sáb. fev 29th, 2020

O Estranho Mundo de Jack (1993) | Crítica

Bem, vejam só
Eu fiz o meu melhor.
E eu sei que igual a mim
Não há ninguém.


E, mesmo que em vão,
Senti a minha mão
Tocar o céu
E esta história não vão esquecer.
Pela primeira vez


Eu pude me sentir
Cheio de vida
E livre pra decidir.

Jack Skellington (Danny Elfman)/ Trecho da música “Pobre Jack”

A roteirista Caroline Thompson parece escrever para o famoso Tim Burton. O alinhamento dela com as ideias do artista se faz com o trabalho da história de questionar a categorização, usando as medidas clássicas que se permitem serem fantasiadas e customizadas pela direção de Selick, fora o stop motion ser mistificado pelo musical composto por Danny Elfman .

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O teatral aqui nesse filme pertence a essa imaginação de festividades serem planejadas em locais pré determinados, no sentido de construção arquitetônica e funcional de cada cidade. Os personagens criados por Tim possuem uma dramaticidade do além, movimentos sincronizados e a musicalidade como apoio que situa todo o meio. Além disso, pensando nesse espaço vivo, mesmo que visualmente e tematicamente morto, existe nele os portais para os locais de construção da mágica alegre, brilhante e colorida. Interessante que elas são situadas no mundo Halloween, como se fosse a festa que se permite a variação. para a Páscoa, Natal, etc.

Assim a premissa de Burton é muito presente nessa história em que o estranho não só não se encaixa como se permite ser várias coisas. Porém a questão central nessa permissividade é o problema de colocá-la acima de tudo em prol da aceitação de si próprio. O protagonista Jack entra em crise com o Halloween porque deveria se aceitar e para que assim pudesse também se amar e também poder amar. 

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Logo a perosnagem Sally tem seu paralelo de contraponto narrativo com suas visões, sendo oprimida pelo cientista que a criou, na capacidade de se autodestruir e construir, fora a compreensão empática. Ela é o símbolo do amor que a roteirista gosta tanto, como é perceptível no trabalho da escritora no filme “Edwards Mãos de Tesoura”. Ela, Sally, põe a fatalidade diante da crença farsante, emulativa, cega de Jack. Porque em seu projeto há o ego, mesmo que ele vislumbre sua imagem, acredite na simplicidade da recriação do Natal. O resultado é que com os meios imorais, mesmo na convincente inocência na obra de Jack, ainda assim não determina a sua compreensão do que é o entendimento do Natal, muito menos do que é felicidade, já que o filme trata quase de um roubo de festividade, sendo que cada festa tem sua maneira de ser feliz.

Importante comentar de novo a parte teatral porque o diretor Selick se aproveita muito disso para direcionar a fotografia como um passeio, uma montagem fluida seguindo os movimentos de Jack que são muito shakeasperianos, como ele mesmo cita na música. Jack é um personagem único talvez por ser um papel em branco, e por isso sua trama parece tão aceitável, seja no espírito alegre e sorridente como para assustar. E uma característica que o diretor Henry Selick mostra, e expande o que Tim Burton não exercitou muito em sua carreira, é a formulação do susto ou do momento aterrorizante, quebrando o molde autoral de Burton que se concentra no estranho humorado pela esquisitice permeavelmente assustadora. Selick realmente usa o stop motion para assustar no movimento, em que o vilão Bicho Papão em toda a sua desconstrução, em toda a sua presença colorida, no uso de luz negra e no jazz de Danny Elfman consistem um final aterrorizante e nojento. Ao contrário, na mesma forma movimentante Sally acaba por ser amigável, o prefeito ser engraçado e Jack sendo um pouco de tudo.

Não a toa que esse filme cresceu muito ao longo do tempo, não só pela distribuição da Disney que ajuda bastante, mas porque se trata de saber conversar sobre assuntos primários com delicadeza, cabivelmente para crianças, como as três más de máscara que ajudam o Bicho Papão, e as do Natal na cidade que choram, que mostram as caras. Enquanto isso os adultos são a defesa, são as instituições que defendem as festividades, a categorização.

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Não, não é irônico ou hipócrita haver um símbolo de proteção das categorias no filme, é só entender o que Jack tem de epifania talvez na cena tão “Expressionista Alemã” quanto teatral. Quando Jack canta a música “Pobre Jack”, caído do céu nas mãos da senhora de asas, é representado o seio do princípio. É nessa cena que o segredo do “errático” se revela, em que o esqueleto, o estranho em sua capacidade de transformação só realmente se identifica quando entende realmente o por trás da liturgia da festa.

Entre o Natal e o Halloween, a diferença são nas cores, nas músicas e nas faces, mas a inspiração se equipara, cada qual no seu exercício de estranheza na comparação de cada contexto. 

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Vídeo da música “Pobre Jack”
https://www.youtube.com/watch?v=mjMJrzzwCUo
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