outubro 24, 2020

O Grito (2020) | Crítica

O terror que tem medo de suas ideias a ponto de afugentá-las para se manter silencioso no cantinho nostálgico que busca a surpresa arrebatadora.

Sem uma aparente identidade, nem mesmo nos decalques que situam as cidades e épocas que a história vai contar, esse novo filme de terror quer se manter antigo por um motivo que até mesmo um espectador de primeira viagem entende que envolve a nostalgia. Uma cena com um DVD e um desktop com o monitor de tubo atrás são tomados como suficientes para o tempo ser uma artimanha estilosa. Tentando-se imaginar alguma lógica interna no universo desse terror para alguma mínima conexão com as limitações da época, elas podem permitir que uma cena com vídeos gravados com “chuvisco” na tela da TV criem um certo suspense. Porém, durante a investigação policial, os dramas familiares e os suspenses quem sabe o diretor e roteirista Nicolas Pesce tenha pensado que o começo dos anos 2000 fosse o suficiente para que uma reciclagem de casos policiais interligados por uma casa se tornasse revigorante.

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A temporalidade no filme se torna importante porque constantemente há um objetivo de explicar assassinatos, que vão aumentando a suposta mitologia do ódio que atormenta espiritualmente uma casa. Talvez o menor dos problemas seja a confusão de compreender como funciona dramaticamente, até porque os sustos teoricamente deveriam sobrepor isso. No entanto o diretor Nicolas envolve a personagem Detetive Muldoon, interpretada por Andrea Riseborough, tanto para comprovar uma certa aleatoriedade nas ações assombrosas quanto para introduzir ares de uma superação conjugal.

Todas as narrativas investigadas pela detetive envolvem casamentos em que a mulher é relevante para a introdução do terror ou para a problematização social sobre o ser feminino em comum. Muldoon como policial investigadora recém-chegada na cidade se encontra fascinada por tantas mortes relacionadas a uma casa, tornando-a vítima por isso. Seu parceiro Goodman, interpretado por Demián Bichir, é o buddy cop cauteloso e que tem alguma fé em toda essa espiritualidade envolvendo a casa, enfatizando ainda mais a perigo para a parceira. Por sinal, fora o terror, existe realmente um momentâneo drama transcendental escrito no roteiro que o ator Frankie Faison atua com palavras que parecem impor uma visão realmente mais familiar a todo o sistema assustador da residência e do filme. Mas infelizmente os planos para esse novo projeto de “O Grito” se baseiam na sugestão descartada como fonte para uma inovação

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O acompanhar desse terror é a experiência frustante explicita de uma montagem que evidencia o rejeitar de um drama, ou engrandece uma conclusão “girl power” encaminhada para que o ciclo do ódio seja mais uma vez transportado para outro lar. Com frases feitas e o exercício do clichê o filme sustenta uma diversão descompromissada, enquanto busca sua identidade em um emaranhado de casos policiais no começo do século 21. Pudesse ser um teste genérico, pois há cenas de slasher e exposição lentíssima de uma tentativa de “jumpscare”. Ou até mesmo Nicolas pensasse sobre um pós ataque a torre gêmeas, já que existe uma viagem do espírito japonês até o subúrbio estadunidense. Mas não.

Diante disso, sobra o silêncio absoluto(ironicamente) depois de tanta trilha sonora comum do gênero. Quem sabe a emoção esvaziada de ter assistido a mais uma reciclagem na tentativa nostálgica de reciclar algo mais fosse o objetivo dessa produção de Sam Raimi, um alerta estranho que diz sobre como franquias da década passada só gritam de novo quando se silenciam de fato. 

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