maio 28, 2020

O Caminho De Volta (2020) | Crítica

     Gavin O´Connor é um diretor que constrói seus filmes no alicerce dramático pessoal, em Guerreiro vimos o embate dos irmãos Conlon, vividos por Tom Hardy e Joel Edgerton; em O Contador, acompanhamos os desdobramentos profissionais e pessoais do personagem de Ben Affleck. São historias que narram uma verossimilhança muito próxima aos olhos do espectador e geralmente o resultado é positivo, podendo, é claro, agradar ou não a todos, afinal, quando falamos em pessoas, falamos em escolha e escolhas nem sempre são certas ou erradas, são apenas escolhas que virão com futuras consequências. Nesse aspecto, O´Connor vem se saindo bem, o diretor é experiente com séries e com dramaturgias e esse é um ponto positivo, ao escolher falar sobre pessoas no teatro, o feeling é quase obrigatório e você desenvolve isso com experiência ou com base em muito estudo e desenvolvimento.

     Em O Caminho de Volta, o diretor revisita essa trajetória com uma profundidade que sobrepõe a tela. Ao apresentar seu novo trabalho, fica claro que a proposta principal não é entreter, é fazer refletir. No seu novo longa acompanhamos a trajetória de um ex-atleta que era considerado um fenômeno no colegial e que ao se tornar adulto, deixou o esporte e parou na construção civil com graves problemas de alcoolismo, porém em algum momento da trama ele é convidado para dirigir o mesmo time que foi destaque, assumindo o posto de treinador. É uma narrativa que parece pré-desenhada e muito comum, mas o que diferencia uma obra da outra são as escolhas. Alguns clichês estão presentes, um filme que envolve esporte tem suas estruturas lógicas embutidas no pacote, na maioria das vezes. A volta por cima, o desafio do time perdedor em se tornar vitorioso, o aluno/atleta que busca reconhecimento, a redenção, tudo faz parte, no entanto ao optar conversar com o público sobre pessoas, o diretor coloca o esporte como pano de fundo, não existe problema com o clichê, na verdade a forma que ele é usado que cria o problema, mas aqui o que queremos saber é como e o que aconteceu para que o protagonista chegasse a esse ponto.

     Alinhando sua proposta com uma trilha musical sem muitas variações, com piano e violão esticando as notas até que lhe “falte ar”, a narrativa vai se desenvolvendo aos olhos cansados do seu protagonista, com uma câmera que varia muitas vezes entre o plano fechado e o close-up para evidenciar tal cansaço. Com o som das notas se estendendo ao fundo nós vamos entrando na vida de Jack (Affleck), que em algum momento fisga o espectador pelo sentimento. Existem vários que estão na construção desse personagem, tornando a experiência muito intima. O alcoolismo é só mais um dos problemas que começou como uma válvula de escape, Jack é solitário, amargo, rancoroso, fúnebre e os elementos citados anteriormente evidenciam isso, a partir daí você se questiona: “Eu posso conhecer uma Jack” ou pior “eu posso ser um Jack”, são questionamentos que surgem por necessidade através das escolhas do diretor, falar sobre pessoas é sempre mais importante que falar sobre qualquer outra coisa. A impressão que temos é que a decupagem do roteiro foi acontecendo ao longo da produção, de acordo com o tom, pois em todas as camadas apresentadas, não só pelo protagonista, mas por todos os outros personagens que compõem aquele núcleo. Cada um deles tem sua importância dentro e fora da produção, afinal, quem não busca um reconhecimento, uma vitória, apagar uma péssima lembrança ou se distanciar daquilo que os outros queriam que você fosse, mas no fundo não era isso que você queria? É uma pegada muito intima nesse quesito e que possui várias armas para fisgar sua audiência.

     Adicionando tudo que foi dito até aqui, um elemento que tornou esse filme especial foi a escolha do seu protagonista, ao longo dos anos Ben Affleck se deparou com algumas coisas citadas aqui, em especial, seu problema com álcool. A honestidade do ator em se deparar com aquele personagem que nos primeiros minutos só faz beber todo tipo de bebida que tenha algum teor alcoólico, e o diretor faz questão de mostrar isso incansavelmente, para que fique registrado que aquele problema é “sólido”, é impressionante. Você enxerga os sentimentos destrutivos que o vício causa, com toda propriedade e sinceridade de quem já perdeu na vida pessoal e profissional, Affleck entende bem o terreno que pisa. Esse é um dos objetivos da arte, passar que precisa ser dito, mas de forma que seja sentida, são escolhas, são caminhos e aqui a escolha em trazer o protagonismo, um protagonista da vida real daquele problema e usar a linguagem cinematográfica para passar isso a quem assiste e causar as reflexões que propõe, é gratificante.

O Caminho de Volta é um filme que surpreende pela sutileza nas ferramentas do roteiro, que brinca ao usar clichês sem aquele tom artificial e envolve o espectador ao quebrar as expectativas narrativas ao apresentar um filme que envolve esporte. É honesto, é integro, é reflexivo e é um dramalhão que pode levar seu protagonista a figurar entre as premiações neste ano que certamente será carente de muitas concorrências. Ponto para o diretor, ponto para Ben Affleck, que certamente fez uma boa terapia para sua luta pessoal. Devido à pandemia do Covid-19, a Warner migrou o lançamento do filme para as plataformas digitais “Looke e Google Play Filmes”, é aproveitar um bom filme em uma época “parca”.

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