outubro 20, 2020

O Homem Invisível (2020) | Crítica

Os ecos de um relacionamento abusivo.

Lançado em 1897 pelo escritor britânico H. G. Wells (responsável por clássicos da literatura Sci-Fi como A Guerra dos MundosA Máquina do Tempo e A Ilha do Dr. Moreau), O Homem Invisível trata daquilo que seu título define: a história de um cientista que descobre uma maneira de ficar oculto a olho nu. E, além do seu impacto na cultura popular, houveram inúmeras adaptações cinematográficas, sendo a mais famosa delas lançada em 1933, por James Whale (que, dois anos antes, trouxe o Frankenstein dos livros de Mary Shelley para as telas) e outra menos popular, conduzida por Paul Verhoeven, que estreou em 2000, intitulada de O Homem Sem Sombra (ou The Hollow Man no idioma original). 

E, claro, temos a versão contemporânea, coordenada por Leigh Whannell (que estreou como diretor em 2018, através do ótimo Upgrade) que incorpora a mistura de terror sci-fi e atualiza o projeto não somente na articulação da premissa, mas a níveis temáticos, transformando a invisibilidade em um artifício alegórico. 

Contudo, é necessário exaltar o cuidado que Whannell coordena os elementos de horror durante os dois atos da produção, demonstrando novamente seu fabuloso controle na cadeira de diretor: a atmosfera crescente é incitada pelo realizador logo nos minutos iniciais, onde vemos Cecilia (Elisabeth Moss) ordenando uma fuga do marido que é registrada pela câmera com uma paciência desconcertante, um uso adequado da escuridão em contraste com as breves intervenções da luz e os silêncios para que, nos instantes onde os sons ambientes soam mais altos, o desespero e aflição gritem com mais intensidade e, aí sim, adentra as composições musicais não para criarem suspense, mas com a intenção clara de intensificá-lo aos poucos. E com uma simples cena de fuga, Leigh expressa para o público, todo o clima apreensivo e paranoico na qual seremos imersos pelos próximos 125 minutos. 

Dito isso, a concepção atmosférica de O Homem Invisível é fascinante: sendo construída aos poucos e através de um cuidado minucioso da direção de Whannell, ele inicia com um uso eficiente da câmera subjetiva, não revelando diretamente quem está observando, mas criando uma dinâmica que faz com que a platéia encarne o olhar de Adrian (Oliver Jackson-Cohen) nas situações. Outro recurso que intensifica o medo e paranoia são os inúmeros planos abertos dentro de espaços fechados ou confinados, criando uma noção espacial que nos permite observar as pequenas alterações no ambiente, tornando a presença do sujeito ainda mais enervante, já que a forma na qual Leigh faz para posicioná-lo em cena é realmente funcional na criação do medo, além de empregar outro artifício muito bem usado que são os detalhes cênicos, seja algo caindo ou se movendo sem uma explicação plausível, portas abrindo sozinhas, os sons emitidos pela figura (o design de som se destaca muito nesse departamento), entre outros. Já o deslocamento da câmera é conduzido com suavidade que vai contra a tensão acarretada pela possibilidade dele estar em cena. E a união desses aspectos geram segmentos memoráveis como aquelas situadas na casa dos Lanier durante o ato-central. 

Tecnicamente, é um trabalho admirável, especialmente no uso eficiente da cinematografia, exercendo um belíssimo contraste de luz e sombra nos cenários, especialmente em cenas noturnas, onde a luz entra com menos destaque; já as cores demonstram uma sutileza de Whannell, cobrindo a protagonista com tonalidades acinzentadas de roupa para sugerir a falta de emoção e vida enquanto estava com Adrian e como é uma tarefa difícil abandonar tal realidade, além das cores quentes na casa dos Lanier que serve para simbolizar o conforto que sente naquele local. Mas o destaque está na trilha sonora do Benjamin Wallfisch, conferindo intensidade e enervância as passagens, mas sem nunca incitar tal sentimento, apenas reforçando a aura de tensão que cresce a cada segmento, tudo através de graves bem posicionados para causar desconforto e sugerir a presença do antagonista em cena, algo que se revela funcional no contorno das cenas. 

Escrito pelo próprio Whannell, o roteiro ganha pontos ao traçar um caminho temático importante e diferente, já que transforma sua premissa em uma grande e efetiva alegoria: o “homem invisível” dessa vez não é o destaque ou o protagonista e o centro dramático não reside na loucura iminente do próprio, mas atualiza os contornos narrativos, transformando o sujeito em um antagonista que representa a essência de um relacionamento abusivo e os ecos que tal relação deixa em sua vítima. A figura principal é sua esposa e o drama agora se materializa no desespero de Cecilia e o temor do provável retorno de seu marido, certamente mais ensandecido pelo ódio e violência do que nas últimas vezes.

Contudo, o retorno vem de uma forma completamente atípica, já que agora a moça é incapaz de saber onde o agressor estará. Leigh, usando da fama do terror – e até da ficção científica – em abordar temas reais no âmbito sobrenatural ou fantasioso, o diretor/roteirista articula uma visão alegórica dos efeitos destrutivos de um abusador em sua vítima, mostrando as marcas internas e externas que tal mal pode gerar na figura feminina em tal situação, representando estilisticamente a violência doméstica e o jogo psicológico destrutivo de um narcisista, tudo com perspicácia pela condução do realizador. 

E no centro disso, temos a extraordinária performance de Elisabeth Moss, se revelando cada vez mais como uma das minhas atrizes favoritas: a forma na qual incita seu desespero, cansaço, paranoia, medo, incerteza e até insanidade é deslumbrante; o olhar cansado reflete o pavor de ver sua vida sendo dilacerada pelo ex-marido sendo que, dessa vez, nem ao menos pode contar com uma ajuda externa, se vendo sozinha em tal situação (em mais um exemplo de profundidade temática, afinal, quantas mulheres revelam suas histórias de abuso e são desacreditadas por aqueles ao seu redor?). Já Oliver Jackson-Cohen aparece muito pouco de rosto limpo, mas quando realmente vemos suas expressões, constatamos sua crueldade e sociopatia através de seu olhar intimidador. Os papéis de Aldis Hodge e Storm Reid são mais representativos, já que incitam um refúgio para a protagonista, na qual a mesma tenta alcançar, mas sem muito sucesso. 

Encerrando com um ato-fina mais voltado para o cinema de ação (algo virtuoso para conferir energia ao clímax) e um final surpreendente, O Homem Invisível é uma releitura enervante, acessível e tematicamente profunda do clássico livro de H. G. Wells, se revelando positivamente como uma obra muito funcional no campo do horror, ficção cientifica, ação e alegoria de problemas sociais.

 Leigh Whannell é, certamente, mais um realizador que ficarei ansioso para conferir seus próximos trabalhos.

Avaliação: 5 de 5.
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