O Doutrinador (Idem, 2018) | Crítica

Como é bom ver político corrupto se ferrando, ainda que seja mais na ficção do que na realidade. Os super-heróis e os vilões sempre refletiram a sociedade e a época em que foram criados. Após lotarmos as salas de cinema para vermos Superman, Homem de Ferro, Batman, Homem-Aranha, Mulher-Maravilha, Capitão América e vários outros salvando o mundo lá fora, finalmente temos um representante brasileiro à altura de nossas mazelas e com sangue nos olhos.

Adaptação da bem sucedida HQ homônima de Luciano Cunha, “O Doutrinador” chega aos cinemas após uma conturbada eleição presidencial, cujo efeito prático do resultado só se saberá a partir de 1º de janeiro de 2019. Os primeiros traços do personagem surgiram em 2008, mas foi em 2013 que o autor decidiu publicar os quadrinhos no Facebook, ganhando grande repercussão em junho do mesmo ano devido às manifestações que tomavam conta das ruas do Brasil na época.

A história acompanha Miguel (Kiko Pissolato), um agente federal altamente treinado que acabou de prender o influente governador Sandro Corrêa, vivido por Du Moscovis, sob suspeita de desvio de dinheiro público da saúde. Após uma tragédia pessoal, ele elege a corrupção endêmica brasileira como sua maior inimiga. Agora chamado de o Doutrinador, o mascarado começa a se vingar da elite política em pleno período eleitoral, numa cruzada sem volta.

O roteiro pinta com cores fortes as motivações do protagonista e a canalhice dos seus alvos. Há uma gama de políticos que ocupam as cadeiras da Câmara e do Senado na vida real, além de uma ministra, em uma participação de Marília Gabriela. Longe de querer discutir conceito de justiça ou vingança e ponderar os lados, a intenção é arrancar o mal pela raiz. Apesar de todas as referências, vale mencionar que a trama se desenrola na fictícia Santa Cruz.

O bom trabalho de direção de Gustavo Bonafé, em parceria com Fábio Mendonça, é acompanhado pela fotografia de Rodrigo Carvalho que valoriza pontos conhecidos da cidade de São Paulo, ao mesmo tempo em que lhe dá uma nova atmosfera. O cinema brasileiro continua com suas limitações orçamentárias, principalmente para os efeitos especiais. Isto não quer dizer que a produção não exiba uma ótima qualidade técnica, como o som.

O longa faz parte de um projeto multimídia que se estenderá para uma série de TV. Programada para 2019, ela será exibida pelo canal Space. Talvez por isso algumas interessantes histórias paralelas, como a da geek Nina (Tainá Medina), tenham deixado a desejar. O potencial é enorme e confesso que preferiria ver mais do herói na telona. Há quem vá sentir falta de mais ação e reclamar de sua narrativa. Para mim, trata-se de um projeto louvável.

A estreia de “O Doutrinador” estava inicialmente prevista para setembro, depois mudou para outubro e acabou ficando para novembro. Talvez se tivesse sido lançado em plena campanha eleitoral, ele teria feito parte do debate ou o inflamado ainda mais. Sem eleger nenhum partido ou político como vilão cabe a cada um vestir a carapuça que bem lhe couber. Para o cidadão comum fica o exemplo de que salvador da pátria existe mesmo só na fantasia.

  • Duração: 110 min.
  • Direção: Gustavo Bonafé; Codireção de Fábio Mendonça
  • Roteiro: Mirna Nogueira, LG Bayão, Rodrigo Lages, Denis Nielsen, Guilherme Siman, Gabriel Wainer, Luciano Cunha, Bia Crespo; Baseado na HQ de Luciano Cunha
  • Elenco: Kiko Pissolato, Tainá Medina, Samuel de Assis, Carlos Betão, Tuca Andrada, Marília Gabriela, Natália Lage, Helena Luz, Du Moscovis, Lucy Ramos, Helena Ranaldi, Natallia Rodrigues, Gustavo Vaz, Eduardo Chagas, Ricardo Dantas, Eucir de Souza

Moisés Evan

Formado em Jornalismo, acredito na cartilha de "The Post", e também em Publicidade, mas sem a intenção de fazer "Três Anúncios para Um Crime". Como "Lady Bird", ao alçar voo para outras bandas, cheguei até aqui. Tem horas que o mundo parece nos envolver numa "Trama Fantasma" ou nos colocar numa enrascada como em "Dunkirk". Não vou mudar "O Destino de Uma Nação" escrevendo sobre o que mais amo, mas sempre que eu postar, espero que você "Corra!" para ler e não tenha receio de comentar e/ou discordar. "Me Chame Pelo Seu Nome"? Melhor não. Mas pode ser pôr @sr.lanterninha. Vivo num mundo de sonhos e monstros e um dia hei de descobrir "A Forma da Água" em seu estado mais bruto e belo.

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