Rocketman | Crítica

O primeiro plano com notas musicais de “Goodbye Yellow Brick Road” do filme entrega uma baita ironia, um demônio saindo da luz, um antítese quase cômica que combina muito com a extravagância de Elton John, mas que também aflige realmente o protagonista. Sua grande jornada do herói clássica com toques mágicos de um musical se embebeda e se droga na busca do seu amor próprio, do abraço que nunca recebeu.

Antes do drama, é preciso entender que o diretor Dexter Fletcher não parece aproveitar as potencialidades mágicas que o musical disponibiliza, ilustrando mais do que energizando, se escorando na falta de sutileza do personagem centro com alguns planos e resoluções visuais óbvias, ou repetindo espelhos. Apesar disso, ao menos, assim, se evidencia muito o caráter dramático com direção de atuação em expoentes ás vezes teatrais que reflete o roteiro musicalizado.

E quando entra no quesito trabalho musical é trazido a tona o valor das metáforas tanto das canções originais como da palavra “metáfora” em si que é uma comparação menos explicita, usando termos de fontes distintas. Da mesma forma parecem os encaixes sonoros, oposições de situações melancólicas com uma melodia enervantes. Isso é essencial para compreensão do todo girar em volta de Elton John, como isso representa sua personalidade carnavalesca externa, principalmente nos shows, enquanto a letra de seu amigo se molda com uma bela metáfora a sua ânsia desamorosa e isolada.

Nessa proposta um pouco silenciada, como um desenho bem articulado e realista, sincero e verdadeiro, entretanto sem cor tão intensa quanto o traço, “Rocketman” vai ganhando espaço com seu ator principal que se caracteriza em permanente fragilidade porém apresentando uma força corporal vai desenhando o grito junto com o álbum de músicas a jornada pelo amor psicodélico.

A psicodelia varia entre o inocente, a sua infância recorrente, as pessoas, fãs, que o ajudam a sobreviver para entrar no palco, e a depravação, o vermelho sexual, das orgias. Por mais moralista que seja, pontos como o produtor musical vilanizado numa perspectiva cinza de uma aceitação da homossexualidade de John e a forte intimidade com o título filme sobre isolacionismo no mais alto espaço que é vazio. Logo, é nada mais nada menos que malévolo para sua saída o seu modo de vida, e o retrato dela fortalece o desabafo nas cenas que o personagem se encontra na clínica de tratamento. Por trás dos óculos coloridos, por trás da vida em vícios a falta de um amor que ele considerasse genuíno, seja materno ou paterno que nunca teve, ou até mesmo com seu namorado, o choro corria.

Há desse jeito um desmonte, do vermelho infernal sua roupa embranquece num convencimento que já existia quem o amasse, faltava ele mesmo. Nos inúmeros flashfowards musicais antes de um romance, como “Don’t Breaking my heart” ou “Don’t Let The Sun Go Down On Me” ainda assim as músicas eram muito bonitas para não se encantar pelo momento de amar o outro. Esse drama é o que permite alguma catarse que o diretor infelizmente não consegue captar e transmitir visualmente, embora musicalmente complemente como amarra envolvente.

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Toda a ficcionalização aqui ao menos tenta encontrar a salvação do personagem de maneira mais horizontal, não o clássico altos e baixos que o próprio “Rocketman” desconfigura. O alcance é nos créditos, no clip musical raso mas complacente com a ideia do pós filme. A grande sacada é o vivo Elton John poder usufruir do filme como sua propaganda, com uma música lançada com seu ator intérprete Taron Edgerton. Se acontecia tal coisa antes, a proximidade com o público, a comoção, é muito mais abrangente.

Dessa maneira essa cine autobiografia, mais para isso do que uma biografia, conquista êxito, aquém da sua premissa, dosando ou não sabendo elevar seu poder cinematográfico adquirido, no entanto no entrar da fantasia, da mente de Elton John numa pura conquista do amor em meio a impurezas do caminho parece fazer jus ao icônico pianista e cantor do amor.

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  • Duração: 121 min.
  • Diretor: Dexter Fletcher
  • Roteiro: Lee Hall
  • Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemmas Jones, Steven Mackintosh.

Davi Lima

Cinéfilo, fã de Star Wars, e ainda procurando formas de ver mais filmes para aprimorar a massa crítica. Colocando a sabedoria e o equilíbrio aonde for.

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