O Irlandês (2019) | Crítica

     Filmes de máfia sempre são motivos de grande expectativa, o estilo peculiar, a abordagem, os subtemas, a classe dos personagens, tudo que envolve esse tipo de obra cria uma expectativa quase que obrigatória nos amantes do tema. Em O Irlandês isso não foi diferente, quando anunciado em 2014 sob a direção de Martin Scorsese, a produção já adquiriu um status de mais aguardado do ano, independente do ano que fosse lançado, isso se deve muito ao fato de ter sido planejado desde 2010 e segundo o próprio diretor, o momento certo teria que chegar, principalmente com a escalação do elenco.

     O elenco foi o principal chamariz do filme, os principais nomes são Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci, esses nomes formam uma espécie de triunvirato dos filmes de máfia, Joe Pesci, aliás, estava aposentado e a negociação foi longa para que ele voltasse, vale ressaltar que o elenco de apoio e secundário pode estrelar qualquer filme, tem bons e ótimos nomes participando e contribuindo. Essa foi a primeira vez que o trio atuou junto com o diretor, também foi a primeira vez que Pacino foi dirigido por Martin, diferente de De Niro que trabalha com o diretor pela nona vez, já os atores trabalharam juntos em outras produções e isso deixou o entrosamento perfeito. O quarteto em si já era motivo suficiente para elevar a expectativa da produção, porém o roteiro do filme apresenta uma ótima história. A trama é baseada em fatos reais e tem como base o livro I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt, que conta a história de Frank “O Irlandês” Sheeran, personagem interpretado por De Niro, veterano da segunda guerra mundial acusado de envolvimento com a máfia.

     O roteirista Steven Zaillian apresenta um texto muito preocupado em acompanhar as diferentes fases da narrativa, são quase quatro décadas de envolvimento dos personagens, o roteiro não é linear e por isso vai e vem no tempo até que os fatos se encontram a alinham essa linha do tempo, o inicio tem uma leve quebra da quarta parede que funciona como um convite para a trama, existe um narrador personagem que também conversa com o espectador, essa foi uma boa solução para trazer o publico para dentro do filme, afinal estamos falando de um corte de 3h 19min líquido, é um tempo de duração não muito comum nos filmes atuais. O roteiro transita com muita fluidez, os personagens são bem apresentados, bem desenvolvidos, os personagens de apoio também têm seu momento e sua dose, vários clímax tomam conta a cada transição de ato, o clímax principal, assim posso chamar, é agoniante, principalmente se você não souber muito da história de origem. Esse vai e vem também nos apresentou a tecnologia de-aging que é uma técnica que torna possível rejuvenescer os atores sem a ajuda de pontos de capturas ou roupas especiais, o que ajudou muito o elenco, afinal de contas, são senhores com uma média de 70 anos. Essa técnica ajudou a puxar o orçamento para 175 Milhões de dólares, maior orçamento de Martin Scorsese. O uso de efeitos visuais em algumas cenas e principalmente os esperados efeitos especiais com muita explosão e tiros, também custaram caro, porém perfeitos.

     Como já foi dito antes, esse tipo de filme tem um grande apreço e Scorsese sabe disso. Cuidadosamente a ambientação é construída, ruas, prédios, carros, figurino, visual, sobretudos, muito terno e cabelos penteados com banha, além dos clássicos nomes de mafiosos como Tony, Bruno, Jimmy, apelidos engraçados, tudo está presente, em determinado momento a sensação que temos é que uma grande homenagem está acontecendo, uma homenagem a carreira do diretor que se ‘especializou” nesse tipo de filme e a carreira dos atores principais. Na trama, Joe Pesci é uma espécie de figurão da máfia, um ser onipresente que atua em várias vertentes e funciona como unidade motriz da narrativa. Sua atuação é inquestionável, esse tipo de personagem é familiar para o ator e pareceu que o tom não foi muito difícil de ser encontrado, toda serenidade e cadência pareceu algo que só o Pesci poderia fazer, não me estranharia se a indicação de ator coadjuvante surgisse. Pacino traz um personagem icônico nos EUA, o líder sindical Jimmy Hoffa é protagonista de um dos maiores mistérios na guerra das máfias, seu assassinato nunca foi solucionado e seu corpo nunca foi encontrado, a atuação do veterano é a melhor dos seus últimos trabalhos. Seu estilo estourado, seu olhar fixo e distante ao mesmo tempo, a voz imponente e desafiadora, a ironia e o sarcasmo, tudo que Pacino pode oferecer, ao longo dos seus 79 anos, está aqui, uma indicação a ator coadjuvante também não é algo de se entranhar, caso venha. Fechando a trinca tem um Robert De Niro totalmente entregue e que com certeza irá deixar de lado aquela reinvindicação de uma indicação ao Oscar, pois se a academia não o indicar, será uma das maiores injustiças do ano, sua atuação é espetacular.

     O Irlandês é um filme que merece ser visto por vários motivos e que tem quase tudo ao seu favor, se você procurar vai encontrar alguns erros, pequenos, de continuidade, de roteiro, mas é tudo tão pequeno que não cabe o investimento nisso diante da grandiosidade da produção. Contra o filme o que pesa mais é o tempo, principalmente no conforto do lar, o maior vilão aqui será o celular, vai ser difícil deixar de lado ao longo de quase 3h 30min de duração, fora isso tudo é exagero, deixe o celular de lado e tudo ficará bem. Por fim, é uma trama que fala sobre amizade, traição, lealdade, sobre legado, família, relacionamentos, é uma justa despedida, caso se confirme, dessa velha guarda da máfia, que começou décadas atrás e agora diz ser sua última investida.

%d blogueiros gostam disto: