janeiro 15, 2021

Pieces of a Woman (2020) | Crítica

Difícil começar a comentar sobre Pieces of a Woman da Netflix por outro caminho que não seja sua abertura: a meia-hora inicial é precisa ao extremo em como concebe, de modo poderoso e naturalista, toda a angústia de um parto e antecipação de uma tragédia: começa de maneira pacífica, com a câmera se permitindo capturar os espaços de maneira mais aberta, e aos poucos, essa noção desaparece a medida que o diretor Kornél Mundruczó fecha os enquadramentos em uma dinâmica de decupagem intimista, onde seus quadros fechados transmitem o desespero das dores na figura de Martha (Vanessa Kirby), a claustrofobia ajuda a manter essa dramatização agonizante do evento e a sutileza em como o deslocamento dos planos é feito “em um único take” é emocionalmente catártico. Toda a dinâmica de Mundruczó é eficaz para transpor o nervosismo do nascimento e, posteriormente, o terror em meio a triste verdade que assombraria a relação daqueles personagens.

Passada essa meia-hora de filme, já entrando no miolo da narrativa, a dramatização de Mundruczó deixa de ser sobre o que aconteceu, mas sobre os ecos desesperadores do evento em seus personagens, todos quase sempre oprimidos pelos enquadramentos, sejam os mais espaçosos, que capturam tais pessoas de uma certa distância, até mesmo os mais intimistas que tentam desbravar os conflitos internos daquelas personalidades.

Mas é um ato que funciona melhor nos segmentos envolvendo Martha, onde Vanessa Kirby e o diretor souberam como compor as características de uma mulher destroçada por um trauma: o luto da protagonista é interno, sem gritos, sem manifestações explícitas, está nos momentos contemplativos onde a vemos observando com ternura crianças brincando ou uma jovem menina olhando as roupas em uma loja. Seus conflitos são internalizantes, já que seus pedaços se encontram quebrados, dilacerados sem que jamais tente encarar o fato de que existe a necessidade de confrontar aquilo que lhe assombra: a sombra de sua perda.

E é poderoso como o diretor usa de close-ups para intensificar o viés dramático das sequências, sendo o maior destaque, a discussão ambientada na casa de Elizabeth (Ellen Burstyn), mãe de Martha, onde o realizador e o diretor de fotografia Benjamin Loeb registra todo o embate emocional entre mãe e filha de modo intimista, onde os planos jamais se desviam de uma configuração sempre próxima aos rostos de suas atrizes, registrando os conflitos internos e a tormenta dramática do interior de duas mulheres fragilizadas por uma perda. A partir desse ponto, Mundrunczó volta a se encontrar no drama de modo mais coeso e minimalista, em especial, a forma como ele captura a desolação pessoal de Martha através dos quadros que invadem seu espaço íntimo e em como usa as melodias melancólicas da trilha de Howard Shore para delinear a tristeza internalizada da protagonista.

Ainda que invista em alguns simbolismos visuais pouco funcionais em sua obviedade audiovisual, Pieces of a Woman é um poderoso retrato cinematográfico de uma mulher tentando reunir os pedaços quebrados de sua alma, tentando se reconstruir, mas sempre assombrada pelos fantasmas do seu luto.

Avaliação: 4 de 5.
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