Nós (2019) | Crítica

“Se quiser realmente ver o teu maior inimigo, pare por alguns instantes à frente de um espelho”. A conhecida frase cabe bem em “Nós”, novo filme de Jordan Peele. Em sua estreia no cinema como diretor, com o premiado “Corra!” (2017), ele expôs o horror do racismo velado dos dias de hoje nos Estados Unidos. Agora sua intenção parece ser refletir sobre a responsabilidade de cada um, como indivíduo e sociedade, na concepção de seus próprios medos e monstros.

Na história, Adelaide (Lupita Nyong’o) e Gabe (Winston Duke) decidem levar os filhos Zora e Jason (Shahadi Wright Joseph e Evan Alex) para passar um final de semana na praia. Eles aproveitam o ensolarado e descontraído lugar ao lado de alguns amigos (incluindo Elisabeth Moss, da série “The Handmaid’s Tale”). Quando a noite cai, contudo, a serenidade da casa de veraneio onde estão se transforma em caos com a chegada inesperada de visitantes nada convencionais.

Foto: Divulgação.

Como o fio condutor de toda a narrativa, a mãe tem maior destaque com seu alto grau de complexidade. Não posso me estender para não entregar as surpresas. Fato é que com a mudança de postura, voz e olhar, passando pela caracterização, desde já, Lupita se torna um dos possíveis nomes a figurar na próxima temporada de premiações como melhor Atriz. Há de se ressaltar também seus companheiros de cena, cujas atuações se equiparam de acordo com o que cada papel exige e oferece.

Para deixar o elenco a par da “linguagem” pretendida na hora de filmar, Peele recomendou de clássicos como “Os Pássaros” (1963), de Alfred Hitchcock; “O Iluminado” (1980), de Stanley Kubrick; “Voltar a Morrer” (1991), de Kenneth Branagh; “Jogos Perigosos” (1997), de Michael Haneke; e “O Sexto Sentido” (1999), de M. Night Shyamalan; aos mais recentes “Medo” (2003), “Mártires” (2008), “Deixa Ela Entrar” (2008), “O Babadook” (2014) e “Corrente do Mal” (2014).

O cineasta continua com a sua verve cômica, mas se a mistura com o suspense funcionou perfeitamente em sua obra anterior, em “Nós” acaba dando uma titubeada. Alguns momentos beiram a bizarrice, o que se era pra causar espanto, provoca risos (nervosos). Isto não quer dizer, contudo, que ele não consiga deixar a audiência presa na cadeira e vidrada na tela. Como de costume no gênero, a partir de uma situação corriqueira, a escala de tensão vai progredindo até que sangue começa a ser derramado.

O alinhado roteiro deixa pistas pelo caminho, como os elementos de cena que não estão lá em vão. Enquanto muitos tentam esconder ao máximo seus segredos mais sombrios, deixando para o ato final as respostas, Jordan Peele os apresenta sem maior drama e ludibriamento. Devo confessar que me senti frustrado em determinado momento por não ir de encontro ao que estava imaginando, mas isto vai da percepção e expectativa de cada um. Quando chegou ao final fez todo sentido.

Foto: Divulgação.

Responsável pelo recente “Vidro”, a direção de Fotografia de Mike Gioulakis faz um bom uso da luz e das sombras, causando dúvidas em nós mesmos quanto a quem são os outros personagens vestidos de macacão vermelho. Vale destacar também o Design de Produção. A trilha sonora de Michael Abels havia chamado atenção nos trailers e aqui se mostra ainda mais interessante, com o ótimo uso de “I Got 5 on It”, do duo Luniz, e ao evocar acordes clássicos.

Um dos filmes mais aguardados do ano, “Nós” deve entrar na lista dos melhores de 2019. Não sem antes gerar muita discussão nas rodas de cinéfilos. Como o tipo de obra pra se ver mais de uma vez, acredito que a cada nova visita, a experiência ou assimilação será diferente. Em tempo, o próximo projeto de Jordan Peele é o revival de “The Twilight Zone” (“Além da Imaginação”). Em 10 episódios, a série da CBS vai abordar as coisas estranham que tomam conta da nossa realidade. A propósito, esta crítica entrou no ar às 11:11!

  • Nós (Us)
  • Duração: 116 min.
  • Direção: Jordan Peele
  • Roteiro: Jordan Peele
  • Elenco: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Shahadi Wright Joseph, Evan Alex, Yahya Abdul-Mateen II, Anna Diop, Cali Sheldon, Noelle Sheldon, Madison Curry

Moisés Evan

Formado em Jornalismo, acredito na cartilha de "The Post", e também em Publicidade, mas sem a intenção de fazer "Três Anúncios para Um Crime". Como "Lady Bird", ao alçar voo para outras bandas, cheguei até aqui. Tem horas que o mundo parece nos envolver numa "Trama Fantasma" ou nos colocar numa enrascada como em "Dunkirk". Não vou mudar "O Destino de Uma Nação" escrevendo sobre o que mais amo, mas sempre que eu postar, espero que você "Corra!" para ler e não tenha receio de comentar e/ou discordar. "Me Chame Pelo Seu Nome"? Melhor não. Mas pode ser pôr @sr.lanterninha. Vivo num mundo de sonhos e monstros e um dia hei de descobrir "A Forma da Água" em seu estado mais bruto e belo.

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