outubro 22, 2020

O Resgate (2020) | Crítica

     Quem nasceu nos anos 80 cresceu com um estímulo muito forte para os filmes de ação, por influência dos pais, da tendência na indústria, da grade televisiva, do investimento nas locadoras, tudo conspirava a favor do termo ainda inexistente “tiro, porrada e bomba”, era inegável a felicidade em ver os filmes com astros do gênero. Atualmente as produções estão bem restritas quando se busca alguma qualidade ou algum componente que atraia todas as atenções e transforme o filme, de fato, bom; existem exemplos, evidente, mas com o número produzido, o resultado deveria ser melhor. Isso conspirou para um sentimento de vazio no coração dos fãs desse icônico gênero e quando nos deparamos com uma boa produção, o coração bate forte de felicidade, essa é a verdade! Quem não vibrou com John Wick? Filme de ação pode ser chiquérrimo sim, basta que o cinema feito use tudo de bom ao seu favor.

     O Resgate é uma adaptação da HQ Ciudad, escrita por Ande Parks e os irmãos Russo e é um projeto de longas datas. Antes de ser lançada, a intenção de levar para o cinema já existia, mas muitas coisas mudaram desde então. A história narra uma missão de um mercenário do mercado negro que tem como objetivo resgatar a filha de um traficante da américa do sul, isso na HQ; ao iniciar o projeto, em 2012, o protagonismo seria do astro The Rock e a direção e elenco era completamente diferente, porém tudo mudou, quem assumiu o protagonismo foi Chris Hemsworth, outra coisa também foi a ambientação, trocando a américa do sul pela índia e Tailândia. Quem assumiu a cadeira de direção foi o novato Sam Hargrave, quem tem uma longa carreira como dublê em Hollywood e atuou como dublê e coordenador de dublês no Universo Cinematográfico da Marvel, esses nomes geraram uma grande expectativa e o resultado no poderia ser outro, um ótimo filme de ação.

     O cinema quando é feito com paixão e por quem entende é outro nível, não que os outros não saibam, mas sendo específico aqui, me refiro ao que o filme se propõe, a ação. o roteiro é simples e comum, o protagonista que é quase um exército, traumatizado e geralmente beberrão, saindo para uma missão que pode ser a última; existem muitos filmes com essa premissa e é normal até certo ponto, o que vai diferenciar é como será apresentado e desenvolvido, como os aspectos serão abordados, a relação entre o resgatador e o resgatado é um exemplo disso, e como a ambientação será construída. Posso cravar que a escolha por um diretor (mesmo que novato na cadeira) experiente no que é ação de verdade nas lentes, foi o maior acerto desse filme, sem dúvida. O realismo apresentado impressiona desde os primeiros minutos, não demora muito para que o diretor coloque a câmera na mão e saia acompanhando tudo, a sua experiência ajuda a se colocar no ponto certo do take, no giro exato. Ao optar por menos dublês em cena, a aproximação do público também foi maior, o protagonista está presente em muitas cenas que geralmente o rosto ficaria escondido, o estilo de filmagem também merece destaque. Hargrave usa de várias técnicas para encorpar seu filme, a câmera na mão já citada é usada em vários momentos para trazer esse realismo, com certeza o diretor deitou-se, se ajoelhou e se levantou correndo para acompanhar tudo que queria captar, o cenário denso de uma cidade indiana com aquelas ruas apertadas, cheias de gente, carros, caixas, animais e tudo que puder ser colocado ali, contribuiu muito para o ritmo frenético e agoniante. Existe um plano sequência excelente, uma outra sequencia que parece uma “cutscene” de vídeo game; a câmera pega a ação de frente, vira para o lado, sobe, gira, balança, uma porta se abre, mostra a ação do personagem (engatando uma marcha), gira novamente no olhar, vira para frente e dá continuidade, é sensacional.

     As cenas de ação com combate corporal são de alto nível também, tudo é orgânico e por mais que você busque algum defeito é difícil de encontrar, novamente, a câmera trabalha bem nos movimentos e de tudo acontece, luta com faca, tiros com diferentes armas, sequencias de neutralização que deixa tudo mais plástico, tiro no pé, no corpo, na cabeça, gira a arma para melhor posicionamento do corpo, troca o tipo de arma, volta pra faca, vai pra mão… ufa!!! É realmente frenético. Não consegui imaginar esse filme na américa, as locações contribuem muito pela geografia e pelo perfil, a sensação de lotação a todo momento causa um efeito claustrofóbico e o filtro amarelado causa uma mistura que aquece tudo, aquele lugar parece um inferno de quente. Em vários momentos eu me peguei fazendo comparações com John Wick, pela plasticidade, ignorância e ao mesmo tempo, a sutileza em se preocupar com os detalhes para deixar tudo perfeito aos olhos do espectador.

      O elenco é bem enxuto e obviamente é puxado pelo seu astro maior, Hemsworth é um ator que já se mostrou bastante versátil, inclusive em comédias. Aqui ele está muito bem e cravou seu protagonismo fora do MCU, não me espanta se ele deixar de ser Thor, para alguns, e se tornar o “cara do resgate”, o comprometimento com a produção trouxe um excelente resultado. David Harbour é outro nome conhecido para o público geral, mas seu personagem é muito tímido na produção e não tem destaque. Por outro lado, quem merece um destaque maior é Randeep Hooda, que faz o guarda costa do sequestrado. Hooda é muito conhecido no cenário hindu e trouxe um comprometimento igual ao do protagonista, a maioria das melhores cenas envolve seu personagem e, como falei, o resultado é muito bom. O restante do elenco segue um padrão de atuação bem definido que não compromete em nada, não tem ninguém que você diga “esse ator é ruim demais”, apesar de ter um tom caricato demais em alguns. Eu entendo que se deu por conta do estilo indiano, muitos atores trabalham no cinema hindu e tem suas próprias características, a falta de costume em ver filmes de Bollywood cria uma certa barreira visual, recomendo, inclusive, uma atenção a essa indústria, que assim como qualquer outra, tem seus erros e acertos.

     O Resgate é um filme que chega para preencher uma lacuna e marca, finalmente, um acerto da Netflix em produções com ares de blockbuster, afastando da mente, por exemplo, Esquadrão 6. É uma ótima pedida para os dias atuais e vale muito a pena aumentar, principalmente se você faz parte da geração que se divertiu muito com os trogloditas oitentistas. Chama atenção pelo já elogiado trabalho do diretor que, assim como Chad Stahelski, entra no radar. No final do filme só me restou um sorriso porque o ar já tinha ido embora.

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