outubro 25, 2020

Power (2020) | Crítica

Em Nerve – Um Jogo sem Regras, projeto anterior da dupla Henry Joost e Ariel Schulman, os diretores usavam da proposta inicial (um aplicativo de desafios online e ao vivo) mais para criar situações inventivas e jocosas do que para articular uma reflexão social sobre os males tecnológicos e a relação da geração atual com essas tendências (tal como o TikTok atualmente ou aplicativos semelhantes). Havia sim, uma riqueza temática naquela premissa, mas os realizadores optaram por seguir um caminho oposto – tanto é que, o terço final da obra entra na exploração desse elemento e acaba por destoar do que havia sido visto anteriormente, soando mais como uma lição moralista do que como uma previsão dos riscos da internet. Nesse sentido, Project Power até acerta ao não se arriscar ao explorar amplamente algumas premissas sociais como o racismo e os problemas de classes. Uma pena que, nem mesmo ao se entregar a mistura de ação e ficção científica ele funciona.

Joost e Schulman sofrem de um grande problema aqui ao jamais explorar os potenciais que possuem com essa premissa: toda essa unificação entre uma ação urbana e uma essência fantasiosa (o elemento da pílula e seus efeitos) é tratado sem muita criatividade e acaba ocupando menos espaço narrativo do que deveria. Boa parte da progressão narrativa está presa a uma dinâmica dramática e pseudo-cômica entre os personagens, apressando quaisquer elemento emocional da construção de seus personagens. Existe uma diferença entre ser objetivo e direto ao ponto e sair atropelando estágios sem construir nenhum deles. Então, temos a subtrama da Robin (Dominique Fishback) e os problemas financeiros que vive com a mãe, fazendo com que venha a traficar o produto (no caso, as pílulas) para sustentar a casa, algo que é abordado de modo superficial em um segmento encenado de maneira óbvia e sensacionalista.

Já Art (Jamie Foxx) é o arquétipo do pai traumatizado que está em busca de salvar sua filha, um arco que acaba soando problemático por ser igualmente apressado e sensacionalista, exibido por flashbacks em meio a eventos diversos da narrativa e ao ser mostrado por alucinações do protagonista que também soam superficiais. Nisso temos a dinâmica Art/Robin, Robin e Frank (Joseph Gordon-Levitt), a premissa envolvendo o personagem de Levitt e seus problemas com o uso da pílula nos serviços policiais, existem diversos elementos narrativos e o projeto se perde por não saber como explorar simultaneamente cada um deles, fazendo de todos subdesenvolvidos e, claro, sem peso no componente dramático do projeto.

Contudo, Power tem como foco a exploração da ação e das habilidades possibilitadas pelas pílulas. Infelizmente, nem isso acaba por causar um impacto, já que o projeto é incapaz de se distanciar de uma exploração genérica em sua decupagem: abusando de uma desorientação, os diretores acreditam que criar uma essência urbana é enfocar os combates e outras situações com um emprego de shake-in-cam e abusar de neons e cores fortes sem qualquer propósito básico. Contudo, isso cria apenas um caos na compreensão da imagem que, desordenada, jamais explora com amplitude a energia dos embates, já que os seus diretores se preocupam em cortar excessivamente e conceber essa atmosfera pulsante noturna que mais soa como um fetiche por cores e luzes do que exercendo alguma função narrativa – como ocorre em Bom Comportamento dos Irmãos Safdie, que as cores ilustram ainda mais o caos interno do protagonista e a viagem alucinante em busca de salvar seu irmão.

Sendo, no final das contas, mais um exemplar descartável do serviço de streaming, Power é belo, porém gratuito; curioso, porém frustrante; cheio de potencial, mas que é completamente desperdiçado pela articulação convencional e sem inspiração de Joost e Schulman. Em resumo, é uma produção superficial e passageira que pouco se preocupa em trabalhar graficamente e compreensivelmente visível, ocultando o que poderia ser um deslumbrante filme de ação sci-fi com toques de fantasia em uma obra dispensável que parece se agradar em ficar no “poderia ser” do que ser, de fato.

Avaliação: 2 de 5.
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