outubro 20, 2020

O Escândalo (2019) | Crítica

     Quando as filmagens de O Escândalo iniciaram, todos os holofotes de diversos setores da mídia norte americana se voltaram para a produção, a politica e suas divisões, a indústria televisiva, jornalística, movimentos sociais e, claro, Hollywood. O elenco de peso puxou a responsabilidade para a produção e nas mãos do diretor Jay Roach o resultado foi aquém do esperado, não que a produção seja de baixo nível, mas as escolhas não trouxeram o impacto e a profundidade necessária, fazendo o primeiro ato parecer comedias do tipo que se levam a sério.

     Os dois primeiros atos se perdem muito ao tentar reproduzir algo espetaculoso, sensacionalista, recursos como a quebra da quarta parede, que explicou os bastidores, giros de câmera nesse processo de apresentação, desfocou a trama do tema. Por vários minutos o roteiro insistiu emnão se aprofundar no que realmente interessava, o escândalo de assédio sexual envolvendo uma das maiores emissoras de tv a cabo dos EUA. Os desdobramentos políticos que envolveram a emissora no período da última eleição americana foi um ponto positivo no roteiro, a identificação que existiu entre o perfil do então candidato a presidente com o alto escalão da tv foi algo que trouxe a obra de volta a história que ela se propôs a contar, mesmo de forma tímida. A sensação é que o elenco guiou o diretor na produção, quando na verdade o correto é o caminho inverso. A sensação que fica é que faltou sensibilidade nas escolhas no período de pré-produção, existem historias que precisam das pessoas certas para serem contadas e definitivamente Jay Roach não foi a melhor escolha. Marielle Heller, Sofia Coppola ou até sendo mais ousado e tirando-a da “zona de conforto” (essa é acostumada com porrada e bomba), Kathryn Bigelow, são nomes que trariam a sensibilidade que faltou.

     A trinca que protagoniza esse filme é sensacional, Charlize Theron é Megyn Kelly, personagem que foi o ponto de virada em todo caso. Nicole Kidman é Gretchen Carlson, responsável pela ignição, e Margot Robbie é Kayla Pospisil, uma jovem jornalista que trouxe a tona toda continuidade, todas estão muito bem nos seus papeis, mas o destaque fica para a assustadora transformação de Charlize, sua aparência com a verdadeira Magyn é incrível e parte disso é fruto da própria atriz, ela exigiu a presença do maquiador Kazu Hiro, vencedor do Oscar por “O Destino de Uma Nação”, sua atuação é solida durante todo o tempo, como sempre. Kidman também tem uma transformação notável, mais tímida, porem igualmente satisfatória, sua entrega ao tema, apesar de tudo que foi dito anteriormente, é o que puxa o filme de volta no terceiro ato. Margot é a menos exigida em tempo, mas quando solicitada, a atriz mostra que consegue passear por vários temas e tipos de filme. Quem dá vida ao ex CEO da Fox, Roger Ailes, é John Lithgow, que também recebe um trato incrível na maquiagem. O restante do elenco também é bastante operante e conta com bons nomes.

     O Escândalo é um filme que apresenta um tema profundo e necessário de ser discutido e denunciado, além de ter o real como background, mas que se perde no caminho, chegando na reta final parecendo uma feijoada sem sal, você sabe que é bom, mas faltou um ingrediente determinante. No final, o que fica mais preso na mente é a técnica que o filme apresenta do que a própria história, levando o espectador a recorrer para outros materiais e sentir o que de fato aconteceu ali.

  • O Escandalo
  • Duração: 108 minutos
  • Diretor: Jay Roach
  • Roteiro: Charles Randolph
  • Elenco: Charlize Theron, Margot Robbie, Nicole Kidman, John Lithgow, Kate McKinnon, Connie Britton, Malcolm McDowell, Allison Janney
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