outubro 25, 2020

Os Miseráveis (2019) | Crítica

Durante toda a duração do francês Os Miseráveis, foi difícil não lembrar de Sicario – Terra de Nínguem: mesmo que sejam completamente distintos em sua premissa, ambos se igualam ao posicionar um protagonista moralmente equilibrado sendo instigado a ir contra os seus valores devido ao mundo que lhe cerca. E se no projeto de Denis Villeneuve e Taylor Sheridan, Kate lidava com militares e sua visão pouco empática do mundo, Stéphane (Damien Bonnard) confronta os companheiros policiais Gwada (Djibril Zonga) e Chris (Alexis Manenti) sobre os métodos mais impulsivos em revidar a violência e niilismo que os cercam com as mesmas armas. 

Aliás, é curioso como o diretor Ladj Ly (que assina o roteiro ao lado de Alexis Manenti e Giordano Gederlini) imprime isso através do constante desconforto de Stéphane com certas ações dos colegas de trabalho, algo registrado nas constantes rixas discretas com o impulsivo Chris que, claramente um péssimo exemplo de conduta policial, é responsável por muitas das decisões inadequadas que são registradas pela narrativa. Esse incomodo recorrente do protagonista entra em choque com aquilo que ele considera moralmente correto, criando um arco complexo e interessante, tal como aquele que Emily Blunt expressava no trabalho de Villeneuve. E, claro, Bonnard entrega uma competência ao transmitir em pequenos gestos e reações, a indignação de seu personagem. 

Já Alexis Manenti imprime com intensidade toda a aura pouco racional ou moral de seu personagem, fazendo com que venhamos a repudiar as ações de Chris em momentos distintos. Djibril Zonga, por outro lado, expressa o arrependimento devido a certa ação que comete, mostrando uma humanidade pouco explorada até esse instante e que o ator entrega bem o desespero de um erro e como ele afeta um homem tão profundamente – e destaque para Issa Perica que esboça uma sensibilidade no que diz respeito a maneira clandestina na qual vive.

A estrutura narrativa não procura criar uma linha direta em sua premissa, mostrando diversos acontecimentos simultâneos com o trio de policiais. Mas a trama aqui é um artifício para que os roteiristas explorem a vasta capacidade temática que possuem em mãos. Em síntese, é um retrato doloroso, amargo e – infelizmente – realista dos problemas sociais e atuais em nossa organização urbana. Um dos centrais é o preconceito racial que o texto descreve com muita sutileza, exemplificado em um breve momento dentro de uma lanchonete com o policial Chris onde tem seu racismo é confrontado quando a mise-en-scène posiciona-o ao redor de diversos negros que o encaram continuamente. Já em outra cena envolvendo o mesmo personagem, observamos o abuso autoritário vindo da força policial quando Chris demonstra uma clara tendência sexualmente abusiva ao colocá-lo tentando revistar uma jovem pela mesma estar fumando. 

Mas, um dos mais impactantes está na maneira como Ladj Ly imprime que a violência é sempre a primeira opção como resolução de certos problemas, evidenciando a tendência autodestrutiva do ser humano e os esforços falhos de se render a ela como a maneira mais fácil de transmitir respeito através do medo oferecido por atos de agressividade. Por isso que o tom narrativo é notoriamente pesado, angustiante e pouco acessível por jamais evitar os problemas sociais, evidenciando-os de uma forma explícita, especialmente nos minutos finais onde testemunhamos um exemplar de como confrontar tal desigualdade com brutalidade traz sérias consequências a construção da sociedade em que vivemos.

Em tal abordagem, era necessário uma dose de realismo em sua estética, algo que o diretor compreende e insere com perfeição: a dinâmica de câmera intercala entre momentos estáveis onde percebe-se um controle dos movimentos e outros na qual vemos um desequilíbrio ao empregar a shake-in-cam e deslocamentos rápidos que imprimem uma estilização documental, algo reforçado pelos zooms, como se todo o cotidiano daqueles personagens fossem observados através de uma janela. Já a Montagem utiliza cortes secos que refletem a atmosfera desesperançosa e amarga proposta pela obra. 

Fechando de maneira reflexiva ao mostrar que ainda existe esperança, Os Miseráveis é um olhar forte e fidedigno da sociedade e a incapacidade humana de enxergar o próximo com igualdade. E nesse sentido, o título inspirado no livro de Victor Hugo se justifica, já que, no final, todos somos miseráveis em uma realidade que tampouco aparenta mudar. 

E, como dizia o próprio Hugo em seu clássico romance, não existem plantas más ou homens maus, mas sim, maus cultivadores.

Avaliação: 4 de 5.
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