maio 28, 2020

Speed Racer é um fascinante exercício de linguagem cinematográfica: após revolucionarem a sétima arte com o impacto cultural da ficção cyberpunk Matrix, lançada em 1999, as irmãs Lilly e Lana Wachowski concebem aqui uma construção narrativa tão revigorante e puramente autoral que transporta com funcionalidade o universo das corridas presentes no mangá/anime, e tudo sem jamais tentar elaborar uma pretensa seriedade que pouco funcionaria e assumindo uma cafonice agradável aliada a uma experiência sensorial psicodélica que é estampada de imediato no logo da Warner Bros. no começo da projeção.

Em momento algum, as irmãs se desvinculam do exagero: os carros desafiam a gravidade, saltam, usam trapaças como colmeias lançadas por uma catapulta embutida no automóvel, os personagens vivem em um mundo banhado por cores intensas, vibrantes e incandescentes, o humor é constantemente infantilizado (no bom sentido da expressão) e a maioria das figuras em cena agem com mais intensidade em suas emoções expressas em cena (o discurso vilanesco de Royalton, por exemplo), mas é tudo funcional dentro da proposta irrealista das Wachowski, já que tais aspectos remetem a características básicas das produções animadas orientais. A cafonice em Speed Racer é mais que admirável, é necessária.

Assim como Paul W. S. Anderson transportou a linguagem de gameplay para o terreno das adaptações de Resident Evil (em especial, o quinto filme) e Edgar Wright transpôs a atmosfera dos quadrinhos de Bryan Lee O’Malley na narrativa de Scott Pilgrim Contra o Mundo, as irmãs Wachowski inserem as principais características de um anime em seus contornos narrativos. E o resultado não poderia ser mais agradável: além de constantemente trazer um ritmo estimulante a todos os segmentos, há uma fluidez na maneira como certas informações são contextualizadas ao público, jamais vendo a necessidade de estagnar a trama para explicar certo aspecto, mas fazendo o oposto: inserindo essa contextualização dentro da cena. Um bom exemplar é a abertura onde, de modo inteligente, conhecemos o passado de Speed durante uma sequência de corrida.

Claro que, tudo isso não seria possível se não fosse a excelente articulação das diretoras, que possuem um fabuloso domínio da linguagem cinematográfica: a montagem, por exemplo, renega transições clássicas de cena e adota um estilo mais autoral que usa ângulos de perfil para realizar a mudança de cenas, com a cabeça e ombro dos personagens passando enquanto puxam o próximo momento. Um exemplo pode ser visto no instante que Royalton (Roger Allam) comenta sobre a próxima corrida e as diretoras utilizam a distorção do fundo para transicionar e focar na corrida em si, alternando assim entre dois momentos, um no presente e outro, no futuro e isso sem jamais criar uma confusão na compreensão dos segmentos, mostrando uma noção impressionante de transmitir informações simultâneas sem criar uma incompreensão do que está sendo mostrado.

Outro excelente aspecto é a maneira como as Wachowski empregam o CGI de maneira mais livre e menos presa a uma noção realista. Aqui, devido a proposta fantasiosa e propositadamente estilizada, os efeitos visuais acompanham essa idealização ao serem funcionais em sua plasticidade e ainda conseguirem encher os olhos de seu público, especialmente em como são empregados nas sequências de corrida, abraçando o exagero ao mostrar batidas e explosões que não matam os corredores, já que esses são protegidos em uma espécie de bolha segundos antes da destruição completa do automóvel. E, além de bem dirigidas, já que a câmera é solta e se permite mudar de foco ao transicionar de um corredor a outro, são uma explosão de cores e luzes que a cinematografia de David Tattersall (Death Note) incita muito bem.

Todo o fascinante trabalho de linguagem visto aqui pode ser bem classificado como iconoclasta, já que transcende a forma clássica de contar eventos narrativos e conduzir conversas entre personagens. Um bom exemplar é o segmento onde Royalton e Mr. Musha (Hiroyuki Sanada) conversam, algo que as Wachowski enfocam, mostrando suas cabeças transpassando a tela, horas lado a lado ou de frente ao outro (isso mesmo que os personagens se encontrem um ao lado do outro). Já em outro instante vemos Pops (John Goodman) conversar com Rex Racer (Scott Porter) e o instante é enfocado com ambos se posicionando em lados contrários do plano e bem focados, mesmo Rex se localizando em uma distância maior do enquadramento (e esse instante gera um paralelo emocionalmente rico no ato-final).

E mesmo com todo o virtuosismo estilístico das irmãs, elas não esquecem de fundamentar o componente emocional da conexão do público com seus personagens, mérito atribuído ao casting cativante: Emile Hirsch exibe um carisma ímpar que materializa Speed em um protagonista admirável; já John Goodman e Susan Sarandon conferem personalidades extremamente acolhedoras, de suas formas específicas, na personificação dos pais da família; Christina Ricci é uma graça ao compor Trixie com uma aura radiante e sempre confortadora, no passo de que Paulie Litt como Spritle cobre as lacunas humorísticas com fluidez. E se Matthew Fox constrói uma essência misteriosa no Corredor X, Roger Allam encarna um antagonismo clássico admirável em seus exageros.

A dinâmica da família Racer é fundamental para estabelecer um subtexto belíssimo sobre a força vital e a importância do laço familiar e da conexão com nossas raízes, elemento que molda as ações e decisões de Speed, além do amor a corrida, é o eterno carinho e afeto que sente por cada um dos seus familiares – algo que é exposto no instante que recusa o contrato de Royalton. E, além de traçar tal mensagem, as irmãs articulam uma admirável visão sobre o poder unificador da arte e o olhar utópico de como ela existe para modificar o nosso íntimo (“Não importa se a corrida nunca muda. O que importa é se deixarmos que a corrida nos mude.“) e como ela pode unir pessoas diferentes em prol de uma mesma paixão.

Fechando com um dos clímax mais intensos da carreira das Wachowski, Speed Racer é o tipo de filme onde vemos um beijo entre o casal da obra ser atrapalhado apenas para que ocorra da maneira como visualizaram. Um artifício cartunesco que incita claramente a atmosfera e o tom narrativo desse espetacular exercício de linguagem cinematográfica proposto por duas realizadoras que são incompreendidas pela maneira como quebram e desafiam as regras da sétima arte.

Cineastas assim não aparecem todos os dias.

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