outubro 25, 2020

Retrato de uma Jovem em Chamas (2019) | Crítica

Amor e Arte.

Retrato de Uma Jovem em Chamas“, novo filme da diretora Céline Sciamma, não é um trabalho que procure algum tipo de acessibilidade fácil ou dinamismo. Ambientando sua trama no século XVIII, o roteiro e a condução lidam com um compasso paciente e contemplativo que pode desagradar o espectador casual, mas entrega o que almeja com perfeição, empregando um romance intenso e constituído aos poucos, nos detalhes, na atenção e delicadeza dos movimentos e o resultado final é uma harmonia completa que compõe uma experiência estilisticamente vibrante e que evita o fetichismo gratuito ainda que traga uma carga considerável de nudez para a atração e relação amorosa entre suas protagonistas, Héloïse (Adèle Haenel) e Marianne (Noémie Merlant). 

A atenção de Sciamma na direção e roteiro é tamanha que pode ser notado nas inúmeras interpretações que podem ser extraídas da presença do fogo no contorno narrativo: além de representar a paixão, ele simboliza o renascimento e renovação, algo que pode ser notado na figura de Héloïse, que foi privada de suas escolhas e desejos pessoais e forçada a entregar sua vida a alguém que não ama. Sua angústia pode ser observada nos minuciosos elementos que a rodeiam como o constante uso de tonalidades frias em suas vestimentas – o azulado, em especial – que remete a sentimentos como tristeza e sua capa na qual a cobre, banhada por cores escurecidas, mantendo-a em sua melancolia interna. Já Marianne é revestida por uma justaposição entre o branco (pureza) e o avermelhado (paixão, desejo) – inclusive, é curioso notar como a mesma está sempre ao lado do fogo, intensificando a sensação do desejo ardente por Héloïse que se instala gradualmente. 

Estruturado em duas metades de uma hora, o roteiro toma boa parte do terço inicial apenas para apresentar o local e suas personagens, deixando boa parte da intensidade da relação entre ambas para a segunda metade que, consolida o amor que sente e a dor que precisarão enfrentar quando seguirem seus próprios trilhos. A forma na qual Sciamma retrata os passos lentos dessa caminhada é fascinante, começando sem uma atração direta e, aos poucos, vemos que os olhares deixam de ser exclusivamente relacionadas a realização da pintura para se materializar em um sentimento interno, íntimo, profundo e que vai desestabilizando as duas. Em certo momento, após a representação inicial do que elas sentem, Marianne verbaliza:

– “Eu pensei que estivesse assustada.

E então, Héloïse responde: 

– “Você está certa. Eu estou assustada.

É uma cena simples, mas que define o que sentem. Ambas não compreendem completamente o que está acontecendo em seus interiores, mas não necessita de muito, já que a própria Sciamma consolida ao empregar uma série de gestos e toques entre as duas que, delicadamente, imprimem o ápice do amor que estavam guardando por tanto tempo. E claro, a força dessa relação vem também das performances entregues por Noémie Merlant e Adèle Haenel: a primeira, claramente a protagonista, é segura de suas emoções e dedicada ao trabalho que realiza, porém, deixa a sensibilidade falar mais alto quando se apaixona e não sabe conter o que há dentro de si – e um dos segmentos mais belos de sua composição está no instante em que abraça sua amada, pedindo-lhe perdão pela forma como agiu anteriormente. Já Haenel é apresentada de uma forma tão mística através de um acompanhamento de sua nuca, coberta pelo capuz, evidenciando sua presença e impacto, apenas para mostrar as camadas de sua persona, desde sua melancolia até o tom baixo que se pronuncia, apresentando uma mulher presa que internaliza até não ter mais capacidade de fazer isso. 

Mas o brilho está quando as duas contracenam, já que a naturalidade na construção dos olhares de desejo e os gestos e ações são tão genuínos que torna o romance atrativo. Suas interações ganham mais valor ao serem conduzidos por diálogos e frases sutis que, abrem espaço para os silêncios entre ambas e permitem que Sciamma intensifique o registro da câmera ao empregar close-ups no rosto de suas personagens, realçando as emoções sem invadir completamente o espaço de Marianne e Héloïse, especialmente quando estão em plano-conjunto, na qual possibilita que venhamos a observar a dinâmica das conversas que nutrem e as reações que esboçam durante as mesmas. O texto é contido na história que apresenta, mas entrega a beleza que possui ao compor com suavidade o detalhismo da arte ao mostrar cenas onde a protagonista pinta o quadro na sua minuciosidade até que se transforme em uma bela pintura, imprimindo o esforço artístico da composição e a beleza do resultado final. 

O design de produção, por outro lado, constitui os ambientes internos com uma composição que denota o desgaste pelo tempo nas madeiras envelhecidas. Já a Cinematografia realça a beleza das locações apresentadas com planos-abertos que capturam o máximo de informação visual que podem, além de embelezarem os segmentos noturnos com uma iluminação a base de velas e lareiras – trazendo o fogo para perto de suas personagens, o que estimula o subtexto a respeito do elemento – ; os enquadramentos, no entanto, seguem uma ordem muito chamativa ao utilizar bem a mise-en-scène do espaço para criar planos exuberantes como aquele onde temos as personagens ajoelhadas na areia da praia – e que encabeça esse texto, inclusive – e outro que usa o desfoque para demonstrar a reação de Héloïse ao interagir com Marianne (além de soarem como belas “pinturas visuais”, o que condiz com traços da narrativa).

Em certo momento, as personagens leem o conto de Orfeu e Eurídice ao lado de Sophie (Luàna Bajrami) e discutem a respeito da obra. Mas o curioso é como Sciamma emprega o mesmo desfecho do mito no desfecho do arco das personagens de “Retrato de Uma Jovem em Chamas“, onde vemos Marianne correndo até a porta e sua amada a chama e diz: “Vire-se“. Uma frase simples, mas que explicita a natureza dolorosa do encerramento dessa obra magnífica. 

Avaliação: 5 de 5.
%d blogueiros gostam disto: