Shazam! (2019) | Crítica

A autorreferência ao universo DC se torna crítica construtiva dentro do filme “Shazam!”. A coletividade em prol do individualismo é que cria um herói de verdade, a sensação de se sentir parte de algo. Da mesma forma o estúdio Warner entende que faz muito mais sentido explorar os gêneros cinematográficos e reutilizar modelos clássicos para sua fidelidade quadrinesca do que ficar presa a uma maturidade trazida das HQs em um tempo impróprio.

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O caminho pelo visto vai ser mais e mais ridiculamente divertido após Aquaman. Depois da odisseia nos mares cheia de cor com figuração direta do conflito entre ser herói e monarca, o heroísmo continua em estudo simbólico, em que a direção e roteiro sabem juntar a temática da dependência humana de saber reconhecer o que faz o poder ser realmente poderoso. Em meio ao Natal em que a esperança, o papai noel e os presentes são constantes, Billy Batson ganha poderes de um mago desesperado para achar um escolhido. O contexto lembra a passagem dos 80 para os anos 90 no cinema com hologramas e roupas de colã com enchimento que estruturam toda a mitologia do super-herói. A ideia principal é reaquecer a crença nos tempos de ouro dos ícones dos quadrinhos sem realismo envolvente.

O diretor David F. Sandberg(Anabelle 2) com sua filmografia do terror conhece os maneirismos de encanto dos efeitos práticos e a capacidade de potencial da história permitir explicações esdrúxulas e sugestão de violência para desenvolver o vilão Dr. Silvana. Lembra os bons tempos que a Warner permitia diretores como Tim Burton entregar autorismo em suas obras de cargo chefe, e parecido ao estímulo que Scott Derickson usou em “Doutor Estranho” de aproveitar o exercício do horror e aplicar pontualmente, em uma cena no escritório o plano aberto registra gritos e desespero humano diante do ataque impiedoso do nêmesis de Shazam. Ele tem sua trama anti-familiar, quando um mal surge da denominação do fracasso pessoal, que o crescimento é dito como impossível e a prova do valor especial individual é o que importa. E sem dúvida o ator Mark Strong transmite uma maldade compreensível e carismática de belo vilão de quadrinhos.

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Se a direção imprime peso a leveza do ambiente natalino, o roteiro de Henry Gayden(Terra para Echo, 2014) amarra um fundo dramático por fora enquanto piadas se mostram dentro do gênero família para criar o protagonista. Shazam remete de praxe a trama clássica de “Quero Ser Grande” com o entendimento de sua originalidade no assunto nerd e socialmente profundo. A relação de Zachary Levi como Shazam, mostrando quase perfeitamente as didáticas de interpretar uma criança como Tom Hanks demonstrou, e Jack Dylan Grazer como Freddie Freeman, interpretando expressivamente convencimento de cada fala, evolui comicamente e dramaticamente ao mesmo tempo quando são aprendiz e treinador. Freddie sofre bulliyng na escola o que faz ter uma espécie de atenção indesejada, da mesma forma sua personalidade humorada é uma reação ao seu sofrimento de ser desprezado por sua deficiência de andar. Ao conhecer Billy, atuado pelo limitado e inseguro no papel Asher Angel, um garoto preocupado consigo mesmo e sua busca por sua mãe, pode até tratá-lo normal, porém estende o maltrato para outro nível. Em evolução dessa dinâmica o super-herói se torna o melhor amigo do amante de quadrinhos, podendo o levar a escola, porém os poderes não torna Billy em outra pessoa, mesmo que a inversão de dependência inverta. A comicidade de Levi em um momento se torna seu drama de não conseguir mais encantar o garoto.

Esse super-herói não acredita em acolhimentos, não crê em sucessos em conjunto porque lhe foi tirado um bem precioso familiar, o que impede de apreciar um caráter menos individualista. A lembrança do vilão ou até mesmo do clichê da falta de preparo do ser para ter poderes vem a tona e toda a jornada de perguntas quanto a universo de mitos heroicos. Indiretamente tudo é respondido singelamente no mesmo universo DC já trabalhado antes, na comparação piadista com “Batman v Superman” nas mãos de uma criança ao ver Silvana e Shazam lutando numa montagem de cenas evidentemente crítica ao passado, muito eficaz para evidenciar uma espécie de análise familiar adjunta a análise do ser super.

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Além disso há a comparação e citação recorrente a Superman, visto que Shazam é visualmente e poderosamente semelhante ao azulão. Em uma mistura da irreverência a portes heroicos de Deadpool e a noção de baixo universo diante de Superman, Mulher-Maravilha e Batman como “Spider-Man Homecoming” mostrou, a referência é utilizada para medir pesos de cada embate e linha suspensória da narrativa. Se em “Homem de Aço” Metropolis é destruída em um embate de seres alados no céu, Filadélfia só é maltratada comedidamente na possibilidade de visual de quebrar símbolos associados ao drama do vilão. Difícil não associar a batalha de Zod e Clark pautada em uma dramática realista de diálogos do vilão que é ironizada pelo excesso de discurso de Silvana.

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Para a infelicidade de alguns espectadores, a comédia passa do ponto no melhor estilo pastelão de comédias básicas, no entanto a introdução do humorado e o uso dele fazem-se necessários. A relação familiar da casa de acolhimento se baseia toda no humor prazeroso porque todos os atores conseguem participar, porém os pais em alguns momentos parecem deslocados ao elenco mirim. Zachary Levi desliza facilmente e compreensivelmente para o subjetivo exagerado. É difícil julgar até porque como ator central ele se sente extremamente a vontade sendo Shazam, transitando as emoções em harmonia clara nas variadas circunstâncias, sempre fazendo o roteiro ficar melhor. Nisso se evidencia a dificuldade do ator Asher de acompanhar o progresso de Levi e fazer dupla com Jack Dylan, faltando emotividade no ator. Embora ele sirva para pertencer as circunstâncias mais dramáticas e contrapor a animação das atuações em geral do filme, o roteiro falado por ele constantemente parece ensaiado demais. Lembrando também da apegadíssima trilha sonora de Benjamin Wallfisch que infelizmente não descola empolgação de um grande tema, ouvido apenas em melancólicas notas ínfimas, sobrando para as músicas incidentes o brilho, como a música do Queen “Don’t Stop Me Now”.

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De resultado tudo não passa de um aprendizado com a pespectiva. A família como prisão existe e o seio familiar como formação de caráter também. Por mais estadunidense que seja a visão para a união natalina, ao menos o papai noel não sabe onde está a mamãe noel no verão e e a maldade sempre é explicita no filme, até mesmo na fotografia de uma lembrança. O que se pode dizer que em meio a uma romantização consciente e os preceitos quadrinescos mais e mais implementados, existe uma leve ironia projetada na padronização. 

Como a Marvel iniciou uma aceitação mainstream impactante da nona arte pregada na tela grande, a DC pode ir mais fundo nisso com o pragmático tratamento seu panteão de personagens.

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  • Duração: 132 min.
  • Direção: David F. Sandberg
  • Roteiro: Henry Gayden
  • Elenco: Zachary Levi, Michelle Borth, Djimon Housou, Mark Strong, Jack Dylan Grazer, Asher Angel, Marta Milans, Meagan Good, Mary Bromfield, Caroline Palmer, Faithe Herman, Ian Chen, Ava Preston, Jovan Armand, Evan Marsh.

Davi Lima

Cinéfilo, fã de Star Wars, e ainda procurando formas de ver mais filmes para aprimorar a massa crítica. Colocando a sabedoria e o equilíbrio aonde for.

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