dezembro 1, 2020

Tenet (2020) | Crítica

     Depois de um longo hiato a sétima arte está de volta com os lançamentos no Brasil, é um momento singular e o sentimento do cinéfilo mais caloroso certamente está aflorado, isso é um fator que poderá influenciar a experiência nesse retorno, pelo menos aqui. Tenet é um filme que entrega muito Cinema, como arte, como espaço e obviamente a emoção irá se misturar com a razão, é preciso, se quiser, ter cautela com o que vai ver. Christopher Nolan entrega mais uma vez sua assinatura e dessa vez em “negrito”, todo tipo de espectador sairá satisfeito, seja o fã ou o hater, todos encontrarão seus motivos que os fizeram chegar ao seu sentimento pelas obras do diretor, claro, quem está nesse meio termo também sairá com uma boa sensação.

 

       Logo de cara o filme já anuncia seu tom, a imersão começa com uma grande cena em vários sentidos, ação, tensão, espaço, escala…é uma jogada que poderia parecer ousada se não fosse o Nolan na direção. Abrir com uma grande cena não é muito comum, geralmente os filmes guardam essa “performance” para o final ou em viradas de ato, subir o sarrafo no inicio do filme é assumir o risco de não descê-lo mais, mas esse é o primeiro grande ato, o diretor tem consciência do seu produto e ao final do filme você percebe que essa é a intenção, mostrar a grandiosidade do que está por vir. No entanto, é nesse mesmo inicio que o filme apresenta o seu maior problema, tudo que é relacionado ao som sofre com altos e baixos, você quer ouvir o barulho dos tiros, mas também quer ouvir o resto do ambiente, você quer sentir a imersão que a música de fundo traz, mas também quer ouvir o ator falando, a pisada de personagens se aproximando ou o próprio ambiente, esse problema acompanha o filme do inicio ao fim, deixando para o ultimo momento o som natural, sem, uma boa, mas exagerada, trilha; uma mixagem tão bem balanceada em outros filmes, aqui parece ter perdido o fio.

     O problema citado anteriormente não diminui o filme, só não deixa ele maior como poderia, porque ao longo dos seus 150 minutos o que vemos é uma dedicação ao cinema da melhor forma visual possível. O mesclar da câmera entre fechar no ator e depois abrir mostrando tudo que existe ao redor é de causar brilho nos olhos, o analógico é classudo e Nolan sabe disso. Sentir o impacto da ação, do concreto, do aço, das ondas do mar é o convite que o espectador esperava, em vários momentos é um filme para sentir, é o “vem comigo!”. Sabe quando você vai ao parque quando criança e alguém te pega na mão e mostra tudo ali? É um verdadeiro passeio, visualmente falando o filme é perfeito e optar por mais efeitos especiais e não visuais foi uma boa escolha.

     É importante dizer que Tenet possui uma característica que marca a filmografia do diretor; o tom de espionagem! porém aqui é mais aflorado e é bem positivo, pois casa com as ideias e estruturas escolhidas no início, o efeito é parecido com quem esperava um filme de guerra frenético em  Dunkirk (2017), todavia esse soou como um dos filmes de espionagens mais frenéticos que já vi, a trama se desenvolve de forma alucinada junto com a ação. Outras características também estão presentes, uma que causa sempre grandes debates é o roteiro e como o diretor é o roteirista, o alinhamento das ideias segue exatamente o seu querer e apesar de ser visto em outros filmes, aqui surgem soluções não apresentadas em outras obras, como é caso do tema “tempo”. Presente em outros filmes, aqui a física surge como ponto chave para a construção e o entendimento e mesmo antes do filme ser lançado, o diretor já estava explicando do que se tratava, outra mania do “padrão Nolan” e é aqui que o espectador pode se perder, não pelo que está sendo dito no texto, falo em breve, mas pelo que está sendo mostrado em tela, é muita informação para entender a dinâmica, um pouco de atenção aqui e o roteirista se encarrega do resto. Como citado anteriormente, a ciência está presente junto com o conceito do tempo, é fato que Nolan gosta disso, mas essa mania de querer complicar no texto com palavras e termos complexos para que depois um personagem explique ao público o que ele quer dizer, está batido e estimula até uma atitude blasé, de novo? “Está na tela, já foi dito, não precisa repetir”; é repetitivo e certamente vai aguçar o fã metido a cult que vai dizer: “é preciso pensar para entender” ou a famigerada “tu não entendeu o filme”, mas muitas vezes as pessoas esquecem que o objetivo não é “entender”, é sentir, você precisa sentir o filme; obviamente não estou falando que essa característica não é boa, claro!, é muito rico trazer conceitos científicos (entropia), mas não precisa por personagens explicando, deixa o público ou traz só o conceito, já é suficiente. Lembro que no final do segundo ato eu pensei: “será que vai rolar aquele furo?” eu prefiro roteiros em tela do que em texto, um roteiro pode ser ação ou comédia, depende do diretor, pode ser simples ou complexo, o problema da complexidade é que quando você chega em um limite, as coisas simplesmente acontecem, “como?”, “quando?”, estranhamente isso se faz presente em vários filmes do Christopher Nolan, se é bom ou ruim, depende do que você busca, para mim é o alívio cômico que não teve no filme, nem precisava também.

     Uma das coisas que mais gosto do trabalho do Nolan é sua capacidade de dirigir elenco, a naturalidade que as coisas acontecem em tela, o tom confortável dos atores em cena deixa tudo mais homogêneo, aqui isso não é diferente. Desde a pequena participação, porém importante, de Aaron Taylor-Johnson, ao excelente trabalho de John David Washington e Robert Pattinson, mostra que o diretor tem o elenco afiado e na mão. A evolução de Washington, de Ballers (serie da HBO) até aqui é gritante, seu personagem em Infiltrado na Klan é melhor, mas aqui o ator tem seu melhor desempenho e essa versatilidade apresentada direciona sua carreira para outro nível, certamente será um protagonista recorrente em outras produções. Já Pattinson confirma o que muita gente prefere não ver por insistir nas piadas, seu personagem pede mais, pede um grande arco só seu, se existisse um filme chamado “Tenet: Neil origens”, eu estaria no primeiro dia para assistir, uma ótima atuação e um ótimo personagem. O restante do elenco é funcional e competente, mesmo com personagens estereotipados, o que acontece é tão maior que nem tempo para eles sobra.

     Por fim, vale ressaltar que a estética escolhida pelo cineasta é algo que merece todos os créditos, desde a escolha pelo maior uso de efeitos analógicos, garantindo que tudo seja palpável, até a mistura de estilos e elementos do cinema. Tenet é um filme de espionagem, que tem o script do filme de roubo; é uma mistura de ficção e ciência, quando usa o conceito de espaço invertido para trazer seus conceitos sobre o tempo, usando a física como base e no fim de tudo converge num poderoso blockbuster de ação, é cinema a serviço do cinema e com certeza vai dar ao público um grande abraço nesse retorno as salas.

 

Avaliação: 4 de 5.
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