dezembro 1, 2020

Rebecca – Uma Mulher Inesquecível (2020) | Crítica

Provavelmente, um dos trabalhos mais subestimados da filmografia de Alfred Hitchcock, Rebecca – Uma Mulher Inesquecível é uma obra curiosa em como, ao lado de Um Corpo que Cai, potencializa uma dinâmica sobrenatural poderosa, que, no clássico de 1940, era evidenciada através da relação de seus personagens com o espaço cênico de Manderlay: o ambiente da mansão é um baú de segredos ocultos e dolorosas memórias, um local opressor para seus personagens, onde o passado insiste em se manter vivo, onde as lembranças são como fantasmas e Rebecca se mantém viva, materializada nos quadros da parede, nas escadarias, nas capas de cadernos, tecidos, pratos, nos milimétricos detalhes que se encontram naquela casa.

Mas o assunto do texto, infelizmente, não é o clássico de Hitchcock, e sim seu remake, lançado na Netflix nessa última quarta-feira (21).

Jamais serei contra a ideia de um remake, afinal, se tiver algo autêntico a propor e realmente concretizar suas ideias, não existe problema algum em existir. Um filme só é ruim pela forma que trabalha o seu conteúdo, não pelo próprio em si. Contudo, esse é o demérito do Rebecca de 2020: jamais propor algo. Basicamente, o que Ben Wheatley (Free Fire, High-Rise) se limita a reproduzir os passos do original de forma preguiçosa através de seu tratamento com a linguagem. Se Hitchcock propôs algo através da imagem, Wheatley enxerga ela como uma bobagem descartável que pouco importa a maneira como será idealizada.

E com esse pensamento, começam os inúmeros problemas da direção, o principal deles é como tudo está a sombra do original, uma cópia preguiçosa que tenta exercer o mesmo peso dramático do clássico: Manderlay é ainda mais esteticamente rebuscada em comparação ao filme de 1940, mas Wheatley jamais utiliza ela em prol de algo. A mansão do Sr. De Winter (Armie Hammer) é meramente uma casa genérica (e uma prova do quanto a equipe artística se importava com essa produção se reflete no fato de que um dos cenários é um set do filme Enola Holmes, lançado no mês anterior). Toda a decupagem do realizador é um exemplo de desinteresse do diretor com a obra, ao se limitar em uma composição de diálogos meramente ilustrativa, em uma dinâmica de plano e contra plano sem qualquer peso emocional.

A fotografia, que muitos chamariam de “bonita” ou “elegante”, é mais um artifício genérico nessa escolha do azulado e amarelado sem qualquer criatividade que não se justifique como um refinamento elegante completamente vazio. Se Hitchcock usava a mise-em-scène para potencializar o impacto das cenas e revelações (a sequência na cabana é o mais perfeito exemplo), aqui, toda a relação entre os personagens com o espaço é puramente genérica, sem propósito, algo que faz com que a icônica cena dos twists na cabana seja uma cena sem a carga emocional que tenta incitar. Nem a relação dos personagens o diretor se importou de trabalhar, apressando qualquer dramaturgia em uma montagem “ágil” que pula etapas de modo apressado e sem um propósito.

Mas, o pior é ver que, no original de 1940, Hitchcock imprimia em todas as suas escolhas de imagem, algo a dizer. O cineasta chegava a algum ponto. Transmitia uma ideia através de sua articulação cênica, de suas escolhas de linguagem. Já o remake de 2020 é apenas uma reprodução que se contenta em alterar de leve alguns eventos – inclusive, um deles acaba por retirar toda a carga alegórica do desfecho de um personagem específico – , mas que, no final das contas, é uma mera sombra genérica e superficial do clássico. Um decalque torto de um filme muito superior a ele.

Discordo da afirmação de que, um filme não precise existir, mas se é para existir assim, era melhor deixar o cinema com as belas lembranças do filme de Hitchcock mesmo.

Avaliação: 1 de 5.
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