Para Ter Onde Ir (2016) | Crítica

Este não é um filme delicado. No universo feminino, amazônico e sensorial de Jorane Castro, o percurso de uma trindade de personagens mulheres conflui em um mergulho nas suas fragilidades. Eva, Melina e Keith são as protagonistas de uma história centrada numa busca por sentido e compreensão. Carentes de homens – sejam eles conhecidos, expurgados ou estranhos à elas -, as mulheres saem da cidade para um recanto praiano onde (pretensamente?) pretendem se encontrar. Um destino que também é um princípio. Essa é a premissa de “Para Ter Onde Ir” que empresta o título de um livro do poeta paraense Max Martins (ele um apaixonado pelas águas e praias de rio amazônicas, pelo bucolismo) para tratar de mulheres em movimentos transformadores. Elas desaguam – não à toa o arco dramático da trama se locupleta na água -, se transmuta de dentro pra fora num compartilhamento silencioso (uma espécie de sororidade) de cumplicidades. Não compreendemos de cara qual é o vínculo de Eva com a manicure e diva de aparelhagem sonora Keith, por mais que elas pareçam ser patroa e empregada. Quanto à relação da engenheira com a volúvel Melina (que assim é construída, carecendo de mais substância para ir além do arquétipo de mulher sensualizada), a princípio elas parecem em uma relação amorosa mas revela-se que ambas abraçam a heteronormatividade.
Em seu arcabouço estético, das imagens e desenho de som, de tudo que está posto na tela, Para Ter Onde Ir representa uma autêntica experiência do cinema de fluxo e seus naturalismos que atravessam o olhar do espectador despertando as emoções mais latentes, das sensações no campo da emoção à flor da pele. Dialogismos entre o cinema de Naomi Kawase, Carlos Reygadas, Petra Costa, Hsiao-Hsien Hou e Kar Wai Wong estão na imanência da construção do discurso de Jorane Castro. Em meio aos borrões de tonalidades e frames poéticos, a cineasta transita por um universo muito caro ao documentário ensaístico. Do sagrado feminino, a mãe natureza em sua beleza selvagem abraça as três mulheres tão acostumadas a depender da aprovação e dos afetos masculinos. Elas se nutrem do convívio (mesmo que ligeiro e superficial), de interações fugidias com o sexo oposto, de um
companheirismo forçado, para alcançar a liberdade emocional. Pois como disse a escritora feminista Susan Sontag “Para criar, você deve se autorizar a ser a pessoa que você não quer ser (de todas as pessoas que você é)”.
Jorane faz um filme de viagem, que possibilita uma jornada para dentro de si, da mulher no cinema que está atrás e na frente da câmera, da história do próprio cinema paraense que tem, nesse pequeno e reflexivo longa, seu marco inicial na expressão do amadurecimento da capacidade criativa dos autores de cinema do Pará. De uma amazona, sobre outras e de qualquer forma, que reverbera na tipografia de todas as mulheres contemporâneas.
Para Ter Onde Ir (2018) | Crítica
  • Duração: 100 min.
  • Direção: Jorane Castro
  • Roteiro: Jorane Castro, Dênio Maues
  • Elenco: Lorena Lobato, Ane Oliveira, Keila Gentil, Ramon Rivera Moret

Lorenna Montenegro

Crítica de cinema do Coletivo Elviras, jornalista, feminista e roteirista.

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