Pokémon: Detetive Pikachu (2019)| Crítica

A mistura da animação com o real em um contexto verossimilhante facilmente pode cair na piada e virar um paródia inconsequente de um produto de várias mídias. Felizmente, numa segura metalinguagem estabelecida de iconografia e estética, o mundo que junta Pokémon e humanos tange as duas espécies, usando as estabelecidos set de gêneros do cinema, principalmente o noir, para mostrar a divergência que une ambos seres.

O diretor Rob Letterman pode não ser um grande artista em suas comédias animadas, mas se caracteriza por conseguir sintetizar bem misturas de seres em um mesmo mundo, acostumando o público a tal situação. Seu conhecimento com figuras animadas em tela contribui para que esse filme traga credibilidade as interações dos bichinhos do videogame aos quase caricatos personagens. 

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A caricatura se faz pela referência ao mundo Pokémon, porém o perigo de aceitar o evidente destoar é diminuir a inserção do público no filme, podendo-o voltar mais para a marca japonesa da pokebola do que o filme em si. Dessa maneira esteticamente há uma dosagem nas figuras e cores em um constante deslize de significar explicitamente que é uma adaptação de videogame. As roupas da personagem Lucy Stevens, interpretada por Kathryn Newton, lembra um treinador Pokémon, porém não assume realmente isso, nem verbalmente nem visualmente com alguma noção concreta disso. Isso ajuda a manter um realismo de live-action se justificando constantemente por apresentar alguma fantasia.

Para agregar os seres fantásticos com os humanos não adianta só usar efeitos visuais para animação mais realista, é preciso compor uma união de mundos, fazer se tornar crível para o espectador. De forma direta, faz-se na ligação que é feita pela parceria, que cada humano precisa ter um Pokémon para ser normal. O protagonista Tim Goodman, vivido pelo ator Justice Smith, é cético com relação a isso, em que a atuação e os costumes – amplamente relevante para o entendimento dele e do foco estético já citado anteriormente – representa sua personalidade adulta demais para a sua idade. Sua relação com o Pikachu dublado por Ryan Reynolds não apenas contrapõe isso como é o elo da junção de dois mundos, seja o visualmente dentro do filme como o uso do ícone para desarmar deslizes do roteiro para o público em sua suspensão cinematográfica.

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Se o equilíbrio é alcançado nas vestimentas e detalhismos construtores para firmar um mundo próprio, o título do filme e sustentação física na metalinguagem do Noir moderno se diferenciam dos fatores humanos, que não parecem futuristas ou clássicos, da mesma maneira dos Pokémon em suas caracterizações próprias já conhecidas, com exceção do chapéu inglês de detetive do século 19. Nessa deslocação ambivalente o aceitar daquilo tudo, da investigação, de carros, instituições de polícia, um celular de formato diferente, se torna mais fácil captar o fantástico, enquanto o roteiro traz um subtexto que agrega a jornada do protagonista mais pessoal com o pai e sua volta a infância.

Pontuando isso, o roteiro escrito por quatro roteiristas transmite ora sutilmente ora mais descarado mudanças de rumo, clichês entre outras peças que vão ajustando a adaptação do jogo fadada a deslizes de implicar numa gameficação, exemplo da trilha de Henry Jackman que entrelaça sons eletrônicos e futurismo, como na intertextualidade desagradável, bizarra em sua credibilidade. Aqui na medida do possível os aspectos técnicos influenciam em uma vistosidade, como o Pikachu em suas piadas relacionais com o contexto do espectador em seu universo refresca a narrativa a todo tempo.

Falta ainda nessa história um encontro com sua real dramaticidade, pois o que se entende também é um apelo nostálgico que interpela bem mais um fã ávido do que priorizar um drama forte, para público infantil e adulto. Pois todo o esforço de poder levar a sério, sem perder a diversão, valeria bem mais se o subtexto virasse mais central para evitar vícios de flashbacks para explicações coerentes que engrandecem o filme.

Em visões mais incrédulas ou menos admiradoras de refrescos imediatos do cinema, Detetive Pikachu se apresenta suportável, mas quem ainda não abandonou a graça dos games adaptados e ainda gosta de ver metalinguagens espertinhas que ditam o tom do filme, a Warner pode ganhar mais uma franquia.

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  • Título Original: POKÉMON: Detective Pikachu
  • Duração: 104 min.
  • Direção: Rob Letterman
  • Roteiro: Dan Hernandez, Benji Samit, Rob Letterman, Dereck Connolly
  • Elenco: Ryan Reynolds(voz), Justice Smith, Kathryn Newton, Bill Nighy, Ken Watanabe, Chris Geere, Suke Waterhouse, Karan Soni.

Davi Lima

Cinéfilo, fã de Star Wars, e ainda procurando formas de ver mais filmes para aprimorar a massa crítica. Colocando a sabedoria e o equilíbrio aonde for.

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