tempo, exaustão.

E, nesse ponto, volto a Into the Wild, especificamente o seu final, que compartilha de um desfecho semelhante a aquele visto no filme de Penn: se, ao final, Christopher morre sozinho em meio a floresta, aqui, Fern não chega a morrer, mas ao invés de compartilhar sua felicidade, ela decide continuar sua jornada de aprendizado de modo solitário pelas locações do seu país. E tudo é resolvido em um sutil e silencioso plano onde vemos sua caminhonete seguindo estrada, um enquadramento que, por si só, revela o destino final da protagonista de Nomadland: seu lugar no mundo é continuar a dirigir sem rumo e encontrar nessas pessoas, também sem destino a não ser viverem como legítimos nômades, a felicidade compartilhada que McCandless descobriu no seu leito de morte.

Avaliação: 4 de 5.
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