outubro 25, 2020

O Milagre na Cela 7 | Crítica

Quando do fato histórico moral de um país, remete a uma lembrança de salvação humana, o realismo não serve apenas como porta de entrada nesse filme, mas como artimanha para justificar a magia emocional que repetidamente tenta transformar a realidade.

O cinema se baseia na manipulação, e mesmo que um filme se assuma manipulativo, é porque sua forma de contar a história é superficial em tornar seu universo criado. Talvez assumir não seja o problema em si, seja a maneira como assume isso. Porque assumir a manipulação pode ser uma porta para comentar sobre a transformação da realidade, entre várias outras possibilidades que a arte escolhe para transmitir algo. Mesmo que a imposição comovente da imagem possa fragilizar, ou reduzir a capacidade de subjetividade que a câmera ligada pode criar, ainda assim é uma maneira de moldar uma história. O problema mesmo em “Milagre na Cela 7” é abusar do realismo para criar manipulação, e não modificar de fato a realidade já frágil e desfeita pelo contexto dramático, como as ovelhas que o protagonista cuida, mas que o exercício dele ser pastor mostrado no filme serve menos como metáfora, e mais como utilidade para uma cena sensível posterior.

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Diante do princípio de uma mudança histórica sobre a pena de morte na Turquia, uma memória é trazida à tona no filme, abrindo margem para que o final seja imaginado baseado na narrativa de lembrança. Porém quando se é conveniente, o diretor usa o realismo gráfico da violência, do contexto político e do enrijecimento militar numa maneira lógica para preservar possibilidades gerais de comoção, ou simplesmente omite-se algo linear de ações para que se possibilite mais um momento emotivo. Acaba que o filme se rearranja como um jogo de erro e acerto com qual cena o diretor vai conseguir fisgar emocionalmente o espectador até o fim da história que já se conhece.

Entretanto, mesmo que haja uma preocupação muito grande do diretor em tornar seu protagonista Memo um possibilitador de situações adversas plausíveis drasticamente – que vai justapondo situações adversas aos montes e sem muita explicação racional que se questione -, tal foco da direção ativa efetivamente, com base na atuação empolgada do ator, o drama de momentos. A linguagem do filme é essa. Há um abraço de um tom novelesco e exagerado que sempre dispõe êxtase possível, soando até surrealista na noção que a comunicação da criança Ova, filha de Memo, vai tratando com o pai e sua realidade. Isso em si é uma manipulação de um diretor bem resolvido com suas escolhas de ângulos simples e aparentemente óbvios de câmera, mas que registram o suficiente para que a montagem favorável e uma trilha ardente em aparecer torne a experiência em prantos.

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Como qualquer experiência com uma obra artística, existe a possibilidade emotiva implantada no processo. Mas isso não justifica certa deslealdade que a obra turca articule constantemente o ponto realista de impacto com um relato de um desertor, um prisioneiro misterioso e uma cela de prisioneiros convenientemente passíveis de aprender empatia paterna com um homem de natureza infantil. Pois quando o filme exercita a imposição de ações dramáticas, – como para que um crime seja sugerido por outros personagens, menos para o espectador, levando ao ponto crítico de uma conclusão de pena de morte pela gravidade do suposto crime -, existe uma carga grande de sujeição que o diretor coloca para a crença de quem assiste, dificultando maneiras naturais e realistas de conformidade serem acrescentadas ainda mais. Por isso que há uma frontalidade maior da manipulação que precisa suprir qualquer possibilidade de descrença nas sequências da narrativa, criando uma provável discórdia em quem enxerga os furos realistas na trama que busca o auge transformante pela crença no ideal da humanidade.

Logo, a discussão fica muito sobre o pecado da manipulação e como ela funciona com uns e com outros, sendo que é o jeito como a manipulação é feita que vai tornando toda a mensagem incoerente, de que a linguagem infantil, das várias crianças modificantes da realidade, não alteram de fato o universo do filme, pois o universo já está alterado. O engano “maldoso” e imperceptível do diretor é criar emoção em cima da moldagem que não acontece, só reafirmando momentos que vão justificando novas formas, ou um filme todo, que tem pode de fato de fazer alguém chorar.

Nisa Sofiya Aksongur | Bild 1 von 5 | Moviepilot.de

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