O Menino Que Descobriu o Vento (2019) | Crítica

      Baseado no livro The Boy Who Harnessed The Wind, de William Kamkwamba e Bryan Mealer, o filme narra a história do jovem William, interpretado por Maxwell Simba, que vive em um pequeno vilarejo na África e busca ajudar seu povo com as mais adversas situações, excesso de chuva, seca, fome, a falta de esperança e a própria esperança. A produção marca a estreia de Chiwetel Ejiofor na direção, ele também assina o roteiro e atua, o elenco ainda tem a talentosa Aissa Maiga e o eterno Joseph Marcell. Antes de tudo, é importante dizer que O Menino Que Descobriu o Vento é um filme baseado em fatos reais e extremamente presente nas sociedades, mudando apenas o seu cenário.

     Contar uma história real sempre foi algo presente no cinema, grandes exemplos provam isso e muitas vezes o próprio contexto já puxa o espectador pra dentro da trama, em alguns casos o próprio fato é maior que a produção e é nesse ponto que se discute esse tipo de adaptação, afinal o mais importante é a produção ou a historia que está sendo contada? Até que ponto é possível relevar alguns fatores para buscar um equilíbrio? São coisas que precisam ser pensadas para que sua experiência não diminua ou se transforme em algo genérico. A Netflix vem apostando em diretores iniciantes, atores que decidem dar esse passo estão se sentindo acolhidos pela gigante do streaming e aqui a coisa não é diferente, Ejiofor se sentiu acolhido quando apresentou seu projeto. A direção é segura e correta, linear, sem grandes oscilações, me arrisco a dizer que essa foi uma das melhores estreias na cadeira do chefe. O diretor muitas vezes opta pelo simples, o estilo de filmagem também deixa tudo mais bonito, planos abertos mostra a beleza e a hostilidade do lugar, o sol se põe ardente e a sensação térmica é sentida diante dos olhos, a câmera usada de forma fixa é sempre um brinde, os atores entram e saem do plano sem que a câmera se movimente, a cena se desenvolve diante dos seus olhos e tudo que você precisa fazer é observar o que a cena diz e o que o cenário diz, formando um contraponto que completa tudo.

     A trama se desenvolve com bastante cautela, a cadência é proposital e convidativa, o objetivo não é apenas contar uma história, é passar uma mensagem sobre uma realidade bastante presente hodiernamente. Os personagens revezam-se entre essa mensagem, discursos são aproveitados para fixar melhor o que precisa ser dito, como também distração gratuita para entorpecer o povo, mérito do roteiro. O texto, também escrito pelo diretor, é bom, porem todo esse background pedia mais, esse tipo de filme grita nos nossos ouvidos, você se identifica, se solidariza, reflete e a falta de “porrada” diminui um pouco isso, entenda, não é apelar para violência visual ou verbalizada, é rebuscar de forma mais crítica tudo aquilo que está sendo mostrado, a sensação é que uma espécie de limite foi imposta ao diretor e talvez em futuros projetos o veremos mais “solto”.

     A direção de elenco é mais um ponto positivo no filme, cada ator parece saber exatamente o que precisa fazer. Aissa Maiga é a mais expressiva, todas as dores e sofrimento que a personagem passou pareceu ter sido captado com perfeição e repassado para a câmera, segura e precisa. Chiwetel Ejiofor mais uma vez manda muito bem, ele é um bom ator e nas principais cenas, todo peso do drama de seu personagem ganha vida novamente, seu semblante sempre em agonia e desespero traz uma inquietação para quem assiste aquilo e mesmo sendo repetitivo, não soa cansativo, rapidamente recordamos que aquilo é real e a empatia surge quase que de imediato. Maxwell Simba está bem, mas sua atuação não é memorável, talvez o hype venha da própria história, você torce por ele o filme todo, você acredita, se envolve e compartilha os seus questionamentos e seu desejo por uma melhora, a humanidade dele também é muito bonita, mesmo vindo dos piores cenários.

     Por fim, vale ressaltar a importância desse tipo de filme, pois é no entretenimento que muitas vezes enxergamos aquilo que vem se perdendo no nosso “mundo real” e O Menino Que Descobriu O Vento é uma amostra que tem muita gente por aí que ainda é capaz de mudar as coisas, para melhor.

  • O Menino Que Descobriu O Vento
  • Duração: 113 minutos
  • Diretor: Chiwetel Ejiofor
  • Roteiro: Chiwetel Ejiofor
  • Elenco: Chiwetel Ejiofor, Aissa Maiga, Maxwell Simba, Joseph Marcell
%d blogueiros gostam disto: