Suprema (2018) | Crítica

Uma das figuras mais notórias da História do mundo jurídico, Ruth Bader Ginsburg é também uma das mulheres mais influentes da atualidade. Aos 86 anos, completados no último dia 15 de março, ela ocupa hoje uma cadeira da Suprema Corte dos Estados Unidos. Indicada pelo então presidente Bill Clinton, em 1993, para chegar até lá, o caminho foi longo e árduo. Duas produções recentes contam sua trajetória de luta e perseverança com muita garra, verdade e emoção. Uma delas está em cartaz nos cinemas brasileiros, em circuito limitado, e merece ser prestigiada.

“Suprema” começa com sua chegada à Harvard na década de 1950, onde se depara com um ambiente dominado por homens. Casada com Martin e com uma filha pequena, ela não abaixa a cabeça e se forma com honra. Apesar de ter sido a primeira de sua turma, Ginsburg enfrenta dificuldades para conseguir emprego nos escritórios de advocacia. Enquanto o marido se consolida como advogado tributarista, ela se torna professora sobre Desigualdade de Gênero. Ao se deparar com um caso de discriminação, Bader decide enfrentar o Estado e as leis vigentes.

Armie Hammer como Marty Ginsburg e Felicity Jones como Ruth Bader Ginsburg. Foto: Divulgação.

Sobrinho da cinebiografada, Daniel Stiepleman contou com ajuda da própria para escrever o roteiro. Sem jamais colocar a mulher como melhor que o homem, houve o cuidado em enfatizar a busca pela igualdade. O fato de trabalhar fora de casa e ser independente não diminuíram o seu papel de mãe e esposa. Como um exemplo para muitos do sexo masculino, Martin, interpretado por Armie Hammer, foi seu maior incentivador, se indignando ao ver as portas se fechando para a mulher e assumindo a vida doméstica enquanto a mesma corria atrás de sua realização profissional e pessoal.

Felicity Jones cumpre bem a missão de viver Ruth Bader Ginsburg. Do controle das emoções ensinado pela mãe à capacidade de convencer as pessoas através de argumentos, a atriz a compõe através de detalhes no figurino, na forma de arrumar o cabelo e na postura aparentemente frágil. O elenco também conta com Justin Theroux, como Mel Wulf, diretor da União Americana de Liberdades Civis; Kathy Bates, como a advogada e ativista Dorothy Kenyon que merecia um filme só seu; Sam Waterston, como o reitor Erwin; e Stephen Root, como Professor Brown.

Felicity Jones, Cailee Spaeny e Kathy Bates em cena de “Suprema”. Foto: Divulgação.

Assinando mais trabalhos na TV, a diretora Mimi Leder comanda a cinebiografia. Com fotografia de Michael Grady e trilha sonora de Mychael Danna, em termos narrativos, a forma e o estilo não fogem do convencional. O que não significa que não seja bem realizada. Apesar dos inúmeros e importantes casos defendidos pela então advogada, “Suprema” foca em apenas um. Dentro de sua proposta, não chega a ser um problema, até porque seria impossível abordar todos. O título em português, inclusive, antecipa os fatos. Assim se chega à segunda obra.

Indicado ao Oscar de melhor Documentário este ano e de melhor Canção Original, “RBG” conta com a própria Ruth Bader Ginsburg diante das câmeras falando sobre sua vida e carreira. Dirigido por Julie Cohen e Betsy West, de imediato se percebe quão conhecida ela se tornou, a ponto de ser vista como um ícone pop. Além de filmes e livros, sua imagem hoje está presente até em camisetas e canecas. Das decisões firmes no tribunal aos momentos de puro deleite na ópera, as pessoas que se relacionaram com ela ao longo dos anos ajudam a traçar seu perfil.

Ruth Bader Ginsburg no documentário sobre sua vida “RBG”. Foto: Divulgação.

A abreviação do nome é uma referência ao rapper The Notorious BIG. Após uma de suas explanações, a jovem estudante de Direito Shana Knizhnik decidiu criar uma conta no Tumblr chamada “Notorious RBG”. A fama de Ruth foi crescendo na medida em que a Corte em que ainda faz parte se tornava mais conservadora. A magistrada se tornou assim a voz discordante da maioria, como demonstrado em vários áudios do tribunal. Entre seus opositores, ela é vista como de esquerda por suas posições progressistas. Já para muitos outros, suas decisões são meramente justas.

Ao comparar as duas obras, “Suprema” apresenta apenas um terço da história e acaba não tendo o mesmo impacto e abrangência de “RBG”. Ainda assim, elas se complementam. Sabendo que a luta pela igualdade de gênero ainda não está totalmente vencida, se mostrando acirrada em vários momentos no âmbito político, social e cultural, conhecer o legado de Ruth Bader Ginsburg é ficar atento (a) para que a sociedade não retroceda no tempo e nas conquistas. Como dito em determinada cena, o juízo não muda de acordo com a temperatura do dia, mas acompanha o clima da época.

  • Suprema (On the Basis of Sex)
  • Duração: 120 min.
  • Direção: Mimi Leder
  • Roteiro: Daniel Stiepleman
  • Elenco: Felicity Jones, Armie Hammer, Justin Theroux, Sam Waterston, Kathy Bates, Cailee Spaeny, Jack Reynor, Stephen Root, Chris Mulkey, Gary Werntz, Francis X. McCarthy, Ben Carlson

Moisés Evan

Formado em Jornalismo, acredito na cartilha de "The Post", e também em Publicidade, mas sem a intenção de fazer "Três Anúncios para Um Crime". Como "Lady Bird", ao alçar voo para outras bandas, cheguei até aqui. Tem horas que o mundo parece nos envolver numa "Trama Fantasma" ou nos colocar numa enrascada como em "Dunkirk". Não vou mudar "O Destino de Uma Nação" escrevendo sobre o que mais amo, mas sempre que eu postar, espero que você "Corra!" para ler e não tenha receio de comentar e/ou discordar. "Me Chame Pelo Seu Nome"? Melhor não. Mas pode ser pôr @sr.lanterninha. Vivo num mundo de sonhos e monstros e um dia hei de descobrir "A Forma da Água" em seu estado mais bruto e belo.

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