outubro 20, 2020

O Grande Truque (2006) | Crítica

Nos minutos iniciais de O Grande Truque, vemos Cutter (personificado por Michael Caine) explicando a uma criança, toda a lógica por trás da mágica, comentando sobre os três atos do espetáculo. O primeiro é denominado de “A promessa”, na qual o mágico mostra algo ordinário a sua platéia. O segundo se chama “A virada”, quando o mágico transforma aquilo que era aparentemente ordinário em extraordinário; nesse momento, procuramos pelo segredo e não encontramos, pois não estamos observando direito e tampouco queremos saber, só almejamos ser enganados. Mas ainda não aplaudimos, já que ainda falta o terceiro ato. A parte mais difícil do espetáculo. Seu nome? O Grande Truque.

Fica nítido que Nolan comenta sobre o próprio filme nessa abertura, mas, além disso, é um diálogo mais importante por enfatizar aquilo que se revela como o centro temático de seu projeto: a arte. Acima de qualquer virtude, The Prestige é um olhar sobre a relação do artista com a arte e da ambição humana em tentar ser melhor. Em ser perfeito ou em outras palavras, arrancar os aplausos da platéia, algo que o realizador enfatiza explicitamente ao posicionar Robert Angier (Hugh Jackman) em uma cena na qual retribui os aplausos do público. O único detalhe é que ele não pode ser visto por eles, se encontrando nos bastidores da apresentação. Um comentário sutil que incorpora a ideia de artistas que nunca recebem os créditos merecidos pela sua arte, quase sempre sendo atribuídas a terceiros,

Inclusive, é interessante ver como o diretor (que assina o roteiro ao lado de Jonathan Nolan, seu irmão, e Christopher Priest) articula um embate histórico na forma como constrói a disputa entre Angier e Alfred Borden (Christian Bale), criando um paralelo direto com os conflitos de Nikola Tesla e Thomas Edison, na qual sabotavam e plagiavam os trabalhos um do outro. Pois é exatamente isso que vemos no compasso narrativo do filme: após um evento traumático na vida de Robert Angier, forma-se uma rixa entre os mágicos que iniciam um longo caminho de tentarem destronar e superar um ao outro. E, claro, esses conflitos trazem diversos males aos personagens que rodeiam ambos e até aos próprios.

Se utilizando desse inteligente paralelo entre o universo do ilusionismo e a arte, Nolan mostra as consequências que o esforço obsessivo de tentar ser “o melhor” ocasiona na vida de um artista, explorando ações repudiáveis de ambos os lados da corda e mostrando que, no fundo, Angier e Borden são semelhantes no que diz respeito a sua dedicação excessiva a aquilo que, em teoria, amam. Também se mostra interessante como Nolan articula uma interessante adaptação da terceira lei de Arthur C. Clarke (“Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”) ao mostrar as invenções de Tesla e como elas se revelavam a frente de seu tempo, algo que causava um forte deslumbre na platéia.

Já estruturalmente falando, embora fluído, o projeto é prejudicado pelo “grande truque” na qual procura articular (o resto do parágrafo contém detalhes sobre o desfecho da trama): A partir do momento em que descobrimos que Angier não tinha sido morto, mas o seu clone, a surpresa perde o impacto por já termos um conhecimento de como a máquina na qual utiliza em seu truque funciona, quebrando o fator surpresa. Já a outra reviravolta na qual descobrimos que Borden tem um irmão gêmeo é igualmente pouco surpreendente, especialmente quando reparamos em um certo personagem e nas suas ações em determinados momentos da produção, se tornando algo óbvio e que resulta em uma contextualização irritantemente didática, na qual Nolan mistura flashbacks com a explicação verborrágica dos eventos.

Porém, excetuando tais problemas, a narrativa flui bem entre as duas linhas temporais (presente e passado), mantendo a atenção de seu público e intercalando fluidamente entre as timelines paralelas, mérito do excelente montador Lee Smith que, organiza os eventos sem jamais confundir o espectador, mas criando complexidades que atraem nossa atenção e foco. Hugh Jackman entrega em Robert Angier um charme galanteador que omite o trauma de sua perda; já Christian Bale dá a Alfred Borden uma personalidade aparentemente “humilde”, mas que oculta alguns segredos, sendo cativante tentar compreender sua persona complexa, bem oferecida pelo intérprete. Michael Caine possuí uma autoridade em sua presença que o torna imponente e David Bowie, mesmo pouco em cena, compõe Nikola Tesla como um sujeito de modos simples e uma postura firme e simpática.

O Grande Truque, mesmo com defeitos consideráveis em sua resolução, encontra na sua análise sobre a relação arte e artista suas maiores virtudes e que sustentam os problemas das suas revelações. Uma obra funcional sobre o preço da dedicação extrema a arte e o deslumbre do espectador com aquilo sem perceber que está sendo enganado. Afinal, é isso na qual a platéia deseja: ser enganada.

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