outubro 25, 2020

O Mistério de Silver Lake (2018) | Crítica

O que é a arte, em sua forma mais pura? E o que ela representa dentro da geração contemporânea? Como ela processa uma obra artística? E por que ela procura sempre um significado maior sobre ela? Pensando nessas questões, uma das cenas mais emblemáticas de Under the Silver Lake, segundo filme do diretor David Robert Mitchell, é aquela na qual vemos o protagonista Sam (Andrew Garfield) admirando um quadro ao lado de Millicent (Callie Hernandez) quando a moça comenta sobre a beleza daquela pintura. E apenas sobre isso relacionado a ela. Muitas vezes vemos a necessidade de elaborar e “caçar” significados ocultos na cultura pop (cinema, livros, HQs, séries, games, etc), mas será que esse exercício faz com que venhamos a admirar a beleza daquilo que consumimos? De certo modo, é essa a intenção durante as duas horas de projeção, que levam o espectador por uma viagem surrealista com toques de David Lynch e Thomas Pynchon, refletindo no processo sobre arte, entretenimento e a fuga do ordinário através do extraordinário.

Primeiramente, é curioso como o projeto constrói toda a viagem alucinante com ecos de Cidade dos Sonhos (2001) e Vício Inerente (2014) como uma espécie de escape da mediocridade de seu protagonista: Sam é um jovem maconheiro e vagabundo que passa os dias olhando sua vizinha excêntrica e seminua, além de stalkear as mulheres de seu condomínio, jamais tendo construído algo propriamente importante em sua vida e representando perfeitamente o olhar pessimista do “american dream”, especialmente pelo fato de viver em Los Angeles, uma cidade que carrega essa essência de admiração e a força dos sonhos – servindo como um palco curioso para Mitchell estabelecer as próximas temáticas que articula. Após mostrar a vida que Sam leva, o diretor procura agora representar a sua tentativa de fugir do ordinário na qual se encontra quando ele conhece a bela Sarah (Riley Keough) e se encanta pela moça de imediato, algo que se revela problemático quando ela desaparece em uma noite e ele se prende a uma investigação para saber de seu paradeiro.

Nesse sentido, Sarah pode ser – e é, até certo ponto – uma personagem real ou uma mera criação da mente de Sam, uma fuga da futilidade da vida na qual leva em uma viagem completamente surrealista que vai de conspirações governamentais, mensagens subliminares em discos e objetos mundanos, códigos, significados, um assassino de cães, festas excêntricas e personagens atípicos. Uma jornada movida por estímulos que, além de representar essa fuga através do surreal que Sam teria criado em seu imaginário, funciona como uma forte análise da geração atual e a forma como consome arte e entretenimento, em uma busca desesperada por símbolos que guiem a algum ponto que seja lógico ou que represente algo mais expansivo. Será que tudo é superficial ou existe algo maior?

Claro que, isso não é um olhar negativo e totalmente condenador de Mitchell sobre analisar e encontrar um significado na arte, mas é um estudo do realizador sobre a nossa busca desenfreada por um significado nela. Por códigos que levem a algo racional e que não seja raso. Toda a jornada de Sam pelas ruas de Los Angeles está fundamentado nesse elemento, já que seu protagonista procura por significados ocultos que o levem a afirmações lógicas para as respostas que faz. Sam acredita que faz parte de algo muito maior e que existe alguma coisa grandiosa acontecendo enquanto leva sua vivência ordinária de maconheiro sem destino. Dentro dessa lógica, o protagonista é o reflexo perfeito de uma geração que, não somente procura uma representação simbólica maior na arte e no entretenimento, mas em seu cotidiano. E nesse aspecto que entra a conspiração do personagem a medida que percebe algo de atípico ocorrendo ao seu redor e começa a “ligar as pontas” em busca de uma resposta válida.

Sam se encontra tão desesperado por respostas que reiterem algo muito maior do que ele vive que, a partir desse ponto, ele começa a ver significados em todos os lugares de Los Angeles, levando o protagonista a insanidade e paranoia completa. Tanto é que a busca por Sarah acaba por ser um mero artifício para que ele tente entender tudo que está ao seu redor. Então, como ficou visível, a base de Under the Silver Lake é um ácido comentário sobre a geração atual e as formas como consome cinema, música, livros, séries, quadrinhos e outros, procurando uma razão para serem de tal modo – e que justifiquem a sua existência – mas, em boa parte das vezes, esquecendo de admirar a beleza que existe naquilo. Nesse sentido, Sam não está distante de Light Turner, de Death Note (2017), cuja personalidade reforçava uma análise dos comportamentos afetados e patéticos de uma adolescência repleta de uma auto-importância – em síntese, um comentário sobre a geração do século XXI.

Aqui, diferente do filme de Wingard, é um olhar sobre essa relação que a geração contemporânea possui com a arte, onde procura, de modo automático, simbolismos que a impedem de ser rasa e esquecem completamente de olhar a beleza daquilo que estão consumindo. Esquecem que o sentimento de consumir um filme, um livro ou uma música e focam apenas na experiência pragmática, esquecendo do equilíbrio e caindo para um dos lados. E por isso que um dos momentos onde Mitchell mais mostra algo perto da felicidade do protagonista é aquele que o vemos dançar em uma festa, onde ele ignora um pouco sua busca por uma resposta lógica e significados objetivos em sua investigação e se permite desfrutar daquele momento. A arte pode – e deve – ter significados maiores, mas nem por isso eles devem ser a única virtude que ela carrega. As vezes, só a experiência e o sentimento que ela causa é algo positivo. Você pode até encontrar um sentido maior posteriormente, mas jamais rejeitar a sensação que ela irá passar.

E então volto a ideia do surrealismo como uma fuga: Sam pode não ter recebido uma recompensa prazerosa quando encontrou suas respostas que supriam o enigma na qual tinha criado, mas a jornada em si foi mais importante do que a descoberta final. Ele conheceu lugares, pessoas e estilos diferentes em sua viagem alucinante pelas entranhas de Los Angeles e, mesmo sem perceber, foi uma aventura mais interessante do que a descoberta que leva a ela. Tudo que houve de surreal em sua trajetória durante 2h de filme foi uma fuga, um escape da realidade ordinária na qual vivia e voltou a ter assim que tudo se encerrou.

E não existe fuga maior – e mais gratificante – da nossa realidade do que através da arte e do entretenimento.

Avaliação: 4 de 5.
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