outubro 20, 2020

O Poço (2020) | Crítica

     Se existe uma mistura no setor audiovisual que deu muito certo, essa mistura é a Netflix e as produções espanholas (não vamos entrar no mérito se é Espanhol, Basco ou Catalão). A proximidade que derivou da convivência com os filmes e séries da gigante do streaming despertou um radar que soa vorazmente quando algo como “Buenos dias”, “hola” ou “hijo de puta” sai de algum trailer, a bola da vez é “obvio” e consigo vem o mais novo original Netflix, O Poço. Faz tempo que a Netflix aposta em diretores estreantes, alguns são estrelas do cinema, como é o caso da Brie Larson, outros são desconhecidos do público geral, como é o caso do Galder Gaztelu-Urrutia, diretor do longa. Urritia tem no seu currículo dois bons curtas-metragens, 913 (2004) e A Casa do Lago (2011).

     O original ainda faz muita falta no cinema, mas é preciso assumir que quando um filme sai no momento certo, abordando a linguagem correta para o momento e causando as reflexões necessárias, mesmo que, talvez, ele não tenha sido pensado dessa forma, a força da expressão “estar no lugar certo e na hora certa” nunca foi tão evidente. Antes de entrar no que a produção tem melhor, cabe ressaltar que algumas coisas não estão tão bem quanto deveriam, mas confesso que isso talvez não importe, pois umas das principais funções da arte, independente de qual for, é chocar, impactar, causar reflexão e fazer com que o publico ultrapasse a barreira do, aqui, cinema, no caso TV, e desenvolva o debate. A falta de experiência em longas e o costume com curtas provavelmente orientou o diretor por um caminho que se tornou curto de verdade, a distribuição e a gestão do tempo deixaram a montagem com a sensação de concluída antes dos 94 min e aí uma costura foi feita para que o filme atingisse o tempo do projeto, essa sensação vem do início, meio e fim na sua primeira hora; o que não atrapalha o desempenho do longa em sua missão, a mensagem. Se a montagem causa esse desvio de atenção durante o enredo, o design de produção é um fator técnico que diretamente ou indiretamente puxa todas as atenções de volta, toda composição criada dentro de um ambiente milimetricamente calculado, por partes iguais, cortes iguais, cores que quando surgem ficam em evidência e uma verticalização horrenda, é o cenário imaginário para se dialogar sobre o que menos se espera, convivência social.

    Nesse ponto o diretor mostra saber o que realmente quer e nos convida a fazer parte daquilo através das suas reflexões. Nas mãos dos roteiristas David Desola e Pedro Rivero temos um texto que de forma excepcional põe em xeque alguns dilemas e paradigmas sociais. Acompanhamos Goreng, vivido por Ivan Massagué, que decide se voluntariar em uma prisão para abandonar o vício do cigarro, o que é pouco falado depois e serve apenas para o subentendimento que todos ali, ou a maioria, parece estar tentando se livrar de algo, o foco maior do roteiro é a exploração das situações que aquele ambiente vazio gera nas pessoas e com esse objetivo a proposta segue adiante. O combustível do filme é a plataforma que sobe e desce todos os dias pelas centenas de andares, levando comida para os que ocupam, ou pelo menos o que sobra dela, pois quem está nos níveis de cima come o que quer e como quer, enquanto os demais, abaixo, vão ficando com as sobras, até que os demais não ficam com nada e precisam se “virar” para comer. É a partir daí que o protagonista inicia seus questionamentos sobre aquele sistema, não por acaso ele carrega um livro, enquanto outros carregam facas, cordas, animais, com quem dividem sua alimentação, além de outros objetos que tem sua própria metáfora. É aqui que o filme cresce absurdamente, muito pelo momento falei anteriormente, o exagero visual também choca bastante, muito sangue, muito gore e canibalismo, é uma combinação perfeita entre o que precisa ser dito e o que tem que ser mostrado quando se coloca situações extremas diante das pessoas. A importância do compartilhamento social, seja de recursos, de ideias e cultura, o livro está lá para isso, se faz extremamente necessário nos dias atuais e quase que imitando a vida, a arte apresenta essa necessidade e essa é a verdadeira mensagem do filme, que se divide em mostrar através das metáforas em si, das alegorias e do escalonamento social, de cima para baixo, mostrando que o caos existe até em quem prepara o banquete, pois não se pensa em todos, apenas em quem comerá primeiro, mesmo que você seja iludido no que será servido.

     Tudo isso é possível graças a entrega do elenco em deixar palpável a ideia, que soa como crítica social, mas que está mais para uma autocrítica, pois é no protagonista que se enxerga as idas e vindas do comportamento humano; a luta inicial contra o sistema que existe, a necessidade de adaptar-se, de agir como o ambiente e de fazer o caminho inverso depois, de descer do topo da cadeia para depois subir de forma revigorada em forma de esperança para que todos tenham as mesmas condições e oportunidades. O Poço tem no seu “oportunismo” de momento, a importância de mostrar as pessoas a necessidade do reaprendizado, de ser empático e altruísta, sem se descambar para a política, mas se jogando de cara em um momento onde as pessoas precisam ser mais humanas, mais solidarias umas com as outras e, principalmente, mais tolerantes e respeitosas, em todos os sentidos. Se você achou que não entendeu o final, não se preocupe, ele não é para entender, é para refletir e pensar se a melhoria tão esperada está numa criança? Se a esperança figura na inocência? Se faz parte do imaginário e basta você querer que aconteça para que assim seja ou simplesmente é alimentando todos que o problema se resolve? Escolha alguma ou pense na sua, não escolha sistema, escolha pessoas.

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