Sinfonia da Necrópole (2014) | Crítica

O que geralmente se espera de um filme brasileiro?! Agora pense em “Sinfonia da Necrópole” e reconstrua isso. O filme conta com o roteiro e direção de Juliana Rojas. Ela que sempre dividiu a direção com Marco Dutra, seu parceiro desde a faculdade, concebeu com ele dois longas-metragens: Trabalhar Cansa (2011) e As Boas Maneiras (2017). Sinfonia da Necrópole foi o primeiro e até então único longa-metragem solo de Juliana e eu devo dizer, é preciso aplaudir a originalidade.

O filme conta a história de Deodato (Eduardo Gomes) um aprendiz de coveiro que não consegue se acostumar com o trabalho, as coisas para ele começam a melhorar quando os donos do cemitério de onde trabalha vêem-se obrigados a fazerem obras no local por estar em superlotação, assim contratando o serviço funerário que trás até ali Jaqueline (Luciana Paes), mulher por quem Deodato se encanta. O filme é mais complexo do que a premissa faz parecer, porque em primeiro lugar é um filme de gênero, aliás da mistura de vários deles. Trata-se de uma comédia romântica musical com toques de horror. Por misturar alguns gêneros de uma única vez, pode ter sido difícil abortar todos eles igualmente, com isso o filme é majoritariamente uma comédia romântica. O gênero horror é construído na maioria das vezes pelo ar de estranheza que algumas cenas possuem, onde você não vê nada demais e nem sente receio, mas sabe que tem algo estranho acontecendo ali e isso é o suficiente para te prender a atenção.

Os números musicais ajudam a contar a história e personalidade de cada um que compõe a diegese e a variedade de arranjos demonstra suas individualidades. Caminha de baladas românticas à samba. As  letras das músicas, em sua maioria, foram compostas pela própria Rojas e ritmada pelo Marco Dutra. Algumas delas funcionam melhor que outras, mas como a parte musical do filme não é de fato exagerada como em um musical tradicional, e não foi exigida apresentações excepcionais dos intérpretes, você consegue assistir toda a obra sem se prender a mais de duas canções.

Um ponto interessante é que o filme foi rodado quase que inteiramente dentro do cemitério e o clima na história está sempre nublado, isso conversa bastante com o personagem Deodato, pois ele está sempre demonstrando melancolia e incompreensão pela sua própria vida, é como se ele mesmo estivesse morto. Em contraposição percebe-se o tom humorístico na personalidade de cada um dos outros personagens, como um padre que aparece o tempo inteiro comendo algo, a florista obcecada pelo próprio negócio e um coveiro que fala ditados populares trocando algumas palavras por algo fúnebre. Cada personagem é afetado por alguma mania ou detalhe que o destaca, seus desenvolvimentos deixam isso claro e por mais que as atuações não sejam algo naturalista você consegue enxergar verdade em cada uma delas.

Outro ponto importante a se destacar é que o filme também carrega consigo uma bagagem social. Essa pegada que sem dúvida faz parte do estilo de Juliana, uma herança que encontramos em todos os seus filmes feitos antes. Pelo título já podemos imaginar o que ela está criticando, a querida Metrópole (São Paulo). Por ser uma cidade grande e lar de cada vez mais pessoas, para conseguir espaço para tanta gente, as construções de prédios (túmulos verticais) são muito bem vindas ali só que, infelizmente, e como o próprio filme mostra as pessoas que mais saem prejudicadas e esquecidas com essas construções são as mais pobres. Ele acabam sendo expulsos de suas próprias moradias para dar espaço a outras que eles mesmos não conseguem quitar. Logo vemos que o cemitério nada mais é que a representação da grande São Paulo e as famílias que não puderam pagar pelas mudanças propostas pelo cemitério são os prejudicados sociais que a cidade carrega.

Sem dúvida Sinfonia da Necrópole é um filme que merece ser visto, tanto pela crítica que ele pondera, quanto por toda criatividade pensada. É uma película que consegue conversar com vários meios sociais mesmo sendo tão diferente do que se encontra por aí nas salas de cinema de filmes nacionais. É uma pena que nosso circuito não lhe tenha feito jus, mas felizmente ele foi honrado ao ganhar o prêmio de Melhor Longa-Metragem pelo Júri da Crítica no 42° Festival de Gramado. Não acredito que este seja o melhor filme de Juliana Rojas, mas ler sua originalidade na tela e acompanhar seu talento me fazem crer que ela é capaz de revolucionar o cinema brasileiro como representante feminina.

  • Duração: 1h25 min.
  • Direção: Juliana Rojas
  • Roteiro: Juliana Rojas
  • Elenco:  Eduardo Gomes, Luciana Paes,  Hugo Villavicenzio, Germano Melo, Augusto Pompeo, Paulo Jordão, Adriana Mendonça, Luís Mármora, Antônio Velloso

 

Sinfonia da Necrópole (2014) | Crítica

7.5

Nota

7.5/10

Amanda Veiratto

Me chamo de artista, porque a arte - para mim - molda encontros com a alma e se sobressai em busca da perfeição. Se irei encontrá-la? Não sei dizer, mas o desafio está aceito. Residente do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro/RJ, cursa Cinema e Audiovisual na Universidade Federal Fluminense, é palhaça-aprendiz na Oficina "A Verdade do Palhaço" Palhaçaria com Técnicas Teatrais, estuda teatro na Oficina "Os Dionísios Cia de Teatro", Cineasta independente, Fotógrafa na empresa Mandyton Fotografias, Diretora de Comunicação na ONG Novos Líderes Empreendedores que atua diretamente com jovens das favelas do Rio de Janeiro, poetisa nas horas vagas e agora está tentando ser crítica de cinema.

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