outubro 25, 2020

Puro Sangue (2017) | Crítica

Toda obra cinematográfica precisa ter algum tipo de ambição; um objetivo ou uma pretensão a alcançar: um projeto desconfortável procura chocar o espectador para exibir na emoção sentida, uma mensagem ou subtexto escondido, já uma obra reflexiva obriga o seu público a pensar sobre um tema, seja ele de aspecto social, psicológico ou outro. Sintetizando: um filme precisa de ter substância e algo a dizer. Dito isso, chegamos a Thoroughbreds (ou Puro Sangue no Brasil, em mais um exemplo de péssimas adaptações de títulos americanos) que, a medida que ia refletindo sobre esse trabalho de estreia de Cory Finley, indagava com mais intensidade: sobre o que ele nos leva a pensar? Qual sua mensagem? Sua pretensão? O que procura transmitir?

Absolutamente nada.

Exatamente o que você acabou de ler acima: Thoroughbreds é um filme sobre… nada. Ok, reconheço que ele até tenta emular algum tipo de reflexão no que diz respeito ao modo de vida suburbano norte-americano, mas não passa de mera pretensão dada a maneira superficial que é desenvolvido e o que poderia ser uma crítica social ácida se torna uma oportunidade desperdiçada em um projeto que procura criar momentos esteticamente exuberantes do que algo substancial, de certa forma. O roteiro, escrito pelo próprio Finley, aposta em diálogos bem elaborados e instigantes entre suas duas protagonistas que, mesmo construídos com esperteza, não apresentam muita função dentro do contorno narrativo a não ser criar um vínculo entre ambas.

Vínculo esse que é convincente de certa maneira, mais pela habilidade interpretativa das atrizes do que pela condução de Finley: Anya Taylor-Joy é uma das intérpretes mais expressivas de sua geração, expressando sentimentos tão genuínos através de seus olhares e expressões faciais que demonstra um talento poderoso e mostra o futuro brilhante que lhe espera – e pensando que esse é seu segundo trabalho no cinema independente, nota-se o bom gosto da jovem por projetos autorais. Porém, a estrela de “Thoroughbreds” é Olivia Cooke, que fascina pela aura de estranheza que cria nos ambientes na qual passa e pela personalidade retraída que pode (ou não) esconder algo perturbador por trás de sua imagem paciente. Mas é a química da dupla que mantém a narrativa tolerável, com uma “amizade” excêntrica e instigante, de certa forma.

Contudo, é a dinâmica das protagonistas que torna a obra interessante, já que todo o resto não possui nada muito envolvente que torne seus 93 minutos de projeção atraente ou estimulante: contando com uma condução vaga e que tenta criar uma falsa sensação de complexidade em determinadas situações que elabora, o roteiro não procura dizer algo de relevante ou profundo. É um exemplar de projeto que acredita ter uma carga interpretativa, mas que tropeça ao não oferecer elementos que intensifiquem isso. Há sementes ao redor do texto: existe uma discussão psicológica e social sobre o meio que habitam e como ele pode afetar suas mentes, estimulando atos de psicopatia ou a futilidade de pessoas que vivem em um universo luxuoso, mas são assuntos construídos sem a profundidade necessária para permitir discussões sobre os tais temas levantados.

Porém, a situação do projeto decaí quando se alcança o encerramento da narrativa: se até aquele momento, a obra se mostrou sutil – até quando não existe necessidade – para alcançar o desfecho e descrever os acontecimentos no epílogo com um didatismo irritante, enquanto intercala com cenas que explicam claramente o que está sendo descrito, ao invés de optar por um dos recursos. Mesmo assim, “Thoroughbreds” (me recuso a repetir o título brasileiro) demonstra que, com um roteiro mais interessante e que reconheça a complexidade dos assuntos que levanta, Cory Finley pode se revelar um diretor fascinante. E se caso decida escrever seu próximo trabalho, espero que tenha a decência de desenvolver os temas que entrega.

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