outubro 22, 2020

Sergio (2020) | Crítica

    A Netflix continua ampliando seu catálogo biográfico e dessa vez somos apresentados a Sergio Vieira de Mello, secretario da ONU que era tido por muitos como o único homem capaz de resolver o que ninguém conseguia. Curiosamente, Sergio, não era diplomata por assim dizer, seu pai sim, daí a vocação, mas Sergio nunca representou um país, muito menos o brasil, ele era conhecido como “a ONU” e era cotado para suceder Kofi Annan; é uma questão que se divide muito e ainda rende uma discussão entre as pessoas do meio. Voltando a produção, cabe também dizer que o filme é a segunda obra do diretor Greg Barker que envolve o protagonista, em 2009 o diretor lançou um documentário pela HBO, ambos foram inspirados no livro de Samantha Power “O homem que queria salvar o mundo: uma biografia de Sergio Vieira de Mello” e abordam uma visão menos prática da situação/atuação e trazem muito dos relatos da esposa, Carolina Larriera (interpretada por Ana de Armas), que só foi conhecida como esposa anos depois da morte do secretário. Trazer isso no documentário causou menos incomodo que no filme e aqui se tonou um problema.

     Existe uma romantização exagerada na trama que causa um desagrado e quebra a expectativa, a maioria do publico não conhece o personagem e muito menos a sua importância pelo mundo. Existe uma fenda muito forte no entendimento de algumas pessoas quando se fala em direitos humanos, um filme como esse, em um momento como esse, era uma boa ferramenta para apresentar, de fato, o que são direitos humanos, mas a oportunidade foi desperdiçada e só vai atrás quem quer se permitir a isso e obviamente a fatia será pequena, principalmente pelo protagonismo de Wagner Moura, que por algum motivo, é questionado por suas ideias pessoais e profissionais. O roteiro, que opta pela não linearidade, aposta muito no romance entre Sergio e Carolina como ferramenta de transição entre os acontecimentos, algumas coisas são boas, como o romantismo em plena guerra, outros são exageradamente explorados como o próprio romantismo em plena guerra, um corte de 2 segundos no tempo atual para retornar a um flashback? É muita coisa! 2 segundos no presente, corta para o passado, 2 segundos no presente, corta para o passado; não é errado pela escolha, mas é cansativo pela execução, principalmente no clímax do filme, você pede mais tempo do protagonista, pelo menos no clímax e mesmo assim o romance assume a linha de frente, existem personagens ali que tiveram que tomar decisões incríveis e tudo é deixado de lado, por exemplo os oficiais de regaste.

     Uma escolha positiva na produção é que o diretor não quis transformar o protagonista em um super-herói salvador, mesmo que muitas pessoas da vida real concordem com isso, as escolhas e as suas consequências são expostas de forma honesta no decorrer do percurso, principalmente nos diálogos com seu amigo e confidente Gil Loescher (interpretado pelo ator Brian F O’Byrne). O diretor também acerta ao usar o orçamento nas locações e afastar o espetáculo bélico que existe nos filmes que tem a guerra como background, os personagens vivem com os sons de explosões, rajadas de ak-47 e citam isso, mas nada é mostrado, é mais impactante saber que tantas pessoas convivem com isso do que ver tiros ferindo corpos. Para um documentarista, Barker executa muito bem a direção do seu elenco, fica nítido que varias cenas precisaram ser gravadas varias vezes, principalmente com o elenco local, em especial no Timor Leste, o elenco profissional recebe uma grande atenção também, você percebe na montagem que na mesma cena existem diferentes planos, se percebe por causa da iluminação, algo não ficou bom e tudo foi refeito, esteticamente perde um pouco, mas essa preocupação com o produto final tem uma dignidade maior.

     A estrela maior do elenco é Wagner Moura, Sergio, o ator que investiu na carreira internacional e se aventurou como produtor, consegue afastar ainda mais a “latinidade” dos seus personagens. Sergio é um papel que casou muito bem com Moura, a serenidade e firmeza do personagem é uma característica que o ator consegue imprimir muito bem. Ana de Armas é mais um resultado positivo, mesmo sendo rotulada como a “mocinha sofredora” em alguns momentos, a atriz é talentosa e merecia muito mais. Tem uma cena na chuva que o casal protagoniza que não tinha absolutamente nada a ver com o filme, mesmo que o foco seja a relação dos dois, tudo já estava absolutamente esclarecido e a cena que antecede isso poderia ser estendida com mais vigor, para que lembrar “Diário de Uma Paixão”?

     Sergio é um filme que tem a missão de apresentar um dos maiores nomes na história da ONU, mas se perde nas suas escolhas, se segurando em questões individuais e nos talentos envolvidos na produção. certamente a ignorância também vai atrapalhar o desempenho do filme aqui no Brasil, direitos humanos e Wagner Moura são nomes que, por pura ignorância, dividem parte das opiniões, mas se você se permitir, aqui pode ter início ao que realmente se trata os direitos humanos, existem pessoas ao redor do mundo que sofrem com a guerra e os seus derivados, existem pessoas ao redor do mundo que merecem alguém que, pelo menos, tente brigar por elas, que merecem, ao menos, parar de morrer sem ter absolutamente nenhuma culpa, Sergio abre essa brecha ao conhecimento, basta querer.

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